Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

escolhas míopes

A vida nos oferece muito (até demais) todos os dias. É como uma grande mesa giratória com um cardápio vastíssimo. O que estamos colocando no prato? São tantas opções - e emoções - que, por vezes, não enxergamos o que queremos comer. Em alguns casos, sequer sabemos formular a pergunta.
Deixamos os óculos em casa e seguimos escolhendo, mesmo tendo que apertar os olhos para enxergar um pouco menos pior. Até quando?


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Não tem remédio, não tem receita, não tem verso, não tem rima. A vida é mesmo essa dicotomia: monotonia e vulcões em erupção. Nossa rotina, nossos relacionamentos, nosso trabalho(s), nossa louça cheia de pia, nossa roupa cheia de tanque, nossos baldes cheios, nossa cabeça cheia. Tenha a santa paciência-cheia.

Mas há uma escolha a ser feita. Porque a vida pode ser bela (ou menos miserável). Principalmente quando o dinheiro está ali, separado para as contas e, quem sabe, dessa vez dê até pra ousar e pedir aquele chopp mais caro do bar que você vai toda semana. Principalmente quando aquele amigo, por quem você brilha os olhos junto e chora junto, vem te visitar e se abre espaço para boas risadas, boas conversas, boas comidas e boa vida. Principalmente quando, numa segunda-feira cinzenta, aquele livro que você pediu chega. Principalmente quando você encontra alguém louvável para passar algumas horas e consegue trocar ideias que não sejam fúteis. Principalmente quando a geladeira está cheia, o coração está cheio e os rancores estão calmos. Quando o travesseiro não pinica, quando amanhece azulado e você decide caminhar.

Eu poderia passar horas discorrendo sobre como a vida também pode ser o oposto de tudo isso, mas decidi fazer o contrário. Porque a vida é isso mesmo, esse controverso tic-tac incessante, esse intervalo entre acordar e dormir e tantas outras coisas e sentimentos que fazem parte do existir. Citando Montaigne “que coisa terna é a vida, e fácil de perturbar...”. Talvez o tempo que eu gaste falando das coisas boas da vida seja menor do que o tempo falando das coisas podres dela, mas isso é só uma questão de perspectiva. Uma questão de olhar.

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O que eu gostaria de focar aqui é o fato de a vida estar sempre nos oferecendo coisas. Certa vez, pensei (ou ouvi, e agora não sei se eu criei isto ou se estou apenas fazendo uso desta incrível imagem) em uma metáfora que fez total sentido: a vida é praticamente um buffet, porque nela se encontra de tudo: pratos frios, quentes, saladas, grelhados, massas, churrasco, sobremesas mil. Servido?

Vai querer comer o quê? Do que você tem fome? Poderia ser propaganda de refrigerante, mas é vida real.

É exatamente essa a pergunta que a vida faz. Das coisas mais simples às consideradas, muitas vezes, banais, a pergunta é essa. Mesmo nos dias em que você acorda e vai passar um café, pode optar por:

( ) passar o café pensando em como vai ser o seu dia, que livro você vai ler quando chegar em casa, etc.

ou

( ) passar o café pensando em como você gostaria de estar em Miami e não ter que trabalhar nunca mais.

Dá pra ir à Miami? Não. Pra falar a verdade, eu nem escolheria Miami, se não a casa de campo com uma cozinha incrível, aquela que meus avós nunca tiveram. Não se trata da decisão utópica dos "óculos cor-de-rosa", de ver tudo pelo lado positivo, sorrir sempre, cair, levantar e seguir cantando. Não. Trata-se de enxergar a realidade. Mas isto é questão de escolha também.

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Vamos supor que hoje você tenha acordado com vontade de comer moqueca de peixe. De qualquer forma, você pode escolher comer frango ou peixe. O frango pode estar com um aspecto divino, delicioso, mas é moqueca que você quer. Se vier frango, tudo bem. Mas o desejo grita "moqueca". Se você não sabe o que quer comer, qualquer coisa serve. Estou usando a comida como um exemplo, mas aí podemos incluir as mais diversas “áreas” da vida. Por que insistimos em nos contentar com "qualquer coisa"?

