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Crônicas sobre cinema, teatro, livros e a vida

Luciana Targino

Luciana Targino
Cearense, morando no Rio de Janeiro, Publicitária e Escritora/Cronista.
Escreve semanalmente no blog - http://blog.opovo.com.br/parissodeida.
Quinzenalmente na http://www.somosvos.com.br/categoria/colunas/

Fátima e a linguagem do imigrante

Fátima é um filme denso e lindo que fala con sensibilidade sobre os preconceitos e as dores mais íntimas de não viver na sua terra.


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Hoje assisti ao filme Fátima. Fui sem nem saber do que se tratava e cheguei a perguntar na bilheteria se se tratava de uma película sobre Nossa Senhora de Fátima. É que eu não tenho muita paciência para religiões, então já queria saber logo. Não era. Peguei o filme que se encaixava no horário que eu queria e entrei.

Dei a maior sorte. Fátima é um filme que vale a pena ver.

Não há nada de deslumbrante, não há nada de épico, nenhuma cena que nos faça suar frio, criar aquela expectativa, nada que nos dê grandes sustos e que nos surpreenda tanto, mas tem uma angustiazinha, uma dor fina e uma força que nos prende por uma hora e meia sem dar sono.

Fátima é uma imigrante árabe, separada, com duas filhas jovens e todas moram em Paris. Fátima usa véu, é faxineira e dá muito duro pra bancar o curso de medicina da mais velha e a escola da mais nova que tem um misto de vergonha e pena da mãe, ainda que essa dó não fique evidente e é transoformada numa agressividade.

E é isso o que é legal no filme, o que não é evidente. Ele nos faz refletir sobre o que sublimamos em nós mesmos, sobre o sofrimento que não queremos ver do outro para que não atrapalhe a nossa vida, sobre sentimentos nossos que não conseguimos traduzir e terminamos por externá-los totalmente enviesados e descoordenados.

Fátima trata de sutilizas: a dor resignada de quem não venceu na vida, de quem sobrevive um dia após o outro, mas de quem não desaprendeu a sonhar, a projetar, a criar expectativas.

Alguém para quem todos os caminhos poderiam levar a autocomiseração, mas Fátima - sem conhecimento algum de si mesma e pouco conhecimento do mundo em que vive, já que nem a língua do país para o qual migrou ela aprendeu a falar - naturalmente transborda a fortaleza de quem vem sendo calejada pela vida há anos, desde sempre, como acontece com muitos de nós.

Fátima, o filme

Fátima fala da dor de migrar, do quão desestabilizador é cortar suas raízes e sair de perto de onde você se reconhece como cidadão, como pertencentes e não como um estrangeiro. Viajar é a melhor coisa do mundo, mudar de cidade, em dados momentos, pode ser a pior.

Pior ainda é quando se é "acusada" de "refugiada" e ter de carregar uma culpa que não é sua de se sentir intrusa em terras de iguais - pois somos todos humanos - mas ser tratado como seres alienígenas do mal. Fátimas migraram para fugir de guerras, violências, miséria e sabem que não terão um abraço e um acolhimento do outro lado da fronteira, pelo contrário, a os maus tratos continuam, mas em forma de preconceito, desprezo e falta de oportunidade.

A parte mais forte do filme, para mim, é quando ela - que nunca aprendeu o francês e suas filhas só sabem falar francês - desabafa: Como é que um pai e uma mãe podem conversar com o um filho se eles não falam a mesma língua? Não tinha parado para pensar sobre isso, o conflito da geração que nasceu de um imigrante, quantos conflitos, quantas idéias díspares, quanto ruído nessa comunicação.

Comecei a pensar nos meus antepassados, Italianos, Japoneses, Holandeses e mais um monte de nacionalidades que povoaram o Brasil nos tempos da segunda guerra mundial. Como deve ser dolorida essa readaptação.

É como trocar de pele, é como incendiar sua casa, é começar do zero, é renascer só que trazendo uma memória do que foi e que nunca mais será.

Só consegue quem é forte e todo mundo o é quando a vida nos obriga a sermos, quando somos empurrados, seja por motivações internas ou externas a nos jogar no abismo do novo.

E a graça está em encontrar sorrisos nesse caminho que se abriu, a encontrar graça nas coisas, a rever belezas, a apurar o olhar para o novo aceitando que a vida é esse palco enorme com essa tempestade de "agoras".

E assim é Fátima: o filme, a personagem e as milhões de pessoas que são como Fátima.

Vão ver e depois me contem aqui o que acharam, vou adorar saber a opinião de vocês.

Até breve!

Luciana


Luciana Targino

Luciana Targino Cearense, morando no Rio de Janeiro, Publicitária e Escritora/Cronista. Escreve semanalmente no blog - http://blog.opovo.com.br/parissodeida. Quinzenalmente na http://www.somosvos.com.br/categoria/colunas/.
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