Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

A arte nascida da vida: roteiro marcante por ser história real ou história real por ser marcante?

O filme Being Flynn (2011), apesar de pouquíssimo conhecido, tem atuações incríveis de Paul Dano, Julianne Moore e Robert de Niro. Inspirado no livro “Another bullshit night in suck city”, do escritor americano Nick Flynn, retrata um drama familiar e pessoal que vai além do que se vê e nos mostra, parafraseando Pablo Neruda, como a arte nos salva da vida, já que nada nos salva da morte.


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Só quando o filme acaba é que sabemos que se trata de uma história real (no caso daqueles que não se atentam à capinha do DVD ou que assistem filmes online), inspirado no livro de memórias “Another bullshit night in suck city”, do escritor americano Nick Flynn. Quando nos damos conta disso (de que o filme é a própria vida dele), tudo ganha um ar diferente.

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Ao terminar o filme, metade emocionada e metade pensativa, fui pesquisar um pouco mais sobre a vida de Nick Flynn, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Depois de ler um pouco e encontrar alguns de seus poemas na internet, só o que eu conseguia pensar era como uma história de vida marcada por abandonos, mortes, drogas e um sentimento que beira a melancolia pôde ser transformada criativamente de maneira tão sensível? Being Flynn nos mostra que isso é possível, e o faz tendo como matéria-prima os próprios traumas, fracassos, desencontros e angústias de uma vida real. Pensando bem, por que haveria de ser diferente? Afinal, a arte não se trata de um retrato - ressignificado com letra, melodia ou tinta - da vida?

Com a atuação reveladora de Paul Dano (o esquisito Dwayne de “Pequena Miss Sunshine”), que interpreta o próprio Nick, o filme também conta com a atuação incrível de Robert De Niro (Jonathan Flynn), no papel do pai alcoólatra, ranzinza, racista e homofóbico (ufa!) de Nick. Being Flynn não é apenas um drama familiar baseado em fatos reais (que vida real não é um drama?): como um percurso analítico com vieses lispectorianos, é um daqueles filmes em que a protagonista precisa se encontrar primeiro, para depois encontrar - e aceitar - o outro em si. Nick Flynn decide escrever sobre a história do pai (que não vê há 18 anos), mas para isso, obviamente, precisa percorrer a própria história. Logo, ele se perde para se encontrar, se encontra para se perder de novo, passa por uma fase em que descobre (e nega) aspectos do pai que habitam nele, e, finalmente, só depois de introjetar (não antes sem ir ao fundo do poço) essa figura do pai é que ele consegue, de fato, ser quem realmente é e produzir alguma coisa.

Nick perde a mãe ainda jovem (a causa da morte só vai ser revelada perto do fim do filme), e sente muito a sua falta. Jonathan Flynn abandonou a família quando Nick era criança, e a mãe teve inúmeros companheiros, com quem Nick tentava resgatar a relação com o pai. Assim, podemos dizer que antes de perder a mãe, Nick perde o pai, simbolicamente. O legado que ele tem do pai são as palavras: ele enviava cartas e mais cartas a Nick, todas guardadas e relidas quando este decide escrever sobre a história deste estranho mais familiar. Jonathan Flynn é um homem de personalidade ácida, mal humorada e difícil; e o jovem Nick um rapaz americano, com pouco dinheiro no bolso, que quer se encontrar, mas, de tão perdido sequer sabe disso. A trajetória cinematográfica percorre sua árdua tarefa de tentar se encontrar através do pai: sua história, sua ausência, suas cartas.

Poderíamos comparar a personalidade esquisita de Jonathan Flynn ao pai do filme “Big Fish”, não fosse o alcoolismo, o racismo, a homofobia e a destrutividade do primeiro. Jonathan é um grande contador de histórias (ele se considera um dos maiores escritores do mundo e diz estar escrevendo um grande romance americano, que, diga-se de passagem, não acaba nunca). Já foi preso por forjar cheques e quando o filme começa, Jonathan trabalha como motorista de táxi e tem uma vida precária, estilo Bukowski, só que pior.

