José Renato Ferraz da Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida

Com uma obra de amarguras, a glória veio-lhe às mãos

“Estou convencido de que Schopenhauer é o mais genial dos homens. (…) Ao lê-lo não posso compreender como o seu nome pôde permanecer desconhecido. A única explicação possível é a que ele mesmo repete tantas vezes, de que há quase só idiotas no mundo”. Tolstói


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A influência da filosofia de Schopenhauer (1788-1860) foi grandiosa em todos os ramos: na ciência, na filosofia e na literatura. O seu intuitivismo serviu como material para Bergson compor a sua filosofia. Os questionamentos do pessimista alemão deram nascimento à psicanálise de Freud. Os escritos combativos e pessimistas de Schopenhauer iriam exercer influências em figuras tão diversas como Wagner, Tolstoi, Nietzsche, Burkhardt e Wittgenstein.

Porém, Schopenhauer - em vida - teve o seu reconhecimento de forma tardia.

Em 1818, quando escreveu "O mundo como vontade e representação", enviou o manuscrito a um editor com uma nota nada modesta, como era a sua característica: “Este livro será no futuro a fonte e a motivação de um centena de outros livros”.

Durante muitos anos, décadas até, a obra mais conhecida (atualmente) de Schopenhauer seria extremamente mal sucedida. Dizem que dezesseis anos mais tarde, os editores informaram a Schopenhauer que quase toda a pequena primeira edição de sua obra prima fora transformada em papel picado. Sua reação diante desta indiferença por parte de seus contemporâneos foi típica de Schopenhauer: “Deveria um músico sentir-se lisonjeado com o aplauso entusiasta da plateia, se soubesse que eram quase todos surdos?

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Em 24 de março de 1820, solicitou a abertura de um curso privado na Faculdade de Filosofia de Berlim. Foi aprovado. Em poucos dias, inaugurava com o título de professor titular (privat-docens), um curso de cinco horas semanais “sobre a filosofia em geral, isto é, sobre a essência do mundo e sobre o espírito humano”. O curso foi um fracasso completo. As suas aulas não duraram mais que um semestre. Tudo em volta dele era desespero. Suas teorias filosóficas não conseguiram vencer na cátedra. Nem nos livros.

Do período de 1820 a 1830, a sua vida foi de uma esterilidade especial. Embora, estudou muito, leu muito, anotou tudo, mas não conseguiu cristalizar nada de novo. Propunha tradução de David Hume (para o alemão) e Kant (para o inglês). Recebia negativas. Fracassos atrás de fracassos. Os editores não aceitavam suas propostas editoriais. Em 1831, “com uma obra de amarguras, a glória veio-lhe às mãos”, em Frankfurt, foi onde encontrou um biógrafo – Gwinner. Lá também encontrou os primeiros discípulos. Ao cabo de tantos anos de espera, a fama abriu-lhe as portas para a glória e a imortalidade.

Discípulos e admiradores se multiplicavam. O seu nome se espalhava pelo mundo. Revistas alemãs e estrangeiras começavam a proclamar seu nome. A Faculdade de Leipzig abriu um curso para explicar a sua filosofia. Protestos de admirações; banquetes, flores em seus aniversários. Viajantes chegavam especialmente para sentar-se com ele na mesa redonda do Englischer Hof on Rossmarkt. Era a glória enfim, a glória tão almejada e tão esperada. W. Durant disse que Schopenhauer no fim da vida quase virou otimista. Será?

No cemitério de Frankfurt, onde foi enterrado, existe uma lápide de mármore negro, tal como foi a sua vontade, oferecendo à curiosidade do emocionado visitante apenas estas duas palavras: Arthur Schopenhauer.

Fonte: SCHOPENHAUER, Arthur. As dores do mundo: o amor – a morte – a arte – a moral – a religião – a política – o homem e a sociedade. Trad. José de Souza Oliveira. São Paulo: EDIPRO, 2014.


José Renato Ferraz da Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida.
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