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Cinema e Literatura

Pedrina Costa Lisboa

Pedrina escreve com muito prazer para diversas plataformas online. Tem três filhos e todos eles miam.

Negros no Oscar 2017: cota ou mérito?

Depois da polêmica #OscarsSoWhite, 2017 bateu o recorde de artistas negros indicados ao prêmio, são atores, atrizes, roteiristas, diretores, editores, produtores, etc, que disputaram o prêmio que marca o reconhecimento máximo da indústria cinematográfica. Entraram por cotas ou realmente mereceram?


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Pela primeira vez na história do Oscar, tivemos um artista negro indicado em cada categoria de atuação. Além disso, foi primeira vez que três atrizes negras foram indicadas na mesma categoria: melhor atriz coadjuvante. Barry Jenkins se tornou o primeiro negro a ser indicado em três importantes categorias: melhor diretor, melhor filme e melhor roteiro adaptado. Essa edição do Oscar foi marcada pela diversidade étnica, refletiu o poder da pressão popular através da #OscarsSoWhite que foi amplamente usada nas redes sociais, mas esses artistas todos só foram indicados para calar o clamor popular ou realmente mereceram a indicação?

A resposta vem através de uma análise não exaustiva das principais categorias onde haviam artistas negros concorrendo: filme, roteiro, direção e atuação.

Denzel Washington, que concorreu como melhor produtor e melhor ator por Um limite entre nós (Fences, 2016). Esse filme é o mais indigesto desta lista, é pesado, bruto e absurdamente real. Denzel entregou uma atuação que conseguiu esconder todo o seu carisma, seu personagem é insuportável em todos os níveis, ele é arrogante, ignorante, estúpido, machista, frustrado. Mas quem não conhece uma pessoa assim? Sabe aquele pai ou avô ultra cuzão que acha que só trazer dinheiro pra casa é o suficiente? Ele é assim, e por ter feito com que seus fãs o odiassem, indicação mais do que merecida.

Viola Davis, que concorreu como melhor atriz coadjuvante por Um limite entre nós (Fences, 2016). Poderia muito bem ter entrado como melhor atriz já que ela praticamente divide o protagonismo com Denzel. Enfim, Viola interpreta a esposa igualmente frustrada de Denzel que faz de tudo para manter o casamento e a união familiar, sua personagem é submissa, ponderada e completamente devotada à esse homem. Quando essa estrutura rompe-se Viola mostra todo o rancor e mágoa que estão guardados ali durante anos. Essa personagem é realmente tocante, tudo o que se odeia no Denzel, amamos nela e por ter nos feito esquecer aquela figura badass que Viola impôs à sua carreira, essa indicação foi realmente merecida, e o Oscar merecidamente ganho.

viola.png Ainda esperando aquela cerca.

Mahershala Ali, indicado à melhor ator coadjuvante por Moonlight, 2016 (Moonlight: Sob a luz do luar, 2016). Esse personagem... oh my. Ele está presente só no primeiro ato do filme, quando Chiron ainda é criança, mas sua influência é facilmente percebida pelo resto do filme. Ele toma conta da tela, quebra os paradigmas, é o mentor, conselheiro, pai desse menino perdido, a relação deles é linda, esse personagem é quem mantém Chiron em pé, por um pouco que seja. Indicação mais do que justa, e o Oscar não poderia ir para outras mãos.

Naomi Harris, indicada como melhor atriz coadjuvante por Moonlight, 2016. Naomi não é nenhuma estreante, ela já tem uma carreira consolidada com bons, porém insossos trabalhos, então vê-la da maneira que ela está em Moonlight foi assustador. Sua personagem é a mãe da Chiron, uma enfermeira viciada em drogas e ela está assustadora, não tem outra palavra pra descrever sua atuação. Naomi Harris está assustadora, seu olhar vidrado, os gestos trêmulos, os lábios repuxados, o comportamento repulsivo, tudo nos faz acreditar que ela é de fato uma pessoa drogada, ela não está interpretando, ela é drogada de verdade, é apenas isso que dá pra pensar ao vê-la atuando. Não ganhou porque a queridinha da vez foi Viola, mas essa indicação foi de ouro, Naomi foi a melhor da categoria sem sombra de dúvidas.