Nick parece ter desistido de tentar entender o pai, até que se percebe trilhando um caminho semelhante, quando tem o (des)prazer de reencontrá-lo. Aos 27, ele quer ser escritor, mas sua vida vai de mal a pior: a casa em que mora com dois amigos (um deles é traficante de drogas) é deplorável (o imóvel era um antigo bordel e tinha ligação com o crime organizado), ele é deixado pela namorada e não tem um trabalho fixo. Ao conhecer uma garota que trabalha em uma instituição que abriga moradores de rua, os dois se envolvem e ele começa a se empenhar para conseguir emprego no mesmo lugar. Assim que consegue, em poucos dias, dá de cara com o pai, que aparece no abrigo. Mesmo não tendo onde morar, o pai não perde o orgulho, a hostilidade e o humor ácido. Jonathan faz do abrigo - e da vida de Nick - puro caos.

Being Flynn talvez tenha um ar de morbidez, ou, como já ouvi de algumas pessoas, “pesado”. O fato é que se trata de um filme real. Não apenas por ser uma história real, mas porque revela fragmentos impactantes, tristes e terríveis de uma vida que é real. Desde “Totem e tabu”, desde “Édipo” e talvez desde muito antes, vemos essa parafernália doentia entre pais e filhos. Em Being Flynn tudo isso fica escancarado, uma vez que Nick não se empenha - e parece nem ter o propósito de - em esconder do mundo que a personalidade do pai é tão intragável quanto um purgante.

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O diretor Paul Weitz (também diretor de “American pie” e “Um grande garoto”), que inclusive foi quem escreveu o roteiro, deixa na polêmica não só a questão do relacionamento conturbado entre pai e filho, mas outros assuntos delicados, como o envolvimento de Nick com as drogas e a vida miserável dos moradores de rua de uma grande cidade, da qual o pai de Nick faz parte. A trilha sonora de Badly Drawn boy embala o drama.

Nick Flynn, 55 anos, publicou sua primeira coletânea de poemas em 2000, e já ganhou sete prêmios literários. Ele também participou de Being Flynn como produtor executivo e colaborador artístico. Sua esposa, a atriz Lili Taylor, participa do filme interpretando Joy, umas das funcionárias do abrigo. Em um trecho do livro que inspira o roteiro, ele escreve: “Who doesn't want to just disappear, at some point in the day, in a year, to just step off the map and float?” (“Quem nunca quis desaparecer, em algum momento do dia, do ano, apenas sumir do mapa e flutuar?”). Sim, Nick, todos já pensamos, alguma vez na vida, em desaparecer, sumir do mapa ou morrer, quem sabe. Mas, como é dever de todos nós, temos de dar conta da nossa própria jornada, de nossas raízes, apreciando-as ou não, com memórias alegres ou não.

Being Flynn fala dessa trajetória, desse resgate, da maneira como é, como foi. Sem floreios, sem rodeios, retrata a história de um filho sem paz, com pais mortos e ausentes. Do estilo de “Este é o meu lugar” (de 2011, que conta com a incrível atuação de Sean Penn), Being Flynn nos mostra a beleza - não sem subtrair a dor -, nem que seja por um instante, que pode existir numa relação difícil entre pai e filho, num ir até o fundo do poço e regressar das trevas. É disto que se trata o seu livro de memórias, inspirador do filme: da poesia e da escrita - e da arte, de uma forma geral -, como algo que nasce de um sofrimento, de uma experiência dolorosa. É tocante porque fala de algo real. Nick Flynn nos mostra que seu livro brota do limbo e vai em direção da luz, nascendo em formato de palavra. Um prato cheio para seres humanos sensíveis, interessados em psicanálise e/ou literatura, algum drama ou todas as alternativas anteriores.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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