palavra a páquelavra

Como a enxada lavra a terra, a palavra lavra sulcos para plantar sementes nas imaginações.

Suzana Oliveira

Uma peregrina na terra, que ama as palavras, a história, a interpretação de texto e a transformação de vidas

O que nos diz a menina do casaquinho vermelho

Um dos símbolos do filme “A Lista de Schindler” nos traz um lampejo de esperança e nos convida a um diálogo de cores em tempos de cinza.


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A menina do casaquinho vermelho1 é um dos símbolos do filme “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg (1993), que narra a história de Oskar Schindler, um empresário alemão que salvou a vida de mais de mil judeus, durante o Holocausto, ao empregá-los em sua fábrica.

O filme é considerado, pela crítica especializada, como um dos melhores já feitos. Nele, uma das escolhas estéticas que mais chamaram a atenção foi o fato de ser quase todo em preto e branco. Segundo o diretor, isso traria uma atmosfera de documentário e seria a melhor representação para a época. Para ele, a cor é o símbolo da vida. Logo, um filme sobre o Holocausto tinha que ser em preto e branco.

Apesar disso, o vermelho é usado para distinguir uma menina com um casaco. Em cena posterior, ela é vista entre os mortos, reconhecida apenas pelo casaco vermelho que ainda estava usando.

A personagem foi criada a partir das memórias de Zelig Burkhut, sobrevivente do Holocausto. Ele contou ao diretor do filme a história de uma menina de casaco rosa, com não mais de quatro anos, executada por um nazista com um tiro bem em frente a seus olhos. Algo que jamais conseguiria esquecer.

No filme, a menina quebra nossa expectativa ao dar-nos um lampejo de cor e esperança e ao fazer-nos crer que irá sobreviver. É justamente essa quebra de expectativa que faz Schindler mudar, tomar uma atitude. Quando ele vê a menina sendo mais uma na pilha de corpos do carrinho para serem incinerados, sua expressão muda completamente. Minutos antes, ele viu as cinzas e a fuligem dos corpos em chamas se acumulando em seu carro, mas isso lhe causava apenas um simples incômodo.

A imagem da menininha fez-me pensar em um tema pouco usual para o filme: a luta pela democracia, aquele ideal que nos permite o direito de discordar porque as pessoas, de fato, não pensam igual. Em um sistema democrático, não há, pois, a uniformidade cinza das opiniões; algo que não é considerado ruim.

Poderia utilizar muitas outras obras cinematográficas, antigas ou contemporâneas para esse tema, mas escolhi essa menininha porque, desde a primeira vez em que assisti ao filme, ela me despertou um sentimento de vida e esperança naquela situação de horror e muito sofrimento; isso pelo simples fato dela estar “em cor”.

Assim como a cor forte do casaco da menina desperta a curiosidade do expectador, por vezes, na vida, deparamo-nos incomodados com a diferença; isso porque estamos tão presos a nossos interesses individuais, aqui e agora, que esquecemos do outro, dos muitos outros.

Fazemos prevalecer o indivíduo sobre o cidadão, como disse certa vez o professor José Garcez Ghirardi, em entrevista ao Jornal da Gazeta. Me baseio aqui no que recordo de suas ideias sobre a democracia no Brasil.

O indivíduo pode escolher compartilhar o que tem e o que faz com pessoas do seu círculo de interesse pessoal, escolhendo apenas o que é compatível ao seu ego. Já quanto ao cidadão, o seu âmbito de interesse deve ser o do interesse geral. Ele respeita o outro não porque o outro pensa igual a ele, mas pelo simples fato de ser o outro.

No decorrer da história, já tivemos muitas experiências de como é ter que pensar em uma única perspectiva, como na Idade Média ou em regimes ditatoriais (como o nazismo mostrado no filme). E já sabemos que não é bom, não é nada bom.

O debate público, um dos elementos principais da democracia, vem sendo usado, muitas vezes, como mero marketing para vender nossas ideias, desqualificando as do outro. Devemos aprender a ouvir mais.

Temos a tendência de pensar que o outro discorda de nós ou por má fé ou por ignorância, mas lembremos que nem sempre é assim. Devemos confiar que o outro pode está sendo bem intencionado e inteligente.

Somos ricos de pessoas e ideias e de problemas difíceis. Num meio como esse, é preciso que eu tenha a grandeza de entender que outras pessoas podem pensar coisas importantes que eu não consegui pensar e que elas serão também capazes de trocar ideias comigo.

Não estamos prontos, talvez nunca estejamos, mas esse é um trabalho diário e de todo mundo que se mostra na maneira como nos portamos nos mais diversos lugares e nas relações pessoais do cotidiano.

Quando a menina do casaquinho vermelho apareceu, ouvi-a dizer: Seja colorido(a), sem desprezar aqueles que optam por continuar sendo cinza, porque o desafio é este: sermos capazes de ocuparmos o mesmo espaço com respeito, sendo diferentes.

1. Assista as cenas editadas.


Suzana Oliveira

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