Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

simplesmente parem

em nome de um mundo melhor, com seres humanos passíveis de convivência saudável, é hora de fazer mais vezes essa pergunta: quando, exatamente, é hora de parar?


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será que perdemos a mão, ou entramos na contramão, quando na verdade já era hora de parar? com o que quer que seja que esteja atrapalhando a nossa evolução: de comer compulsivamente, de beber, de fumar, de se envolver com pessoas que não adicionam ou disseminar opiniões vazias; precisamos, simplesmente e nem tão simples assim, parar. este é um pedido de alguém que também está tentando.

parem com os palavreados insensatos a respeito de rolas que gostam de outras rolas, vulvas que gostam de outras vulvas, ou qualquer coisa que faça referência a algo que é completamente íntimo e pessoal: a orientação sexual. do desejo. se o seu desejo não é o mesmo do coleguinha, você não precisa atacá-lo ou dizer que por causa desse desejo ele(a) vai para o inferno, vai ter o pipi cortado pelo demônio, vai se dar mal na vida, não tem caráter, não é um cidadão digno de respeito ou todas as anteriores. aliás, quando você formula qualquer tese neste sentido, fica feio. porque fica difícil de acreditar, e me desculpe a psicanálise de botequim, como diria Xico Sá, que você não tem um desejo reprimido por outra rola/vulva. pense a respeito.

parem de culpar a Dilma por tudo. aliás, parem com essa busca insana e insensível por um(a) culpado(a).

parem de deslocar os milhares de problemas que estamos enfrentando hoje, como a redução da maioridade penal, para a propaganda do boticário. aliás, fica muito mais fácil de entender o mundo em que vivemos assim: é recriminável uma propaganda em horário familiar brasileiro mostrar pessoas se abraçando e demonstrando afeto; mas não é de horrorizar que a maioria da população seja a favor de que mais jovens, cada vez mais jovens, sejam encaminhados ao sistema prisional, quando já foi provado que o encarceramento não reduziria em nada a violência, mas pelo contrário. e se o problema fosse prender, por que não temos mais escolas e mantemos os jovens lá dentro, que é onde deveriam estar? socializando, aprendendo, brincando, vivendo...? a questão aqui é vida, meus caros, vida. não mais morte, mais ódio, mais violência. por isso, parem. por favor, simplesmente parem.

parem de matar gays, travestis, transexuais, mulheres, negros, pessoas. parem de expressar opiniões aos berros, utilizando argumentos furados, que pingam preconceito e fundamentalismo por esse chão já cansado de tanto pisoteio. tiroteio.

parem de achar que quem decide sobre o corpo da mulher são outras pessoas, ou o estado, ou a igreja, ou os dois, e não ela e apenas ela. parem de achar que a descriminalização do aborto é a favor do aborto, ou que irá aumentar o número de abortos e que começaremos a utilizá-lo como método contraceptivo, quando a não-criminalização irá apenas diminuir o número de mulheres que morrem fazendo abortos de maneira clandestina e extremamente violenta.

parem de colocar jesus no meio desses discursos burros. na minha imaginação, se deus pudesse sentir algo, ultimamente ele sentiria vergonha. alheia. interpretação de texto é uma coisa diferente do real significado das palavras. inclusive, inclui muitas outras variáveis, como a própria história de vida, medos e traumas. cabe aqui uma passagem do filósofo André Comte-Sponville, ao dizer que jesus falou o contrário de todo esse discurso de ódio, só pra constar: "porque conhece afinal nossa solidão, nossa miséria, nosso desespero, porque está do lado dos fracos e das vítimas, definitivamente, porque é o único deus trágico, aquele que sofre, aquele que morre, aquele que não é um deus, porque descobre que o amor jamais salvou ninguém, e que, contudo, é a única salvação que se possa humanamente desejar".

por isso, por essas e por esses que já estão cansados de tanta violência, parem. por favor, por amor, apenas parem. obrigada.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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