Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

que seja intenso enquanto dure

Nascido de um fragmento que o escritor publicou no facebook, "Town" é o terceiro e mais novo livro de
Felipe Pauluk, também autor de "Meu tempo de carne e osso" (poesias) e "Hit the road, Jack". O romance narra, além de temáticas pouco fáceis de digerir, a íntima aproximação de um escritor à beira do abismo literário/pessoal com uma prostituita. Com um estilo de escrita um tanto realístico, Pauluk consegue nos dar a nítida sensação de perambular junto aos personagens, fazer parte de seus conflitos existenciais e mazelas amorosas. Ao passar das páginas, é inevitável não adentrar no universo caótico do protagonista, revelador dos mistérios e misérias humanas. "Town" é uma experiência que deve ser vivida.


capaloja-pauluk.jpg

Terminei ontem o livro "Town", de Felipe Pauluk. Não conhecia nenhum escrito do autor, a não ser as poesias que de vez em quando apareciam no facebook: Eu, como uma apreciadora das boas letras que juntas formam haicais ou prosas, fui ao lançamento do livro, que aconteceu em Londrina-PR, na última sexta-feira. Felizmente moro na cidade e pude prestigiar mais uma expressão artística local.

Comecei a ler o livro na segunda-feira e o que seria apenas mais uma rotineira leitura noturna se transformou em 190 páginas de uma tacada só. Porra, Town é uma tacada mesmo: na nossa cara, na mesmice, nas misérias humanas - tão comuns, mas tão deliberadamente escondidas pelos 'filtros' da vida.

O livro conta a história de um escritor (o "contista", como é chamado) em vários níveis de decadência que conhece Siena, uma prostituta oblíqua que o ajuda a escrever contos eróticos para uma revista do gênero. Mas não é só isso. O que um pede e dá ao outro acaba se transformando em mais do que um "favor". Ambos são vistos. E são vistos na medida em que passam a se enxergar de uma maneira diferente do que estavam acostumados. A aproximação dos dois acontece de forma sutil e, simultaneamente, veloz. Talvez por terem questões muito parecidas, apesar de não saberem disso. A análise que é possível fazer dos personagens dá pano pra manga pra uma boa - e longa - conversa de bar. Siena tem um ar - uma água, uma terra, etecetera e tal - que exala fumaça de cigarro e vodka barata, uma personalidade escorregadia e, ao mesmo tempo, marcante. Não, marcante é pouco. A personalidade da garota-de-programa é vestida com realidade, daquela crua. Aliás, o livro inteiro é de um real belo e violentíssimo.

Eu imaginei Siena, criei uma imagem dela na minha cabeça, e é claro, depois das 190 páginas na segunda-feira antes de dormir, eu só poderia sonhar com ela. No dia seguinte, me entristeci quando, ao abrir o livro, vi que me restavam apenas algumas páginas para chegar ao fim da trama. Devorei o final. Devorei e fui devorada: pelo desfecho da história, pelo desespero do "contista", pelo seus apelos à vida ou a qualquer coisa que pudesse lhe dar algum tipo de salvação. Mas a vida é isso, não é? Angústia. Town talvez cause espanto porque, ao ler, torna-se inevitável não fazer parte disso que nos torna humanos, demasiado humanos. É como se andássemos, sem fôlego, pelas ruas, pelos pensamentos e questionamentos insanos, melancólicos, depravados, à la Bukowski, do "contista".

buk.jpg

Achei interessante o "contista", quem narra a história, não ter seu nome revelado. Não ter nome próprio. Apenas Siena leva título. Faz sentido, uma vez que Siena dá vida aos escritos dele e, de alguma forma, não só aos escritos. Siena faz re-viver algo na alma do "contista" que parece há muito estar em coma. Paixão? Amor? Intensidade? Complete a lacuna como quiser. Me lembro, antes de terminar o livro ontem, de ter comentado com uma amiga: "Não faço a menor ideia de como ele vai terminar essa história". E eu não fazia ideia até terminá-la.

Ao ler a última frase do livro, virei a folha na esperança de que existissem páginas extras. Não para que a história continuasse, mas para que me fosse explicado que diabos era aquilo que eu estava sentindo. Era tanto! Com o livro nas mãos, os olhos e ouvidos atentos aos barulhos que a noite adormecida fazia, consegui identificar o que sentia: era vazio. Aquele vazio que a gente sente quando volta pra realidade (tipo o que senti quando acordei no dia seguinte ao show do Kiss, no Monsters of Rock, ou quando terminei a segunda temporada de Orange is the new black). Eis o vazio que a gente sente quando termina um bom livro: os personagens ficam um tanto ali, dentro das folhas, e outro tanto permanece perambulando dentro da gente. Há tempos eu não era pega de surpresa por um romance tão visceral e poético. Há tempos eu não usava "visceral" e "poético" na mesma sentença.

Fiquei pensando. Assim como para Siena, assim como para "o contista": o que realmente tem importância? Será mesmo por isso - seja lá o que for - que acordamos todos os dias, faça-chuva-faça-sol, para ir em busca? Ou é algo que, talvez, já esteja ali, apenas esperando para ser realmente notado?

Town é um convite para abrir os olhos, para sacudir a poeira dos nossos ossos cansados de tanta caretice, babaquice e dessa eterna falta do que falar, para se aventurar em pensamentos e projetos que sempre ficam pra depois. Quando é o depois? Quando será?

Pedi para Pauluk escrever uma dedicatória pra mim, no dia do lançamento. "Espero que town seja uma boa companhia". E foi. Pena que durou apenas duas noites.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @destaque, @obvious //Manuela Pérgola