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Cinema e Literatura

Pedrina Costa Lisboa

Pedrina escreve com muito prazer para diversas plataformas online. Tem três filhos e todos eles miam.

Dois belos trabalhos de Hirokazu Kore-Eda

Kore-Eda escolhe temas dolorosos mas com seu olhar delicado transforma histórias pesadas em obras marcantes. Seus trabalhos costumam encantar pela sensibilidade e não raro te faz pensar sobre eles por semanas. Kore-Eda é genial em sua sensibilidade, um artista para ser admirado, aqui uma breve visão de dois dos seus mais belos e premiados trabalhos.


Hirokazu Koreeda 1.jpgKore-Eda no Festival de Cannes de 2013.

Pais e Filhos (Sochite Chichi ni Naru, 2013)

Esse filme conta a história de Ryota, um bem sucedido executivo e pai de família que só tem tempo e olhos para o trabalho. Ao descobrir que seu filho agora em idade escolar foi trocado na maternidade pelo filho de um comerciante pobre, começam os questionamentos sobre o que é certo a fazer nessa situação.

Orquestrada pelo hospital, as famílias se conhecem e passam a conviver com o intuito de trocar as crianças, com isso começam os conflitos devido as diferenças sociais e modo de criação dos filhos entre as duas famílias. Enquanto Ryota é um pai rígido, exigindo que Keita seja o melhor em tudo, Yudai é um pai brincalhão e adorado por Ryusei e seus outros dois filhos.

pais e filhos 5.jpgYudai brincando com Keita e Ryusei.

Yudai aparentemente escolheu levar uma vida mais simples e sem tantos luxos para poder passar mais tempo com a família, já Ryota parece ser o tipo de pessoa que mede o valor das outras pelo dinheiro e posição social que possuem. Um momento em que esse choque social aparece claramente é quando Ryota se oferece para ficar com as duas crianças, insinuando que Yudai não teria condições financeiras de criar os filhos, e Yudai ofendido mostra com suas atitudes que pode oferecer muito mais como um pai amoroso, do que um pai rico.

O filme mostra Ryota indo buscar apoio em seus familiares e a partir disso começamos a entender o porquê do comportamento tão rígido para com o filho. Ryota é falho, arrogante, duro, mas como muitos, é um pai que ama e não sabe como demonstrar, sua atitude para com Ryusei é: "Eu sou sei pai, me adore!", sem dar tempo ao menino de sequer conhecê-lo. Já a sua atitude para com Keita é: "Eu sou seu pai, me orgulhe!"

pais e filhos 7.jpg Ryota e Keita.

É costume no Japão que o pai nunca peça desculpa para o filho em tempo algum, sob qualquer circunstância, e ao concluir o filme a dureza desse costume é questionada da maneira mais delicada e linda que o cinema já mostrou.

Ninguém Pode Saber (Dare mo Shiranai, 2004)

Baseado na história real das quatro crianças que foram abandonadas à própria sorte em 1988 em Tókio, Ninguém Pode Saber é um retrato livre dos acontecimentos que chocaram a nação japonesa.

nobody knows 1.jpgOs quatro irmãos abandonados.

No filme, Akira, 12 anos; Kyoko, 10 anos; Shigeru, 7 anos e Yuki, 5 anos; são abandonados pela sua mãe que foge para viver um novo amor. A mãe em questão é completamente irresponsável, frívola e infantil, já no início do filme esse contraste aparece absurdo, onde mostra que Akira e Kyoko possuem comportamentos mais maduros do que sua mãe.

A partir do momento em que a história de fato inicia (crianças abandonadas pela mãe) o filme segue completamente linear, mostrando a luta de Akira para conseguir comida para si e seus irmãos, e alternando-se entre a realidade bruta do dia a dia das crianças e momentos de pura magia infantil, como quando todos eles ignoram as regras da mãe (já que ela mesma ignorou a maior regra de todas, ser mãe) e saem para brincar no parque e comprar salgadinhos e iogurte, entre outras guloseimas. Ou quando Akira pede à moça do mercadinho para escrever cartões de ano novo e os entrega aos irmãos como se fossem presentes da mãe, ou a cena mais simbólica, quando Akira ensina Yuki a escrever o próprio nome. Yuki em japonês significa neve, e não existe nome mais adequado para uma criatura tão frágil.

nobody knows 10.jpgAkira após meses de abandono.

O filme segue e até 20 minutos antes do fim nada de extraordinário acontece, até que acontece. Não é nada explícito, você não vai demorar para perceber, mas vai demorar para acreditar e ao ver a conclusão que Akira dá a situação, inevitavelmente o choro acontece, esse é provavelmente o momento mais triste do filme.

Ao mostrar a relação de Akira com seus irmãos, percebe-se que Akira deixou de ser uma criança há muito, mesmo antes do abandono acontecer, e diante de Yuki a mais jovem de todos você vê que ela é o elo entre as responsabilidades recém herdadas de Akira e infância que subitamente foi tirada dele. E quando o filme termina fica claro que uma dessas coisas nunca mais vai voltar para o menino. O amadurecimento do personagem é visível, seu olhar se torna apagado, o tom de voz perde a inocência e até mesmo uma dureza em seu maxilar mostra que o menino, precocemente virou homem.

É um filme muito sensível e apesar de ter crianças como protagonistas, não é nada infantil, é um retrato delicado de uma realidade terrível. Ao terminar o filme, surge a curiosidade de saber como aconteceram os fatos que o inspiraram, e você vê como a sutileza do diretor fez toda a diferença, pois a história verdadeira é muito mais terrível.


Pedrina Costa Lisboa

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