José Renato Ferraz da Silveira

Professor universitário, bon vivant, hedonista e feliz com a vida

O triunfo da vontade (Triumph des Willens)

Como afirma um dos mais destacados especialistas na História da Alemanha, Richard J. Evans, o Terceiro Reich não foi uma ditadura estática ou monolítica; foi dinâmico e de rápida movimentação, consumido desde o princípio por ódio e ambições viscerais. Uma das formas que O Terceiro Reich operou a conquista do povo alemão foi através da propaganda. Dizia Joseph Goebbels sobre a propaganda: “Esse é o segredo da propaganda: impregnar a pessoa das metas a serem captadas sem que ela perceba que está sendo impregnada. Claro que a propaganda tem um propósito, mas o propósito deve ser escondido com tamanha sagacidade e virtuosismo que a pessoa sobre quem esse propósito deve ser posto em prática não deve percebê-lo de modo algum”.


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“Grandes mentirosos são também grandes mágicos” (Hitler)

O correspondente estadunidense William L. Shirer que compareceu a um comício do Partido Nazista confidenciou em seu diário de 05 de setembro de 1934:

“Fui apanhado por uma turba de dez mil histéricos que se apinharam no fosso diante do hotel de Hitler gritando: “Queremos nosso líder”. Fiquei um pouco chocado com os rostos, especialmente das mulheres, quando Hitler enfim apareceu no balcão por um instante. Lembrei-me das expressões enlouquecidas que vi certa vez no interior da Louisiana, no rosto de alguns pentecostais prestes a rolar pelo chão. Olhavam para ele como se fosse um messias, os rostos positivamente transformados em algo não humano. Se ele tivesse permanecido à vista por mais de alguns poucos instantes, acho que muitas mulheres teriam desmaiado de excitação”.

Uma “grande pompa” seguiu-se a outra, escreveu Shirer. A intenção de Hitler e Goebbels era transmitir esses comícios não só para a Alemanha, mas para o mundo. Tendo em vista essa meta, Hitler fez arranjos para que todo comício de 1934 fosse filmado, encarregando a jovem e talentosa atriz e diretora de cinema Leni Riefenstahl da tarefa e emitindo ordens de que deveria ser munida de todos os recursos de que necessitasse.

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Com 30 câmeras à disposição, operadas por 16 cinegrafistas, cada um com assistente, e quatro caminhões com equipamento de som, Riefenstahl fez um documentário como nenhum outro até então. Uma equipe de 120 dispôs de novas técnicas, como lentes telefoto e fotografia em grande angular, para obter um efeito que muitos consideram hipnótico quando o filme foi lançado em 1935 com o título – escolhido pelo próprio Hitler – de “O Triunfo da vontade”.

Foi o único filme sobre Hitler feito durante o Terceiro Reich. Evans afirma: “disse tudo o que havia a ser dito e não precisou ser seguido de outro”.

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Foi lançado em março de 1935 com aclamação generalizada, não apenas na Alemanha, mas também no exterior. Ganhou o Prêmio Nacional do Cinema, entregue a Riefenstahl por Goebbels, que o descreveu como “uma magnífica visão cinematográfica do Führer”, e também foi agraciado com a Medalha de Ouro do Festival de Veneza em 1935 e o Grande Prêmio do Festival de Cinema de Paris em 1937. Continuou a ser exibido nos cinemas e, embora proibido na Alemanha após a guerra, permanece como um dos grandes clássicos do documentário de propaganda do século XX.

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Na realidade, “O Triunfo da Vontade” mostra à História como o Terceiro Reich moveu massas em direção ao terror através da propaganda e também como Hitler tinha uma incrível habilidade de comover multidões e fazê-las acreditarem e realizarem suas vontades através do poder de sua palavra. “Toda propaganda tem que ser popular e acomodar-se à compreensão dos menos inteligentes dentre aqueles que pretende atingir" (Hitler).

Fonte: EVANS, Richard. J. O Terceiro Reich no poder. Trad. Lúcia Brito. 2 ed. São Paulo: Planeta, 2014.


José Renato Ferraz da Silveira

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