José Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida

Viajante incansável

“Às vezes precisamos viajar. Não digo conhecer outros lugares, isso também é bom, refiro-me ao nosso território interno. É preciso mergulhar, descobrir cada lugar, o recôndito mais profundo. É que não devemos nos perder de vista, nossos olhos têm sempre que nos acompanhar, ver onde estamos e o que fazemos”.


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Enquanto leio o Salmo 70, ouço Bach.

A melodia relaxante acalma meus sentidos. “A paz invade meu coração”.

Li num estudo que ouvir música clássica ativa áreas do cérebro ligadas à emoção, cognição e autonomia, além de liberar dopamina que afeta nosso humor e nossa sensação de bem estar.

De repente, não mais que de repente, fixo meu olhar na imagem do quadro da parede. Contemplo. Sorrio. Rabisco os primeiros versos de um novo poema. Lá fora, o vento anuncia a vinda da tempestade. Pingos de chuva pipocam na minha janela.

Desço as escadas atrás de uma garrafa de vinho. Sinto um gostoso aroma fluir do lado de fora. A chuva toca o asfalto. Observo que as folhas das árvores no chão são arrastadas.

Sem medo, eu abro a porta e respiro aquele ar de renovação e esperança. Que gostosa sensação! Subo as escadas e apanho o livro de Rilke na minha humilde biblioteca. Ler esse livro será a minha viagem.

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A única viagem é a interior

O autor dessa frase “A única viagem é a interior” é de Ranier Maria Rilke.

Rainer Maria Rilke foi um genial poeta. O poeta que soube expressar a tristeza como poder criativo. Ou seja, ele foi o poeta que usou a tristeza como um mecanismo criativo, como uma musa para seus versos.

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Rilke, em seus versos, nos ensinou a superarmos as perdas, a sermos curiosos, e a encontrarmos a luz na complexa floresta do nosso ser interior. Sua arte, e sobretudo suas cartas, contêm a magia da transformação. Ele nos ensinou a encontrar a luz na escuridão, nos encorajou a superar as perdas, a ser pacientes e curiosos em nossos valores internos e a aceitar a natureza solitária do homem.

Os biógrafos dizem que Rilke foi um artesão do amor e um especialista no campo da solidão escolhida. Ele tinha o hábito de se apaixonar por muitas das princesas, condessas e duquesas do Império Austro-Húngaro. Era um poeta errante, um viajante incansável, que se hospedava em mansões e palácios e arrebatava a todos com sua arte, para depois ir embora deixando-os vazios. É verdade que a vida de Rilke foi definida por uma transumância existencial que o levou a ir, de cidade em cidade, de mulher em mulher.

No entanto, havia um desejo avassalador de fugir de algo, e esse algo talvez fosse ele próprio. A tristeza foi sua verdadeira e mais fiel amante. Por isso, ele definiu a impregnação dessa emoção na vida como ninguém.

Rilke comparava as emoções à arquitetura de uma casa. Ele dizia que quando a melancolia e a tristeza entram em nós, ficamos imóveis. Nos tornamos edifícios, muros e paredes. Construções rígidas. No entanto, de acordo com ele, também temos o poder de nos transformar.

Tornou-se famosa uma carta que ele escreveu para Sidonie Nádherná von Borutín, esposa do escritor Karl Kraus, após saber do suicídio de seu irmão. “A vida dele deve agora continuar dentro da sua”, escreve ele, “a perda não é uma separação. Busque harmonia, busque significado e crie algo novo com a memória dele e com o seu carinho”.

Fonte: https://amenteemaravilhosa.com.br/rainer-maria-rilke-poeta/


José Silveira

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