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Cinema e Literatura

Pedrina Costa Lisboa

Pedrina escreve com muito prazer para diversas plataformas online. Tem três filhos e todos eles miam.

A metafísica de Amélie

Deus, tubo, inércia. Em "A metafísica dos tubos", Amélie Nothomb nos leva ao seu mundo desde o zero aos três anos de idade, quando, de acordo com a autora, abandonaria a sua condição divina.


Logo na primeira frase do livro, Amélie brinca com o primeiro versículo bíblico, e com metáfora e ironia ele segue. O mundo só começa a existir quando Amélie existe, e mais ainda, quando ela resolve sair da sua inércia divina e descer para o mundo dos humanos, pois nos primeiros meses de sua vida, Amélie não foi nada senão um tubo digestivo inerte, o que preocupou muito os seus familiares.

Filha de pais belgas, Amélie nasceu no Japão, e cercada da cultura e idioma japoneses, a criança não só aprende japonês antes mesmo da sua língua materna, mas “decide” que será japonesa. Consciente de que é um Deus na sua forma mais pura e perfeita, ela encontra uma maneira muito interessante de punir todos aqueles que não se curvam diante da sua divindade: simplesmente não falando com eles.

Com linguagem culta, porém ritmo leve, cheio da inocência de uma criança e ironia adoravelmente arrogante de um velho sábio, Amélie nos leva ao seu mundo nos primeiros anos de sua vida, suas descobertas e interesses, além da visão simplista do mundo complicado dos adultos. Ela tem seu próprio método de aprender e descobrir o mundo, mas a despeito se aquilo está correto ou não, ela proclama a sua verdade recém descoberta como absoluta e ai de quem ousar contestá-la, seu destino é ser ignorado por “Deus”.

nishikigoi-lake-decorative-fish.jpg Jesus, Maria e José (?)

Seus irmãos, pais, empregados da casa, nenhum deles é páreo para o espírito e pensamento crítico da criança e ela nos faz acreditar que de fato é uma rainha, como se autoproclamou quando cansou de ser Deus.

É engraçado ver como ela questiona a beleza de grandes símbolos da cultura japonesa, como as carpas, o canto e a polida indiferença com que uma das empregadas japonesas a trata. Sua adoração pela irmã mais velha rende um dos capítulos mais poéticos do livro e sem nenhuma cerimônia ela deixa clara a sua superioridade perante o irmão revelando a ignorância típica de meninos muito jovens.

Sua descoberta sobre a literatura e o significado que essa arte terá na sua vida é rica, viva e encantadora. Ao defrontar-se com essa descoberta, temos a mesma sensação que ela possivelmente teve ao perceber que não poderia ser mais nada na vida além da grande escritora que é. E agradecemos que ela não se desviou do seu caminho.


Pedrina Costa Lisboa

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