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Cinema e Literatura

Pedrina Costa Lisboa

Pedrina escreve com muito prazer para diversas plataformas online. Tem três filhos e todos eles miam.

Koe no Katachi, um delicado e sensível estudo sobre o bullying

Koe no Katachi ( A silent voice, 2016) é um filme de animação japonesa, que mostra as várias faces do bullying e as consequências disso na vida das pessoas. Levanta questões duras e não dá respostas fáceis. Estamos nós perpetuando a exclusão e violência por acharmos que temos esse direito?


Koe-no-Katachi.png “Eu te odiei até nos encontramos de novo”.

Shouko Nishimiya é surda, e, ao ser transferida para uma nova escola, passa a sofrer bullying do seu colega de classe, Shouya Ishida. A violência do bullying praticado pelo garoto chega aos extremos, então Nishimiya é transferida para uma outra escola. A partir disso, Ishida começa ele mesmo a sofrer bullying dos seus colegas. A situação continua até a adolescência, quando um já completamente destruído emocional e socialmente Ishida, tenta suicídio.

Tendo falhado, Ishida retoma sua vida como pode, ele reencontra Nishimiya e pede que sejam amigos. De início a jovem sente medo dele, mas depois eles começam a encontrar pontos em comum e estabelecem uma bela e verdadeira amizade. Mas as ações do passado de Ishida ainda têm efeitos na sua vida atual, seus amigos o abandonaram, ele não tem relevância social nenhuma, sua realidade é de total isolamento e indiferença.

Então, com a ajuda de Nishimiya, Ishida começa a retomar o convívio com os amigos. Mas ele não tem a confiança de ninguém, Ishida não tem chance de se aproximar das pessoas e mostrar que ele já não é mais aquela pessoa que agrediu e humilhou por diversão. Os colegas do passado que praticaram bullying contra ele ainda o aterrorizam, o garoto não tem mais confiança em si mesmo em nenhum nível, e ele não consegue enxergar que o relacionamento dele com Nishimiya não é somente uma amizade comum. Nishimiya é a única que pode salvar Ishida.

O filme mostra todos os lados do bullying: quem sofre, quem pratica, quem vê acontecer e se omite, quem vê acontecer e tenta ajudar, os professores e a escola, os pais e familiares. E mostra como é frágil a interação entre esses fatores, ninguém sabe o que fazer para parar a violência contra a pessoa agredida, então a solução "mais fácil" é agredir o agressor e isolá-lo socialmente, repetindo eles mesmos, o ciclo de bullying que eles combatem.

Enquanto Nishimiya tem todo o suporte da família e da escola devido a sua condição física, quando ela sofre bullying há uma verdadeira comoção pública para tentar ajudar e resolver, mas quando Ishida começa ele mesmo a sofrer bullying, o garoto não recebe suporte nenhum, é como se ele merecesse tudo aquilo, afinal no passado ele mesmo fez igual. Por causa disso, Ishida desenvolve fobia social e depressão.

A estrutura familiar não convencional de Ishida, dá a entender que há um abismo entre ele e seus familiares, o garoto não sofre abusos em casa, mas é como se ele não existisse dentro daquela unidade familiar, desde que ele esteja estudando e trabalhando, ninguém se importa sobre o que ele está sentindo. Junte isso ao isolamento na escola, a ausência de amigos e de um propósito maior na sua vida, a única saída de Ishida é o suicídio. Ele não "importa" em nenhuma esfera da sociedade, então pra quê continuar vivo? A personagem faz esse questionamento durante boa parte do filme, e quando ele encontra algum equilíbrio emocional no meio disso, essas dúvidas reaparecem em outra personagem, mas agora a motivação é outra: "Se eu causei tudo isso na vida de uma pessoa, porque eu mereço viver?"

O filme mostra claramente que a escola é onde acontecem os mais explícitos casos de bullying, mas não é o único local onde isso acontece, e muito menos que é um problema somente entre crianças e adolescentes. Mostra os adultos praticando bullying e usando como justificativa o "direito" que eles pensam ter de fazer justiça com as próprias mãos. Retrata os seres humanos como ultra violentos e incapazes de encontrar soluções sem violência. Não se combate violência com violência, todo mundo sabe disso, na teoria, mas na prática, aparentemente todos querem uma chance de arrancar o sangue de alguém que o desagrada.

Em um dos grandes momentos da narrativa, uma das personagens diz: "Eu não te entendo!". Essa única fala sintetiza a origem do bullying contra todas as personagens que já sofreram, mesmo as que foram agressoras no passado. E levanta uma difícil questão, que no nosso íntimo é impossível não fazer ao assistir esse filme: "Eu já sofri bullying? Eu já cometi?", e talvez a pior de todas: "Eu já me omiti?".


Pedrina Costa Lisboa

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