Felipe Marçal

Ar frio, vento, movimento, céu aberto e olhar distante.

Viramos Propaganda

Sempre criticamos a publicidade por mostrar só a ponta do iceberg, ou até mesmo nem a ponta. Mas, ao que tudo indica, nós [simples pessoas comuns e ingênuas] somos cada vez mais publicitários de nós mesmos.


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Horas e horas freneticamenete rolando páginas com blocos de notícias e imagens fragmentadas da realidade. Pra quem vive assim, em milésimos uma informação é absorvida, em segundos o mundo se atualiza. A informação tem andado muito rápido. Acontecimentos, até mesmo marcantes, se tornam mais um post, um fragmento de informação, um fragmento de segundo no cotidiano das pessoas. Já não estamos em busca de profundidade. Na era do update constante, uma foto e um texto curto basta. Basta para eu curtir ou não, para eu aprovar ou reprovar determinada ideia, estilo de vida, posição política...

Tudo é muito curto e muito rápido, igual propaganda. Compare: propagandas tem fotos e textos curtos, nossos posts também. O que antigamente era descrito nas revistas ou numa matéria de documentário, hoje, virou uma foto ou meme com uma pequena frase descritiva. Certamente não era o propósito dos criadores das redes sociais criar uma plataforma que moldassse todas as nossas fontes de informação num formato tipicamente publicitário. Mas parece que foi nisso que culminou.

O nosso senso crítico em relação à propaganda sempre foi aguçado. Ao ver uma propaganda, sempre tentamos avaliar o conteúdo como positivo ou negativo. E o que há no final de cada post? Sempre as opções: curtir ou não curtir? Aprovar ou não aprovar? O posts, assim como a propaganda, precisam de um julgamento final. Necessidade de aprovação é uma coisa que os produtos sempre precisaram, agora a gente também precisa.

O velho ditado que diz “a grama do vizinho sempre parece mais verde” ganhou dimensões incríveis. Um amigo posta uma foto sorrindo com os amigos e você conclui que a vida dele parece ser melhor do que a sua. Geralmente também achamos que a vida da modelo/a da propaganda também parece melhor. Um anúncio resume o universo de uma marca/produto em uma imagem. Uma foto no instagram resume sua vida para seus amigos.

Parece que conseguimos o que, no fundo, sempre queríamos: a nossa vida virou a da propaganda. As redes sociais, assim como a propaganda, são uma máquina de fazer com que tudo o que a gente é e vê seja agradável, pra gente continuar lá, rolando o feed de notícias. A gente sabe que 90% nas coisas são só a ponta do iceberg, mas a gente prefere acreditar que é ele inteiro.


Felipe Marçal

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