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Crônicas sobre cinema, teatro, livros e a vida

Luciana Targino

Luciana Targino
Cearense, morando no Rio de Janeiro, Publicitária e Escritora/Cronista.
Escreve semanalmente no blog - http://blog.opovo.com.br/parissodeida.
Quinzenalmente na http://www.somosvos.com.br/categoria/colunas/

O Sorriso Eterno

O filme: O Filho Eterno, nos faz refletir sobre a normalidade de sermos todos diferentes entre nós e sobre a alegria das pessoas com Síndrome de Down, nos fazendo questionar quem é que é normal nesse mundo de seres semelhantes absolutamente diferentes entre si.
O Preconceito é que nos cega para a beleza das diferença e para o quanto poderíamos ser mais ricos espiritualmente e afetivamente se nos deixássemos aproximar do que não é espelho.


Fui assistir ao tão esperado filme do diretor Paulo Machline: O FILHO ETERNO, em cartaz no Brasil inteiro.

Pela temática da película - a história de uma família que recebe como filho uma criança com Síndrome de Down - pensei que fosse me debulhar em lágrimas pelo sofrimento em ter a vida revirada por criança “diferente”, ou ainda, que eu fosse me emocionar pela história de superação dessa família que aprendeu a aceitar as diferenças.

Nem uma coisa nem outra, ou um pouco das duas, mas de forma diferente do previsível.

O jornal, O Globo, já tinha feito sua crítica falando que o filme não é lá essas coisas de arrebatador e chamava a atenção positiva para a atuação da Débora Falabella.

Realmente, quando se trata de Débora Fallabella é meio que chover no molhado, porque ela sempre dá um banho de interpretação e traz uma carga emocional pra personagem que é bonito de se ver. Uma das nossas melhores atrizes, eu penso.

O filme não é de surpreender não, nem de deixar a gente de cara inchada de tanto chorar. Mas eu acho que ele é bonito e, sim, imperdível, exatamente por isso.

A vida de uma pessoa com a síndrome de Down não deve ter nada de surpreendente, pelo simples fato de que, antes de “ser especial”, ou “ser diferente”, ela é apenas uma pessoa, como eu e você. Incrível, não? Eureka!

Eleger determinado tipo de ser humano, com isso ou aquilo, como alguém excepcional, diferente, especial, é nos colocar em cima de um púlpito em pleno tribunal onde somos juízes e julgamos, a partir da ideia de que somos nós os "normais" e cheios de preconceitos, quem é nosso semelhante ou não.

Fazemos isso com os sindrômicos, com os gays com os negros, com os índios, com os pobres, com os albinos, com os soropositivos, com os idosos, com os que desenvolveram doenças como Alzheimer, Parkinson, com os quem tiveram uma AVC, com os cegos, com os que votam no partido oposto ao nosso, com que se veste diferente da gente, com quem age de forma distinta da nossa, com quem demora pra aprender certa matéria, com quem fala muito devagar, com quem ri alto demais...

Enfim, julgamos diferente tudo o que não se parece com nós mesmos, com o nosso umbigo.

Somos todos Narcisos.

Estranho, porque nos chamamos de semelhante nas religiões e, no entanto, nos colocamos em um patamar tão elevado dos demais, tão diferente do nosso próximo.

Ainda não consegui entender o por quê de agirmos assim, mas arrisco algumas opiniões.

Em primeiro lugar, acho que temos medo. E acho que esse medo vem de um profundo preconceito, desses que parecem ter nascido com a gente. Como se fosse hereditário, como se a gente estivesse fadado a pensar que tudo o que não é a gente está errado.

Como assim, Luciana, medo? Como vou ter medo de alguém com Down?

O medo não é da pessoa em si mas é do que ela representa. Uma pessoa diferente da gente seja qual diferença for, representa o desconhecido, um novo mundo e isso nos tira da nossa zona de conforto de tudo o que é familiar.

É como se aquela pessoa com a sua “diferença” nos trouxesse a mente de que nem tudo está da forma que gostaríamos, que nem tudo segue o fluxo que nossa imaginação idealizou, que a imagem pode sair borrada na foto e o álbum pode estar manchado. Isso é insuportável para nosso preconceito do que é familiar e “normal”.

Tolice! Assim como todo preconceito é burro, esse pensamento é o mais burro de todos, pois nos cega para o óbvio:

Somos todos diferentes entre nós mesmos e isso não nos torna nada além de sermos apenas mais um acaso que gerou uma vida. É só isso mesmo. Somos todos um conjunto de átomos, apenas.

Quanto mais eu convivo e ouço sobre “minorias”, mais eu me sinto uma pessoa menor, um ser insignificante, ignorante em meio à tanta coisa que não aprendi, a tanta gente que não conheci, a tanta cultura que deixei de absorver tanto afeto que deixei de dar, tanta vida que deixei de viver simplesmente porque me afastei do que não era eu. Tive medo.

E já que estamos nessa vida para tentarmos ser pessoas melhores a cada dia, sugiro que possamos nos deixar aproximar de tudo o que parece diferente, pensando sempre que o olhar do outro para conosco é o mesmo ou seja, somos um ser estranho para alguém.

Ainda que seja difícil demover toda a burrice preconceituosa de uma vida, a minha vida e, talvez, a sua, nunca é tarde para tentarmos nos enxergar como iguais, como portadores dos mesmos direitos.

Pois bem, voltando ao filme que, se eu fosse você iria ver, acho que a principal diferença entre uma criança com trissomia no cromossomos 21 e mim e você é que, na maior parte do tempo, elas estão felizes, sorrindo e não estão reclamando e sofrendo como nós, “os normais”, costumamos fazer.

Queria ser diferente igual a alegria das crianças com Síndrome de Down. Ta aí, seríamos mais felizes!

Sorria e bom filme! o-filho-eterno.jpg


Luciana Targino

Luciana Targino Cearense, morando no Rio de Janeiro, Publicitária e Escritora/Cronista. Escreve semanalmente no blog - http://blog.opovo.com.br/parissodeida. Quinzenalmente na http://www.somosvos.com.br/categoria/colunas/.
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