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Cinema e Literatura

Pedrina Costa Lisboa

Pedrina escreve com muito prazer para diversas plataformas online. Tem três filhos e todos eles miam.

Hope, ou o filme que mostra claramente porque temos que parar de culpar as vítimas

Hope é um filme difícil que expõe uma dura questão com grande delicadeza. Apesar de retratar o sofrimento impensável de uma vítima de estupro, é também um verdadeiro ode ao amor familiar.


Hope1.jpg Maneiras lúdicas.

Hope (So-won, 2013 – Direção de Lee-Joon ik)

Em uma manhã chuvosa, Hope é estuprada a caminho da escola. Hope tem apenas 8 anos de idade e a partir daquele momento os interesses infantis da menina dão lugar à um terror crescente. O estupro é o só o primeiro de muitos problemas que a criança vai precisar enfrentar. As sequelas que ficam em seu corpo e mente são tão profundas que Hope nunca mais será a mesma.

Então seus pais tornam-se as figuras centrais na luta para restabelecer a saúde física e mental dela. Por um infeliz incidente, o pai, Im Dong-hoon, torna-se a figura mais ameaçadora para a menina. Ela perdeu a confiança em tudo e com muito tato da mãe, Kim Mi-hee e de uma assistente social, ela começa a se abrir para o mundo novamente. O apoio da comunidade, escola e dos amiguinhos de Hope são também muito importantes para trazê-la de volta.

Mas é o pai que brilha nesse filme. Aos poucos a menina vai se abrindo para os familiares e amigos, mas ela permanece distante do pai pois ainda tem medo dele, e este com toda sutileza e devoção encontra maneiras doces e lúdicas de aproximar-se da filha. As cenas mais tocantes são protagonizadas pelos dois.

Hope2.jpg Hope a caminho da escola.

O filme não nos poupa de nada, nada mesmo. Mesmo assim nada é explícito, o estupro não é mostrado, mas o corpo e rosto ensanguentados da criança são, pelas narrações podemos imaginar o terror que a menina passou e como as limitações físicas que adquiriu, a colocarão em desvantagens em todas as esferas da sua vida a partir do momento em que foi violentada.

O retrato de uma sociedade machista, que pressupõe que a vítima é sempre a culpada estão ali silenciosamente presentes, o medo que a mãe sente em ter uma filha ‘mal-falada’, a sentença do juiz na condenação do agressor, a impotência da família diante das acusações de que poderia ter sido evitado, as insinuações a respeito da moral da criança, todos esses elementos estão ali presentes, impiedosamente mostrando como os costumes deturpados da sociedade induzem erroneamente ao cumprimento da justiça, que muitas vezes além de tardar, falha.

Por mais doloroso que seja, Hope é um filme que PRECISA ser assistido, a direção do filme é tão feliz em mesclar os elementos mais assustadores com a delicadeza mais pura que Hope pode ser considerado um dos filmes mais relevantes já feitos sobre o tema.


Pedrina Costa Lisboa

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