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Cinema e Literatura

Pedrina Costa Lisboa

Pedrina escreve com muito prazer para diversas plataformas online. Tem três filhos e todos eles miam.

George tem um problema

Lennie é o problema? Lennie é um dos problemas. George carrega consigo um peso maior do que o grandalhão inocente que o acompanha.


Ratos e Homens de John Steinbeck, conta a história de George, um homem inteligente, esperto que tem um grande sonho, e de Lennie, um grandalhão sem nenhuma habilidade intelectual que possui força física absurda.

Ambos iniciam a história fugindo de uma fazenda onde trabalhavam e em seguida seu breve percurso até chegar à fazenda do pai de Curley, um homenzinho inseguro e violento. Lá os homens começam a trabalhar e Lennie logo chama a atenção pela força física e pela sua personalidade quase infantil.

Uma noite ambos estão conversando sobre o rancho que querem ter e Candy, um peão já idoso e sem uma das mãos ouve. Ele oferece a George uma grande quantidade em dinheiro que recebeu como indenização por ter perdido a sua mão, contanto que ele possa participar do sonho de ambos também. George aceita, afinal nem ele nem Lennie têm dinheiro suficiente para o negócio, e com Candy poderão realizar seu sonho em um mês.

Eles só precisam aguentar mais um mês de trabalho, e George precisa manter Lennie nas rédeas curtas, o que aparenta ser a coisa mais fácil do mundo, já que se trata de uma pessoa inocente e sem nenhuma personalidade. Ocorre que Lennie tem um hobbie especial. Ele gosta de apertar tudo o que é macio e bonito. E o que há de mais bonito na fazenda é a esposa de Curley.

Porém Lennie obedece George e se mantém o máximo possível longe da esposa de Curley e passa a dedicar todo o seu tempo livre a um filhotinho de cachorro. Mas, por não saber a medida da sua força, Lennie já matou involuntariamente ratos e outros animais pequenos de tanto apertá-los. E seu jeito de ser, todo atrapalhado, somado à força bruta já causou muitos problemas à ambos.

ratos e homens.jpg Capa de uma das edições americanas.

George é questionado por todos que o conhece porque ele sendo tão capaz anda junto de Lennie que é claramente um atraso de vida. Ele usa como desculpa o fato de a tia Clara de Lennie ter morrido e ele assumiu a responsabilidade de cuidar dele ainda quando eram adolescentes.

Mas George tem um grande problema. Ele não tem confiança em si mesmo, apesar de atrair a admiração de pessoas inteligentes, como de Slim o peão responsável pela fazenda, que vê nele um grande potencial. Some isso ao fato de ele ser um eterno sonhador, um típico homem sem recursos que acredita que a sorte nunca vai sorrir para ele, mesmo que no fundo ele saiba que a sorte não tem nada a ver com isso, trata-se de uma questão de escolha. Você quer o rancho George? Você sabe que é inteligente o suficiente para conseguir. Mas um medo profundo está enraizado nele, o medo do sucesso, o medo de não ser digno, então George permanece junto de Lennie, quase que como uma desculpa para suas limitações.

George sabe que tem uma bomba relógio nas mãos. Ele sabe que uma hora ou outra Lennie vai causar um problema irreversível, mas ele opta por esperar ao invés de fazer algo a respeito. E quem faria? Quem é capaz de matar um cão antes dele morder?

Lá pelo final do livro, nós descobrimos que Lennie é esquizofrênico. A tia Clara pula de sua mente, materializa-se um sua frente e dá-lhe uma tremenda bronca. Depois um coelho gigante, que esteve presente em quase todos os diálogos que Lennie trocou com outras pessoas, surge para atormentá-lo. Com isso Steinbeck levou o personagem à uma dimensão mais profunda. Você começa a retomar a narrativa para tentar entender o que se passava na mente de Lennie a cada acontecimento do livro. Mas Lennie é só um borrão incompreensível, um animal. Ele é a materialização de todas as fraquezas de George. Ele é a mentira que George quer acreditar.

Ratos e Homens é uma história simples, com personagens ultra complexos. Se a mesma pessoa resenhar esse livro cem vezes, nas cem ocasiões vai encontrar novas nuances a respeito dos personagens e suas motivações. Eu como fã fico pensando se naquele último trago de George ele resolveu se libertar de vez dos seus medos e realizar seus sonhos. E nisso Steinbeck foi um gênio, porque essa é uma pergunta que pode tranquilamente se estender a qualquer um de nós.


Pedrina Costa Lisboa

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