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Cinema e Literatura

Pedrina Costa Lisboa

Pedrina escreve com muito prazer para diversas plataformas online. Tem três filhos e todos eles miam.

Dois filmes budistas muito loucos (e lindos)

Filmes budistas normalmente são obra sisudas, formais e com aquele quê de sagrado que às vezes chega a ser irritante. Alguns diretores desafiaram essa métrica ao criar obras magníficas, com uma profunda mensagem espiritual porém de maneira nada convencional. Usando fantasia como ponto de partida, misturando elementos sagrados com cultura pop e segurando a audiência com roteiros inteligentíssimos, conheça aqui dois filmes budistas que são igualmente muito loucos e lindos.


A batalha dos Deuses (A Chinese Tall Story/ Qing dian da sheng, 2005 - Direção de Jeffrey Lau)

a batalha dos deuses1.jpg Romance impossível?

A capa do chinês A batalha dos Deuses de 2005 assusta. Parece um filme infantil daqueles cheios de lutas coreografadas e muita computação gráfica. E é. O filme conta a história do mestre Tripitaka, um monge budista que durante uma viagem para Shache é atacado por demônios. Este consegue salvar-se, mas seus três discípulos não. Ele é capturado pelo rei dos répteis e colocado sob a vigilância de Meiyan, um demônio feminino com aspecto horrendo.

A mãe de Meiyan a instrui a comer Tripitaka e assim obter vida eterna, mas Meiyan acaba se apaixonando por Tripitaka e desiste de fazer-lhe mal e se compromete a ajudá-lo a resgatar seus discípulos.

O que mais você vai fazer ao assistir esse filme é rir. É uma comédia extremamente engraçada, com muitas cenas hilárias e non-senses, com direito ao monge se vestindo de Homem Aranha e dançando black music. Meiyan e Tripitaka brigam o tempo todo, principalmente pelo ciúme de Meiyan e pela rejeição de Tripitaka que não esconde a repulsa que sente pela feiúra dela, mas aos poucos nasce entre eles um forte sentimento de cuidado e preocupação pelo bem estar do outro.

A conclusão desse filme é belíssima, a solução encontrada pelo Buda para as confusões que Meiyan e Tripitaka aprontaram só poderiam ser dadas pelo Buda. Aqui o mérito é quase que exclusivo do roteirista, pois ele conseguiu transformar um amontoado de maluquices em uma história linda que só tem um final possível, mas até esse final acontecer ele é inimaginável.

Nada vai se comparar aos questionamentos internos que esse filme levanta, ao longo do filme você se pega torcendo pelo demônio e desejando o impossível, que ela e o monge fiquem juntos. Mas como? Ela é um demônio, um soldado do mal, enquanto ele é um soldado do bem. Ela é feia, tem o rosto deformado, ele quer uma companheira bonita.

Todos esses detalhes não podem ser desprezados pois implicariam na eliminação dos valores de cada personagem. Meiyan por exemplo nunca foi um "bom" demônio, ela é atrapalhada, inocente e desprezada pelo próprio grupo de demônios da qual faz parte. Já Tripitaka é cego para algumas verdades a respeito da raça humana, que eles também são maus e vaidosos.

Talvez esse filme faça mais sentido para quem é budista ou conheça um pouco mais profundamente os conceitos budistas, mas o filme fala de redenção, evolução espiritual, amor, laços cármicos, compromisso com uma causa, amizade, perdão. É um filme muito bom para ser assistido se você quiser conhecer de maneira mais intuitiva sobre a beleza do budismo, pois coloca em voga o principal ensinamento budista: Todos têm dentro de si o potencial de Buda. Todos.

Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas (Uncle Boonmee who can recall his past lives/ Lung Boonmee Raluek Chat 2011 - Direção de Apichatpong Weerashetakul)

uncle boonmee1.jpg Um jantar inusitado.

Boonmee está sofrendo de insuficiência renal e precisa de cuidados constantes. Então sua cunhada Jen e seus dois sobrinhos Tong e Huai vão para ajudá-lo a viver seus últimos dias de maneira mais confortável. Durante o jantar na primeira noite juntos, o espírito da falecida esposa de Boonmee se junta ao grupo, logo após, o filho desaparecido há muitos anos, retorna com uma aparência muito diferente.

A interferência do fantasma da esposa de Boonmee não causa medo, assim como o retorno do filho com um aspecto assustador. Boonmee parece ter levado uma vida plena e está resignado a encerrar seus dias de maneira tranquila, ele está também mais elevado espiritualmente e por isso começa a se lembrar das vidas que teve. O primeiro indício disso é a aparição da princesa no rio.

O filme é completamente linear, orgânico, intuitivo, não oferece nenhuma explicação sobre nada do que está acontecendo, é como um retrato seco de alguns dias na vida de um personagem, sem dar a explicação do antes e indícios do que virá depois. Não é um filme para fácil entretenimento, é complexo, não evoca emoções, apenas questionamentos.

Boonmee, o fantasma da esposa falecida, Jen, Tong e Huai vão explorar uma caverna e lá Boonmee começa a contar sobre as vidas que teve. Boonmee carrega em si a culpa por ter matado soldados quando lutou na guerra e considera a sua doença como a manifestação de um carma negativo por seus atos.

Esse conceito de carma e outros conceitos budistas estão presentes no filme inteiro. Aparentemente os personagens vivenciam o budismo como algo corriqueiro e inevitável em suas vidas, essa não é a religião que eles escolheram, é a religião que lhes foi imposta, mas isso não diminui o sentido de devoção que o filme retrata.

O final desse filme gera um sentimento de frustração tão grande como o sentido pelo final de O Homem Duplicado (Enemy, 2013). Aquela sequência final de imagens ao som de um pop rock complementa todos os conceitos que o filme levou quase duas horas para apresentar, ou seja, é mesmo um filme muito difícil. Mesmo assim é uma obra memorável que corre o risco de não fazer sentido para ninguém, mas essa loucura conceitual não diminui em nada a sua beleza.


Pedrina Costa Lisboa

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