Experimente se fazer essa pergunta. O que você quer comer (fazer, usar, com quem quer se relacionar?)? Se não sabemos, há sempre alguém (a família, a mídia, o estado, e por aí vai) pronto para nos oferecer algo. Como se dissessem: Não sabe o que quer? Posso dar uma sugestão? Peça este aqui e não vai se arrepender! Pronto: num piscar de olhos (ou num abrir deles), estamos naquele emprego medíocre há 10 anos, naquele relacionamento que não causa frio na barriga há tempos, comendo chips e enlatados há décadas, comemorando bodas de prata e chorando a perda de alguém pelo 9ª ano consecutivo. “Puxa, já faz tanto tempo assim?” Então percebemos o tamanho do rombo que causamos a nós mesmos. Touché.

Em “tempos difíceis para os sonhadores” como os de ultimamente, saber o que se quer comer é ter olho em terra de cego. Porque se questionar é raro. Estão todos cegos, loucos, burros. Querem alguém, querem algo, querem alguma coisa. Mas ninguém sabe quem, o quê, quando. Quando não damos espaço para o vazio se ajeitar, aparece sempre “qualquer coisa”.

Se faz urgente escolher aquilo que alimenta a alma, e isso não significa "bom" ou "ruim". Significa apenas "sagrado". O que é sagrado pra você? O problema é que o sagrado se confundiu com o profano, o cafajeste é aquele que nos entrega flores, a violência contra um homossexual e/ou uma mulher já não é o que nos horroriza, um beijo gay é o que nos choca. Tá todo mundo louco. A gente sofre de sonhos insones, pressa generalizada para coisas que já passaram do prazo de validade, gastrite por ingerir amores enlatados. Temos opiniões medíocres sobre assuntos importantes, padecemos de um renitente astigmatismo político.

O diagnóstico? Coração míope. E neste caso, a miopia é severa: a gente não se vê. Nem mesmo no literal, porque hoje em dia ficamos satisfeitos (ou de saco cheio) com uma mensagenzinha de voz aqui, uma curtida no facebook ali, e pronto, basta um comentário escrito “saudades, vamos marcar alguma coisa” e já é o suficiente para ficar mais dois anos sem ver aquela pessoa. Afinal, o tempo é implacável, a mesa - digo, a vida - vai girando, girando, girando.

Um dos sintomas desse coração míope é enxergar tudo embaçado, inclusive nós mesmos, o que nos leva a escolher qualquer coisa, às pressas. O famoso “vai esse mesmo”. Outro sintoma é enxergar o outro como se fosse um borrão bem em frente dos nossos olhos. Ele/ela está ali, sofrendo, rindo, pedindo dois minutos do nosso precioso tempo, revelando-nos coisas, falando o tempo todo, pela via do verbal e não só; mas a gente simplesmente não vê. Ou pior: a gente nem se importa.

Existe um tratamento. Lentes corretivas, cinco graus e meio em cada olho. Cada um encontra a sua lente em uma "loja" diferente. Meu melhor oftalmologista foi uma sessão de análise por semana, inicialmente. Além disso, no meu caso foi recomendado que não me fizesse de boba, porque o prognóstico seria certeiro: em algum momento eu acabaria caolha. E infeliz.

A gente demora a se adaptar com óculos novos. Como crianças, ficamos colocando e tirando as lentes enquanto caminhamos pela rua, pra ver qual é a diferença que ela traz. Depois de um tempo nos damos conta que uma vez com as lentes nos olhos, torna-se impossível viver sem elas. Uma vez enxergando, não dá mais pra se fingir de cego. Qualquer buffet vira motivo pra pensar “Do que eu tenho vontade?”, e isso às vezes dá trabalho. De qualquer forma, sigo agradecida às lentes, simbólicas e reais, que me fazem enxergar além do óbvio. Em terra de míope, quem usa óculos pode parecer louco, mas eu não me importo.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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