outras frequências

Constantes inquietações que transbordam e vibram em outras frequências.

O boi bomba muito, lá para as bandas do Maranhão

Mesmo o Bumba Meu Boi sendo uma dança popular do folclore brasileiro, e tendo seu surgimento nos estados do Piauí e Pernambuco, onde ela realmente “bombou” e faz sucesso com total legitimidade é em terras maranhenses. E ninguém vai conseguir calar a voz desse batalhão, ou apagar o legado desse povo.


Os julgamentos são muito perigosos. E quando eles são feitos carregados de ódio e preconceito sobre a cultura e o legado de um povo, a questão deixa de ser sobre a cultura e o legado, mas sobre quem e o quê eles representam.

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Não é de hoje que vejo e ouço falar numa divisão e troca de ofensas entre diferentes regiões do Brasil. Um país que tem a felicidade de ser tão singular por ter tanta diversidade em sua cultura, deveria ser motivo de orgulho para a sua gente. De norte a sul, nosso país festeja inúmeras tradições, manifesta sua arte oriunda de vários povos, esbanja paisagens e belezas naturais tão contraditórias, tudo isso resultando numa riqueza tão plural, só encontrada aqui.

E nos últimos dias, as redes sociais foram invadidas por uma repercussão de uma declaração agressiva e de discriminação à cultura maranhense. E situações como estas ainda conseguem me chocar profundamente. Eu sempre defendi que nós não somos obrigados a gostar e a participar das manifestações culturais do lugar de onde pertencemos, seja ele cidade, Estado ou país. Mas, nós temos sim a obrigação de conhecer e respeitar. Se nesse caso sobrou o desrespeito, não será também por falta de conhecimento. É chegada a hora de responder da melhor forma a ignorância de quem não tem a sensibilidade de compreender tamanha pluralidade cultural do nosso país: falando sobre essa cultura e esse legado.

Dentre os absurdos que foram ditos, um em especial me chamou a atenção: “... tal de bomba meu boi”, o que na realidade é “Bumba meu boi”. O fato é que eu não posso deixar de ver um fundo de verdade nisso. Sim, porque o boi bomba, e muito, lá para as bandas do Maranhão. Mesmo o Bumba Meu Boi sendo uma dança popular do folclore brasileiro, e tendo seu surgimento nos estados do Piauí e Pernambuco, onde ela “bombou” mesmo e faz um sucesso danado com total legitimidade é em terras maranhenses. O Bumba Meu Boi, que se tornou típico do Maranhão é patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. É um patrimônio de todos, embora nem todos saibam disso, e muito menos valorizem.

O Bumba Meu Boi é muito mais que apenas uma dança, é uma manifestação cultural que mistura tradições africanas, europeias e indígenas, tendo influência de festas religiosas católicas e apresentada sempre no período das festas juninas. Tal manifestação gira em torno de uma lenda nordestina sobre a morte e ressurreição de um boi. Reza a lenda que um rico fazendeiro possui um boi muito bonito, que inclusive sabe dançar. Pai Francisco, um trabalhador da fazenda, rouba o boi para satisfazer sua mulher Catirina, que está grávida e deseja comer a língua do boi. O fazendeiro manda seus empregados procurarem o boi e quando o encontra, ele está doente. Os pajés curam a doença do boi e descobrem a real intenção de Pai Chico, o fazendeiro o perdoa e celebra a saúde do boi com uma grande festividade.

Todo esse enredo, que traduz a lenda oriunda de vaqueiros nordestinos, se transformou em um conjunto de ritmos, cores, batuques, danças, teatro e elementos religiosos que exaltam alegria e beleza num espetáculo contagiante que é o Bumba Meu Boi. A essência da lenda transmitida em tal manifestação também assegura e enlaça a identidade de infinitas gerações que cresceram ao som de matracas, zabumbas e pandeirões entoando canções que exalam histórias tal qual a lenda que emana a sua origem: uma mistura de força e sensibilidade, de um povo guerreiro que luta pelos seus ideais.

E o que muita gente não sabe é que essa lenda, com a dança criada em torno do seu contexto, se espalhou para o resto do país, com diferentes nomes, ritmos, adereços e formas de apresentação. Uma manifestação bem mais tímida, mas que também faz parte da cultura de outros estados, só para confirmar a miscigenação do nosso povo, e as fronteiras que tantos colocam e que na verdade não tem, ou não deveriam ter. Bumba Meu Boi no Maranhão também é no Piauí, Alagoas e Rio Grande do Norte; boi calema em Pernambuco; boi de reis, boi-surubim e boi-zumbi no Ceará; boi de reis no Espírito Santo; boi bumbá no Pará, Rondônia e Amazonas; boi de jacá e dança do boi em São Paulo; boi janeiro e boi estrela do mar na Bahia; bumba ou folguedo-do-boi em Minas Gerais e Rio de Janeiro; boi de mourão no Paraná e Santa Catarina; e até os gaúchos dançam boi, lá chamado de bumba, boizinho ou boi mamão.

Mas como eu disse antes, o boi bomba mesmo é no Maranhão. Esse resultado da união de elementos de diversas culturas que combina comédia, drama, sátira e tragédia, é um costume incorporado a todos que nasceram e que vivem ali, ou que mesmo longe dessa terra, como eu, não deixa de se sentir representado e extremamente ferido quando alguém põe em cheque algo que transcende uma manifestação cultural, mas sim fere a história e a verdade de um povo. Levanta meu boi, sei que tu sentes dor e também chora. Assim, só me resta mais uma coisa a dizer...

O boi bomba muito, lá para as bandas do Maranhão. E ele bombeia a saudade, cá no meu coração. O batuque invoca lágrimas quando me lembro da canção. E me toca a alma, mesmo longe desse chão. O boi bomba muito, lá para as bandas do Maranhão. Bumba meu boi, bumba aí no meu torrão. Solta tuas matracas em louvor a São João. Mantém teu canto forte como manda a tradição. O boi bomba muito, lá para as bandas do Maranhão. Fonte de cultura rica que me dá inspiração. O pandeiro vai no ritmo e na cadência da emoção. E aqui sinto tuas toadas bem dentro do meu coração. O boi bomba muito, lá para as bandas do Maranhão. Bomba, meu boi, e aquece o teu pandeirão. Bomba, minha terra, a quem tenho devoção. Ê boi! Ninguém vai impedir de guarnecer meu batalhão.


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