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Cinema e Literatura

Pedrina Costa Lisboa

Pedrina escreve com muito prazer para diversas plataformas online. Tem três filhos e todos eles miam.

Pequena Abelha e a violência da sociedade atual

Em Pequena Abelha de Chris Cleave encontramos uma história poderosa, tocante e assustadora. Cleave narra a trajetória de Abelhinha uma refugiada nigeriana que tem como único objetivo encontrar Sarah, cujo marido acabou de cometer suicídio e precisa lidar com a negação absoluta de Charlie, o seu filho de quatro anos que na expressão máxima da sua dor, só quer usar sua fantasia do Batman.


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Cleave criou uma personagem cativante e deu para ela uma narrativa completamente factível e real. A história de Abelhinha (como ela é chamada ao longo do livro por Sarah) é triste e traz à tona verdades sobre violência, racismo e descaso que é preferível não enxergar, fingir que não existe.

Já Sarah retrata a típica mulher bem sucedida, casada, com filho e com uma proeminente carreira de jornalista, mas por baixo dessa película de perfeição, ao longo da narrativa, podemos ver como seu mundo é frágil e como ela é incapaz de lidar com as diversas forças que parecem atuar sobre a sua vida. Ela não chega a ser uma personagem fraca, mas parece que a vida macia em uma sociedade que preza mais as aparências fez ela se perder de si mesma. Só em Abelhinha ela encontra a sua coragem e nobreza que estão escondidas, não perdidas.

Abordando temas como preconceito racial e cultural, Cleave traça uma narrativa viciante, quanto mais segredos são revelados mais ele deixa o leitor ansioso pelo desfecho . A violência aparece constantemente e de maneira tão brutal, que a única maneira de prosseguir com a leitura é racionalizando que se trata só de um livro.

Mesmo que a consciência conteste, alegando que a brutalidade como descrita no livro existe somente em lugares mais remotos onde as leis mais básicas da civilidade parecem não existir, o autor deixa explícito como quando é conveniente pessoas de qualquer lugar podem ser tão brutais em suas atitudes como terroristas em países em conflitos, isso fica claro no modo como Abelhinha e as outras refugiadas são tratadas no abrigo para refugiados na Inglaterra. Cleave escancara isso na sua narrativa, com genialidade e dosando a medida para que o público peça mais.

A estrutura narrativa pode ser dividida em duas etapas que se alternam ao longo do livro, primeiro contada em primeira pessoa na voz de Abelhinha, depois contada na voz de Sarah. A percepção do tempo ao longo da narrativa é um elemento à parte, no começo temos Abelhinha narrando a história pelo seu ponto de vista começando dos eventos mais recentes para os mais antigos. Depois com Sarah acontece o mesmo e apesar do autor repetir várias passagens onde as histórias de ambas se cruzam, onde Abelhinha não narrou por desconhecer aquilo que estava fora do seu ponto de vista, Sarah narra e complementando a visão de uma com a visão da outra, temos revelado o grande segredo que permeia toda a trama.

Somente a partir do momento em que ambas se encontram geograficamente é que a história começa a ser narrada em tempo presente, agora que Sarah e Abelhinha estão juntas, é como se a união das personagens criasse uma terceira consciência, conhecedora do destino dos personagens, ela se abstém de emoções e narra o restante da trama como um observador apenas, como alguém que não se envolve com os sentimentos dos personagens. Neste aspecto a trama mostra toda a sua crueza, como se já não fosse mais Cleave produzindo a história, e sim um autor completamente desconhecido.

charlie como batman.jpg Charlie como Batman.

Logo que conhecemos o ponto de vista de Sarah, sabemos que ela não deseja a presença de Abelhinha na sua vida e o porquê disso será explicado no decorrer da trama, porém Sarah tem que lidar com o pequeno Charlie, uma criança que mesmo cercada por todos os recursos e confortos que a sua família de classe média alta pode proporcionar, é a criança mais desassistida e abandonada da trama.

Antes mesmo do pai morrer ele já era negligenciado por este e após a sua morte, Sarah já não conseguiu mais lidar com o menino, ele criou um mundo só dele, onde ele é o super herói Batman e nada pode atingi-lo, mas justamente por retratar uma criança de quatro anos desse jeito, nossa compaixão por ele cresce vertiginosamente, Charlie deveria ser tirado daquele contexto e cuidado como precisa e merece. Só Abelhinha consegue atingir o coração do menino, e nesse aspecto vemos que ela é uma grande provedora emocional para aquela família.

Andrew O'Rourke, o falecido esposo de Sarah aparece muito pouco na trama, mas o pouco que ele aparece é para revelar o mais fraco e covarde que um personagem pode ser. Andrew parece o típico homem bem sucedido que vive em um universo de negação constante, sob o ponto de vista dele nada é ruim, a violência não existe e ele não tem nada a ver com aquilo. Assim que cai em si, seu desespero é tão grande, ele se vê tão pobre e covarde que a única libertação que encontra é matando-se.

Todos os personagens da trama inspiram compaixão, incrivelmente Abelhinha, mesmo sendo a mais desprovida de recursos materiais, é retratada de forma íntegra e genuína. Ela possui uma força que poucas vezes a literatura mostrou ser possível. Em um mundo onde cada vez mais o racismo e intolerância ganha novas roupagens, com cara de aceitação e tolerância, ver Abelhinha, uma menina negra, pobre e sem nenhuma expectativa de uma vida melhor a não ser sob a proteção de Sarah, continuar sendo ela mesma é como um aviso aos comuns, de que sim, independente da sua cor ou condição social você pode ser você mesmo e ser magnífico por isso.

Por fim o livro é um ode às mulheres, mostrando como elas podem ser fortes em momentos de crise e realizar coisas que requerem absoluta coragem e doar-se a favor de outros. Sarah doa-se por Abelhinha e Abelhinha doa-se por Sarah e o fantasiado Charlie.


Pedrina Costa Lisboa

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