palavra a páquelavra

Como a enxada lavra a terra, a palavra lavra sulcos para plantar sementes nas imaginações.

Suzana Oliveira

Uma peregrina na terra, que ama as palavras, a história, a interpretação de texto e a transformação de vidas

pois nós nascemos ontem e não sabemos nada

Nos versos bíblicos, o tempo possui um caráter sagrado, é uma penumbra que fragiliza o humano ao mesmo tempo em que o fortalece, entristece e traz esperança, fazendo-o rever, refletir e reorientar sua práxis.


Não buscarei discutir o caráter verídico do texto bíblico, até porque este não é o espaço adequado para isso. Quero, no entanto, considerá-lo como texto literário, rico em gêneros, detalhes e possibilidade de significações, capaz de nos trazer lições profundas do passado e de nosso tempo.

Infelizmente, não sou linguista ou especialista em literatura bíblica, mas procuro observar nos detalhes um significado especial, que me possibilite uma nova visão dos textos.

Falaremos do tempo, palavra única, que na modernidade, utilizamos de diferentes formas, seja na estrutura linguística, simbólica ou temporal. Termo pelo qual muitos são fascinados, muitos desprezam, outros desperdiçam, ainda outros, temem. Palavra dotada de personalidade, o que nos remete a nossa tradição grega antiga do Kairós e do Chronos.

Os gregos antigos possuíam duas palavras para a moderna noção de tempo. Chronos era usada no contexto de tempo sequencial e linear, de natureza quantitativa (o tempo que se mede), na teologia, também chamado de “o tempo dos homens”.

Ao tempo existencial, os gregos denominavam Kairós e acreditavam nele para enfrentar o cruel e tirano Chronos. O Kairós é um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece, é a experiência do momento oportuno, certo ou supremo. Também conhecido como “o tempo de Deus” (a eternidade).

Em nenhum momento Kairós refletiria o passado ou pressentiria o futuro; ele simboliza o melhor instante no presente, o instante em que se consegue afastar o caos e abraçar a felicidade.

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No livro do berechit (no princípio), mais conhecido como Gênesis, observamos o princípio de sacralidade do tempo:

"E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera" [Gênesis 2.1-3; ACR].

Abraham Joshua Heschel, em seu livro “O schabat”, discorre de forma singular sobre este aspecto:

“Uma das mais notáveis palavras na Bíblia é cadosch, santo, uma palavra que, mais do que qualquer outra, é representativa do mistério e majestade do divino. Pois bem, qual teria sido o primeiro objeto santo na história do mundo? Teria sido uma montanha? Teria sido um altar? De fato, é uma ocasião única aquela em que a notável palavra cadosch é usada pela primeira vez: no livro do Gênese, ao final da história da criação. Quão extremamente significativo é o fato de ela ser aplicada ao tempo: “E Deus abençoou o sétimo dia e fê-lo santo”! Não há referência a nenhum objeto no espaço que teria sido dotado com a qualidade de santidade. Quando a história começou havia somente uma santidade no mundo, a santidade no tempo”.

Talvez isso explique nosso interesse e encanto diante do tempo. Se a santidade está no tempo, a vida vai mal quando o controle do espaço, a aquisição de coisas do espaço, torna-se nossa única preocupação.

Por isso ele nos faz refletir quando a meta não é o ter, mas o ser; não é o possuir, mas o dar; não é o controlar, mas o partilhar; não é o submeter, mas o estar de acordo.

Outro aspecto do tempo é a sua grandeza eterna, diante da pequenez e brevidade humana. É o que nos faz crer humanos e não deuses, que nos concede uma tristeza enobrecedora, pois lembra-nos que somos pó que se desfaz, flor que desvanece, luz que se apaga, vapor que se desfaz no ar:

“Porque nós somos de ontem, e nada sabemos; porquanto nossos dias sobre a terra são como a sombra” [Jó 8.9; ACR].

“Quanto a vida do homem, os seus dias são como a erva, como a flor do campo assim cresce e floresce. Porém, passando por ela o vento, logo se vai, e nunca mais ninguém a vê” [Salmos 103.15; NTLH].

“Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece” [Tiago 4.14; ACR].

O tempo é aquele que torna sábio quem o observa, assim como o homem do campo discerne as estações e sabe o tempo certo de semear e colher, assim quem observa o tempo dirige bem a sua vida. O salmista roga a Deus por isso quando diz:

"Faze com que saibamos como são poucos os dias da nossa vida para que tenhamos um coração sábio" [Salmos 90. 12; NTLH].

O tempo é aquele que traz esperança para quem crer na promessa e exercita a paciência de esperar o fim do Chronos e o início do reino do Kairós.

“Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite” [Salmos 90.4].

Uma fala do livro Eschaton, de Ednaldo Carvalho, expressa com singeleza o anelo por esta esperança:

“O que é o tempo para que o homem se apegue a ele? De manhã, nasce; à tarde, amadurece; à noite, se vai... Ah!, o cronos, o cronômetro, o relógio, os minutos, horas e dias. Fugazes momentos da existência racional. Espere...quem sabe...um dia, e que dia, despertemos num dia de mil anos e, não faça mais diferença contar os anos. Assim como para o Senhor do tempo, que um dia é como mil anos e mil anos como um dia, anelamos por esse dia, ou será ano, ou os mil anos?...não importa”.

E este tempo já começa agora, como uma gota de eternidade que se tornará um oceano.

Que nestes versos aprendamos uma pequena parte das lições do tempo, valorizando-o em sua santidade, sendo humildes perante sua grandeza, alcançando corações sábios antes que o vento sopre a chama de nossas vidas. Sendo prudentes e ordenados em seu uso. Pois como disse, de forma simples e conclusiva, o sábio pregador do eclesiastes, cansado de observar as contradições da vida:

"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu" [Eclesiastes 3.1; ACR].

Referências:

BÍBLIA SAGRADA: versões Almeida Corrigida e Revista (ACR); Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).

CARVALHO, Ednaldo. Eschaton: profecias e fatos. 5. ed. Rio de Janeiro: Charis, 2014.

HESHEL, Abraham Joshua. O Schabat: seu significado para o homem moderno. Perspectiva, 2004.


Suzana Oliveira

Uma peregrina na terra, que ama as palavras, a história, a interpretação de texto e a transformação de vidas .
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