outras frequências

Constantes inquietações que transbordam e vibram em outras frequências.

As mulheres nas músicas de Chico Buarque

Quantas Joanas, Carolinas, Ritas, Luízas fizeram Chico perder a cabeça? E em quantas Cecílias, Beatriz, Bárbaras, e outras mais, ele achou o seu coração? Músico, escritor e dramaturgo, Chico canta, escreve e dramatiza as mulheres, como ninguém. Ele encarna em suas belas canções os sentimentos mais complexos e contraditórios do universo: os sentimentos de uma mulher.


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Sou dessas mulheres que só dizem sim. Não. Nem tanto! Às vezes tem aquela história: a roda da saia, a mulata, não quer mais rodar, não senhor. Em torno desse paradoxo, que compreende o instinto feminino, nunca quiçá tão bem retratado, o universo da obra de Chico Buarque ressalta os extremos de uma mulher, que vão de sua força a sua fragilidade. Quantas Joanas, Carolinas, Ritas, Luízas fizeram ele perder a cabeça? E em quantas Cecílias, Beatriz, Bárbaras, e outras mais, ele achou o seu coração? É uma dúvida constante cada vez que escuto as músicas de Chico Buarque, cada vez que me sinto como as mulheres de suas músicas.

Chico canta (para) as mulheres. E são muitas. E sei que todas as mulheres se reconhecem em cada uma delas. Porque desconfio, que pode ser uma só. Afinal de contas, quantas mulheres, não existem em uma só? Quantas facetas não cabem em uma mulher só? Ele escreveu mulheres doces, mulheres fortes, mulheres amargas, têm as frágeis, as românticas, também diamantes brutos e gênios bem lapidados.

Músico, escritor e dramaturgo, Chico canta, escreve e dramatiza as mulheres, como ninguém. Sim, porque para traduzir a mulher o mais fiel possível, é preciso dramatizar. Suas composições, demasiadamente intensas, tanto quanto o amor de suas histórias, são essencialmente românticas e cheias de poesia. São letras que notoriamente elevaram o ponto de vista feminino, podendo confirmar até uma alma feminina aguçada dentro dele, uma sensibilidade que transcende um bom observador e admirador das mulheres. Mas é muito mais desafiador que isso, é encarnar em suas belas canções os sentimentos mais complexos e contraditórios do universo: os sentimentos de uma mulher.

Iolanda é romântica, sem procurar a justa forma. Beatriz não se sabe, se é mentira, se é real, se é comédia, porque é atriz, e como tal é aquilo que a convém. Carolina guarda a dor de todo o mundo, em seus olhos tristes, a dor de um amor. Rita foi embora, orgulhosa, deixando tudo para trás, só levou o pouco que tinha e deixou tudo, o coração partido do seu amor. Teresinha, ah, Teresinha sempre escolheu, muito seletiva e criteriosa, mas quando a paixão chega e arrebatadora, não lhe deixou escolha nem opção de dizer não, ele se instalou feito um posseiro. E Luíza? Será que tem um coração de pedra? Deixou seu pobre amador, um aprendiz de seu amor, implorar por sua boca, por seus beijos. Cecília parece inalcançável, um amor platônico na realidade, porque no sonho de seu admirador é muito possível, uma musa idolatrada. E a Bárbara é entregue, aos seus desejos mais profundos, vive por uma paixão transbordante. E assim são todas as mulheres, em sua legítima intensidade.

Na cadência de suas canções assimila-se o ritmo dos amores que Chico escreve, modificando tudo por dentro, dilacerando mesmo, e com uma capacidade absurda de ser profundo com certa sutileza. E esse é um cenário que influenciou e ainda influencia, visto que sua obra é imortal, a sociedade feminina brasileira. Porque satisfaz o ego e o desejo de ser compreendida de cada mulher atingida com o poder de sua música. Além do que estimula as mulheres a se despirem de qualquer máscara, de soltarem as algemas, de serem sem medo quem são, sem qualquer complexo de tentativa frustrada de perfeição, apenas serem de verdade. E ainda escancara para os homens que esse poder é apenas o reflexo da inspiração, o poder mesmo é das mulheres.

Não, Chico não é nem um ativista do feminismo. Nem de longe. Esteve (está) cercado de mulheres, foi casado por 33 anos, teve três filhas. É daí então que vem a sua transposição e um espírito feminino capaz de contornar tão bem esse universo? Talvez. Mas há de se dizer aqui outra vertente e ótica um tanto quanto diferente e mais aprofundada sobre isso: ele apenas escreve e canta aquilo que na verdade ele quer escutar das mulheres, aquilo que ele quer que elas sintam além daquilo que consome sua razão, que foge ao seu controle, que é muito maior que qualquer romance. Ele se põe com olhos nos olhos, com todo seu pranto, com açúcar e com afeto, uma hora sendo herói, outra sendo rei, mas sempre fatal, sempre preciso. Ele rouba os sentidos, com segredos indecentes e até a alma sente-se beijada. Ele pode cantar as mulheres, pode cantar para as mulheres, pode cantar até como as mulheres. Mas ele encanta é a todos. Porque, quem, em sã consciência (ou não), não para tudo para ver a banda passar cantando coisas de amor?!


version 1/s/musica// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Manu Marques