Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

as palavras mágicas

O que pode brotar de uma palavra que estava engasgada e, de repente, é parida?
Até quando vamos pensar tanto antes de falar o que realmente tem importância?
Como magia, a palavra dita pode tirar do peito esse sufoco, esse oco de algo que precisa de forma para que sim, continuemos a pensar antes de falar. Mas não para deixar de dizer.


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Como pode ser que falte palavra para coisas tão pequenas, tão simples? De repente a palavra escapa, foge, e eu nem sei pra onde. Basta um descuidado para ir buscar uma xícara e a palavra escapa, feito pássaro que viu a portinha da gaiola aberta. Ou foi o gato que comeu (a minha, a sua, a nossa língua)?

São, por vezes, pequenas palavras que deixamos de dizer. Quem não se lembra do ensinamento épico "qual a palavra mágica?", quando a gente, quando criança, esquecia de dizer "por favor", "obrigado" ou "com licença"? Uma vez crescidos, ou algo próximo disso, conhecemos outras palavras que são mágicas. São as palavras que mudam cursos de relacionamentos, de amizades, de questões profissionais, enfim. Palavras que se tornam decisivas em nosso processo de amadurecimento. Aquele "não", tardio, mas em boa hora; aquele "sim", que sai num deslize, em uma hora nem tão boa assim.

O que se faz com a palavra que não é dita? Cada um dá o seu jeito, e se não, as coisas dão jeito pra nós. O inconsciente está aí para provar isso. Meu modo é escrever. Vomito tudo em cima da folha branca, do teclado branco, sujo tudo. Depois, dá pra ir recolhendo, limpando, até que a palavra não-dita ou maldita vira poesia, vira um texto, só pra não ser lembrada apenas como sufoco. Mas ainda assim, há algo que me escapa.

Dignas de um suspiro, as palavras que não dizemos anoitecem dentro da gente, viram sonhos durante a noite, pesadelos talvez, e pela manhã, lá estão elas na mesa, ao lado da xícara de café fumegante. A palavra fumega, chega a 100 graus celsius e entra em ebulição. É preciso dizer. É preciso gritar. É urgente, não dá pra esperar. Tem palavra que de tão grande a gente não consegue fingir que não viu. É como a criança que se esconde atrás da cortina. Talvez uma piadinha "oh, meu deus, onde está ele/ela?" seja válida, mas no fundo, sabemos que está lá: a palavra com os pés pra fora, se fingindo de muda. Se fazendo de estátua.

Quando a gente decide falar, pôr pra fora, é como se colocássemos uma moeda para aquelas estátuas vivas que ficam nas ruas: a gente põe as coisas em movimento.

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A palavra que não quer calar me pergunta: vale a pena? Até que ponto é possível fazer o outro me entender, se parto de algo meu, íntimo? Até que ponto é possível sermos escutados, de fato? Antes disso, até que ponto vale a pena gastar a palavra com quem não vai ouvi-la? Algumas vezes (ocorre sempre com as palavras mais decisivas) a gente só conhece o efeito depois de tê-las dito.

Conversava com uma amiga ontem e ela retomou uma frase do Chico Buarque: "aja duas vezes antes de pensar". Fiquei pensando que pensamos demais e agimos de menos. Pensar, por vezes, é inútil. "A dor não passa", bem sabia Chico, e por isso é preciso dizer, agir. Soltar o grito preso na garganta. Mandar à merda pode ser libertador. E revelador. Porque enquanto não falamos, o outro não sabe o que passa dentro da nossa cabeça. E a gente não sabe que tipo de pessoa pode nascer depois da gente ter se livrado de uma palavra, como num passe de mágica.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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