Octavia Spencer, indicada como melhor atriz coadjuvante por Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016). Octavia interpreta uma matemática que trabalhava para a NASA na época da corrida espacial e seu trabalho era relevante para todas as conquistas da época, porém devido a questões raciais ela, e todas as mulheres do seu departamento (que era separado dos outros por só terem mulheres negras), são relegadas a segundo plano e quase nunca reconhecidas. Octavia está elegante, sagaz e dona das respostas mais wtf! dos últimos tempos. Mas sua presença na trama é pouca, comparada com outras duas personagens que também encabeçam a história. O filme em si é o mais fraco de todos esses protagonizados por negros e consequentemente isso se reflete na sua atuação. Nós já vimos Octavia assim antes, essa interpretação não é novidade, esse não é o papel da sua vida e por isso ela não ganhou o Oscar.

Ruth Negga, que concorreu como melhor atriz por Loving, 2016, interpreta uma mulher afro-americana que precisou lutar na Suprema Corte dos EUA para ter o direito de permanecer com o seu marido, um homem branco. Esse foi um trabalho muito intimista, a personagem é tímida e modesta e Ruth estava realmente perfeita. Quando a personagem percebe que está em suas mãos lutar pela família, você vê a bravura e a resiliência com que ela enfrenta tudo, sempre com um sorriso no rosto. Joel Edgerton deveria ter sido nomeado também. Ela não ganhou porque o páreo estava duro nessa categoria, com Emma Stone como a favorita da noite, mas foi uma indicação merecida.

moon.jpg Sob a luz do luar, garotos negros parecem azuis.

Barry Jenkins, concorreu como melhor diretor, melhor filme e melhor roteiro adaptado. Damien Chazelle ganhou como melhor diretor, e não foi injusto porque La La Land é um puta filme bem dirigido, mas não tem como não se encantar com tudo o que Moonlight representa. Essa direção foi impecável, o filme é uma obra de arte, enquadramentos perfeitos, iluminação, o uso da paleta de cores azulada que se relaciona com o momento de vida do personagem. A trilha sonora nada óbvia, com direito a Caetano e muita música clássica foi a melhor escolha para esse filme, deu o tom de quem era aquele personagem, como o seu ambiente externo não refletia em nada toda a sua profundidade emocional. Esse diretor conseguiu colocar no filme todos os elementos que normalmente estão em filmes protagonizados por pessoas negras, mas nada é o que parece, o traficante, as drogas, a violência, nada é tratado como um esteriótipo. Ouso dizer que esse filme é o grande marco da virada, que começa a retratar pessoas negras como pessoas. No futuro ele poderá servir de referência, porque nunca um estudo de personagem foi tão bem feito, tão real e atual como este.

Na categoria melhor filme, Moonlight ganhou de La La Land, sob circunstâncias que ficarão gravadas para sempre na memória do público. Foi uma vitória surpreendente, pois La La Land é filme de Oscar, feito para ganhar o Oscar, a história é simples e comovente, sua mensagem é tocante e universal, seu público é infinitamente maior e menos exigente. Já Moonlight é um estudo de personagem incompreensível às massas, é inovador por retratar pessoas negras como pessoas, por destruir esteriótipos. É um filme melancólico e pesado, seus personagens são complexos, Chiron é o personagem negro mais complexo já retratado pelo cinema e o público está começando a se abrir para isso. Ficamos felizes com o reconhecimento, mas mais felizes ainda por esse filme ter sido feito, e que tenha sido feito agora nessa época que ainda existe tanta intolerância e preconceito.


Pedrina Costa Lisboa

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