palavra a páquelavra

Como a enxada lavra a terra, a palavra lavra sulcos para plantar sementes nas imaginações.

Suzana Oliveira

Uma peregrina na terra, que ama as palavras, a história, a interpretação de texto e a transformação de vidas

O que faz um violinista no telhado?

“Cada um de nós é um violinista no telhado, tentando arranhar alguma melodia agradável e simples, sem despencar de lá de cima. Não é fácil”.


O que seriam das artes se não fossem as metáforas. Essas figuras da linguagem que conseguem dizer as obviedades da vida das maneiras mais originais possíveis. Elas expressam as paixões humanas com tal riqueza de vocabulário, que chegam a transpassar os limites do verbete e nos mergulham num campo semântico de impressões, trazendo-nos o som, o cheiro, o gosto, a visão e o toque do momento.

Existem para a vida diversas metáforas, nelas, somos árvores, que no mesmo lugar, vivem diferentes estações, cada qual com sua beleza, desafios e propósitos. Remetendo-nos a sensações de alegria, reflexão, amadurecimento, tristeza, solidão e paz.

Há também a figura do viajante, do peregrino que caminha por veredas difíceis e veleja por mares distantes na busca por terra, do porto onde ancorar, passando por momentos de tormenta e calmaria, temendo a noite escura, mas crendo na esperança do amanhecer.

Tais metáforas e muitas outras foram, e são, rica inspiração para livros, quadros, poemas e canções. Há um tempo encontrei mais uma, um tanto inusitada, mas que me cativou desde o primeiro momento: A do violinista no telhado.

“Cada um de nós é um violinista no telhado, tentando arranhar alguma melodia agradável e simples, sem despencar de lá de cima. Não é fácil”.

Boris Shapiro.jpg Autor: Boris Shapiro

Esta frase é a abertura da versão brasileira do espetáculo de teatro de mesmo nome, apresentado em São Paulo, em 2012, dirigido por Charles Moëller e Cláudio Botelho.

Um clássico musical estrelado pela primeira vez em 1964, baseado no romance “Tevye, o leiteiro”, de Shalom Aleichem, um dos grandes escritores e promotores da literatura iídiche (uma mistura de hebraico com línguas da Europa central e oriental).

A peça conta a história de uma família judia no contexto da Rússia czarista, no início do século XX. Mostrando a boa convivência com a comunidade cristã ortodoxa, sem, no entanto, misturar-se a ela. Narra de forma bela e comovente os dilemas e conflitos de um pai, que luta por preservar as tradições que até ali tem garantindo sua identidade.

De volta à metáfora. Esta nos traz muitos significados, podendo ser interpretada por diversos ângulos:

Fala de música, da tentativa e desafio que é tornar as coisas melhores, leves e agradáveis. Da dificuldade de manter-se em equilíbrio, estando numa base tão inclinada e escorregadia.

Fala dessa vontade de tocar que nunca devemos perder, mesmo que as circunstâncias não sejam as mais favoráveis. Temos de ter em mente que aquilo que fazemos vai além do que podemos alcançar. Se nesta canção ninguém nos vir tocar, sabemos sempre que alguém, mesmo ao longe ouvirá. E se ao menos um ouvir, saberemos que valeu à pena.

Este equilíbrio que tanto se almeja para tocar bem nem sempre é possível, então, desequilibrados, arranhamos qualquer coisa pouco afinada. Às vezes nem tocamos, esquecemos um pouco o porquê de estarmos ali e concentramo-nos apenas em nós mesmos, no cuidado para não cair. Às vezes caímos, nos machucamos, mas saramos e voltamos ao nosso posto, inspirados pelo nascer e pôr-do-sol, pelo canto das aves e brilho da noite.

É certo que nem sempre tocaremos. O que levamos aos outros primeiro deve estar em nós, é preciso tempo. Quando não se tem a estabilidade para expressar com clareza de ideias o sentido e propósito de algo, é melhor calar, o silêncio dirá mais do que palavras sem raízes.

Nosso mundo é mundo de pressa, produção, resultados e respostas. Contudo, por vezes, só a lentidão das etapas, das fases, das idades e estações para nos fazer entender o real valor do que vivemos, da existência.

Para os porquês da vida, tão profundos e difíceis nos momentos de dor, nem sempre haverá respostas a altura, nem sempre haverá respostas.

Mas continuaremos a tocar. E a melodia será agradável, será simples e virá do coração.


Suzana Oliveira

Uma peregrina na terra, que ama as palavras, a história, a interpretação de texto e a transformação de vidas .
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