palavra a páquelavra

Como a enxada lavra a terra, a palavra lavra sulcos para plantar sementes nas imaginações.

Suzana Oliveira

Uma peregrina na terra, que ama as palavras, a história, a interpretação de texto e a transformação de vidas

Flores podem crescer mesmo atrás do arame farpado

Como a figura dos campos de concentração e o desejo de sobrevivência nos ensinam sobre nossos dias obscuros.


O presente post foi inspirado em ilustrações encomendadas pelo laboratório criativo italiano Fabrica e fazem parte da exposição "Crianças do Holocausto", em Sarno, Nápoles. Nela, jovens artistas ilustraram poemas escritos por crianças do campo de concentração de Theresienstadt (Terezin), na República Tcheca. (Publicado pela BBC em 2013).

27 de janeiro.png Obra de Irina Gliudza, mostra o arame farpado se transformando em rosas. Foto: BBC Brasil.

Embora a temática do campo de concentração aparente ser por demais estudada e debatida, para mim, continua uma grande incógnita, principalmente quando nos deparamos tentando explicar à uma criança ou adolescente que questiona o que aconteceu no turbulento século passado.

Quando olhamos para a história, sobretudo a partir do século XVIII, do século das luzes, da era da razão, e toda a expansão e desenvolvimento técnico e tecnológico do século seguinte, é inevitável que nos questionemos: o que falhou? A partir daí, na segunda metade do século XX, surgem relevantes discussões no campo da ética, da filosofia e do direito, no sentido de afirmar e reafirmar as condições que nos permitam proclamar “never again!”.

O nazismo e demais sistemas totalitários são exemplos dos momentos históricos em que o direito falhou, não há que se falar em garantias fundamentais, não há que se falar em segurança jurídica.

Não vivemos hoje em um regime totalitário, mas temos passado por dias obscuros que nos remetem a eles. Mesmo com toda a sabedoria que o passado nos ensina, situações estranhas podem ser observadas a nível local e mundial. Hoje, paradoxalmente, a grande intervenção jurídica tem retirado direitos, garantias são usadas conforme a conveniência, intimidade e privacidade são relativizadas de forma discricionária, e por aí vai...

Naquela época, a grande maioria da população alemã não sabia de verdade o que se passava ali naqueles campos. Para eles os judeus estavam sendo apenas deportados. E mesmo em meio a tanto sofrimento, não faltam relatos de sobreviventes dos campos, de sua vontade de viver, da esperança da liberdade futura e de todas as tentativas de não se permitir desumanizar, de não perder a consciência de sua dignidade.

É neste sentido que comparo a figura dos campos aos nossos dias, à necessidade de reafirmamos nossa vontade de viver e a valorização do humano em todas as suas cores e formas, com todo o respeito que se pode ter.

Apesar de vivermos a era da liberdade, imensas grades ainda nos aprisionam, arames farpados nos separam de nosso semelhante e pesadas cargas dificultam o caminhar. Assim como naquela época, hoje, muitos de nós não sabem explicar o que realmente está acontecendo, mas temos a impressão de que algo não está certo.

Nesse cenário podemos escolher como iremos viver, se como ébrios que se deixam levar por toda sorte de opiniões, sem nenhuma reflexão real e profunda de suas razões. Ou como sóbrios, que observam atentamente ao seu redor, que se posicionam de maneira responsável porque sabem que têm o dever de agir, têm o dever de não permitir que as condições que deram origem as maiores catástrofes da humanidade se repitam.

Essa não é uma simples questão de otimismo ou pessimismo, de progresso ou retrocesso. Mas é um convite a olhar a vida - na ciência de sua finitude e carência de ajuda - de modo a valorizar o que realmente importa: as pessoas.

Não sejamos indiferentes, nem despreocupados quanto a nossa realidade. E diante de tudo, tenhamos esperança, plantemos flores pelo caminho. Pois como disse um dos artistas das ilustrações: "Se você olhar cuidadosamente, (verá que) o horror do campo não destrói a vida".


Suzana Oliveira

Uma peregrina na terra, que ama as palavras, a história, a interpretação de texto e a transformação de vidas .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// @obvious //Suzana Oliveira