Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

por sem anos de solidão

Universos particulares que se encontram, mesclam-se e repentinamente, se separam. Depois, "melhor não falar sobre isso", ou "já sei, já sei", e/ou outros discursos ligados à logica capitalista do famoso "a fila anda". Só que não. São as relações que estão desenfreadamente contemporâneas (seja lá o que isso signifique) ou a gente que se perdeu no meio do caminho?


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Bauman disse, a contemporaneidade disse. Dizemos e ouvimos por aí, o tempo todo: vivemos tempos difíceis, tempos de amores difíceis. Não mais encontramos aquelas dificuldades de outrora, agora o que encontramos são amores que nos escapam, escorregam por entre os dedos. Encontramos a liberdade e não sabemos como lidar com ela?

Sinto, ouço e vejo que as relações não encontram mais “liga”. Temos tudo e não temos nada. A gente segura (ou tenta segurar) e os amores nos escapam. Por quê? O que deu errado? Ou é simplesmente - o que já não torna nada simples - a liquidez assustada das pessoas? Encontram-se, conversam, enamoram-se, ficam, etc. e tudo o mais, e depois de um ou dois dias, uma mensagem (estamos na era virtual, veja bem, meu bem). “Opa! Parece que a coisa está indo pra frente!”. A mensagem é correspondida (apita o juiz, começa o jogo no Maracanã!). Duas ou três linhas depois, pausa. Silêncio. As esperanças acabam, afinal, hoje em dia tudo acaba com um visualizado e não respondido. Como bem disse Ritinha, “Tudo vira bosta”.

Começam então uma série de questionamentos, na maior parte das vezes, solitários. “Onde foi que eu errei? Foi na primeira vírgula, que eu deveria tê-la poupado?”, “O que foi que eu fiz? Talvez não devesse ter revelado como temos gostos parecidos, pelo menos não tão cedo”, e vamos, na melhor das hipóteses, chorar as pitangas - as amoras, as maçãs, o gosto amargo do dia seguinte, ainda sozinho, ainda sem planos - a alguém que queira nos escutar.

“Onde foi que eu errei?” pode, também, ser transposto para “Onde é que estamos errando?” Ou ainda “O que querem as pessoas? As mulheres, os homens?”. Perguntas grandes, bem sei, mas já não as adio mais. Agora é a hora. Já perdemos muito tempo. Vem, vamos embora, que esperar não é saber.

Um passo em falso aqui, um convite mais ousado ali e pronto: é o (in) suficiente para se alarmar, correr como uma pequena criança corre do bicho papão. Do que corremos tanto? Do que tanto tentamos nos esconder? Da intimidade, talvez. Do relacionar-se. Saber quando é que o outro deixa escapar o sorriso amarelo, o que faz às quintas-feiras, se come ou não sobremesa, se gosta ou não da Sofia Coppola. Ouvir e dizer sim, ouvir e dizer não. E depois vêm os ajustes necessários... “você pode às sextas, eu só posso aos domingos”. “Você come carne vermelha, eu só como frutos do mar”. “Você se dá bem com a família, eu não vejo meu pai há três anos”. “Gosto de dormir com o abajur, você precisa da maldita cortina blackout para pegar no sono”. E aí? Quem vai querer negociar?

“Te vejo às 20h”, e esperamos desde às 8h. Vai dizer que não!? A coerência anda em atraso, corre sempre pra não perder o ônibus, a calma, o sentido. Estamos em perigo, corremos para não nos atrasar, mas estamos sempre atrasados em relação a nós mesmos. O risco não é mais por amar demais, mas por amar de menos. O amor é brega. Existir é brega. Os fatos não têm ligação (nem sequer falamos ao telefone), e hoje em dia parece que nem precisam ter. Pessoas e situações são lombadas que vamos transpondo sem nem ao menos saber por qual motivo. A pergunta é: quem tem coragem suficiente para viver com isso? Com alguém pensando e nos esperando desde às 8?

Pague (é preciso, sim, pagar o preço do se colocar em contato com o outro. Trata-se de investimento que nem todos querem admitir e assinar embaixo) um, leve vários (as). Habita em cada um de nós um universo inteiro, uma população cheia de manias, fobias, anseios, bobagens, vícios e vontades. Dá pra conciliar outro universo desse?

Vigora a lógica do “Do nada”: “Do nada” começamos a conversar. “Do nada” nos beijamos. “Do nada” eu tirei a roupa dele. “Do nada” ele parou de me responder. “Do nada” paramos de nos cumprimentar na rua. Casos mais trágicos, não menos tristes, se encaixam nessa mesma lógica. “Do nada” começamos a morar juntos, “Do nada” ele/ela me trocou por outro/outra. “Do nada” nosso coração é acalentado pela presença silenciosa do outro e “do nada” temos que seguir a vida com o coração despedaçado. Ai.

Simplesmente paramos ali, ficamos um tempo. Depois, sumimos. A vida segue. E assim vamos vivendo, entre intervalos de grandes solidões, de relações (mal começadas) em relações (mal terminadas). Mal amadas, mal faladas. Os nós (incluindo o eu + você) não são dados, muito menos laços. O fio é cortado repentinamente, a mala com meses de lembranças é feita em 40 minutos. Somos descartados, na melhor das hipóteses, para o lixo reciclável. Talvez as relações não sejam encerradas dignamente porque nunca foram iniciadas. Não teve princípio para poder ter fim.

Devemos trabalhar nos motivos, nas vírgulas, nas entrelinhas. Há que se prestar atenção ao que disse a raposa de Exupéry: “É preciso ser paciente. Sentarás primeiro longe. Eu te olharei e tu não dirás nada. A linguagem é fonte de mal-entendidos. Mas cada dia sentarás mais perto... E virás sempre na mesma hora. Se tu vens às 4, desde às 3 eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às 4 horas, então, eu estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade. Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração...”

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Precisamos ser pontuais com as nossas emoções, para sermos coerentes com o atraso (ou adiantamento) do outro. Aí, quem sabe, vamos poder esperar no portão sem temer ser deixados à mercê. Afinal, do quê?


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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