Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

é preciso aprender a falhar.

Talvez viver seja a busca, e sempre a busca, deste estado de equilíbrio, mas não se conquista o equilíbrio em cima de uma montanha no Tibet ou em uma casa no campo em Valinhos. O equilíbrio está aqui, no caos em que me encontro. O equilíbrio está em fazer o que está ao meu alcance, o equilíbrio está na vírgula que me permito usar, em meio a essa verborragia insana que de vez em quando é a vida.


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Gilberto Gil disse que "é preciso aprender a ser só", afinal, "é tanta coisa pra gente saber, o que cantar, como andar, onde ir, o que dizer, o que calar, a quem querer". É. Mas, também, é preciso aprender a falhar. Portanto, dedido este texto às falhas.

Temos toda essa pressão social e masoquista, porque nos dói nos ossos, de ser tudo em uma coisa só: cabeça, tronco e membros prontos e sempre preparados pro que der e vier. Há que se viver, mas só viver não basta. É preciso também ser alguma coisa, estudar, trabalhar, namorar, casar, ter filhos, ser um cidadão em ordem, pagar as contas em ordem, andar na faixa de pedestres, praticar exercícios físicos, ter amigos, ser amigo, ser bacana, não ter olheiras. E nos exigem (nós nos exigimos) executar tais tarefas com excelência. Mais ou menos não, perfeitamente. Se saímos da linha, se faltamos a academia, se não queremos ir trabalhar, se nos custa energia mental estudar, nos sentimos mal, muito mal. Por que diacho eu não executo tudo tão bem? Por que eu não consigo manter a rotina sob controle, meus humores e hormônios sob controle, por que não consigo não deixar a louça acumular na pia? As perguntas sempre se referem às coisas que não conseguimos realizar, porque, supostamente, deveríamos estar dando conta de tudo.

E por que não conseguimos?

Simplesmente porque não dá. É simples, e por ser simples, é tão difícil. "Não dá pra ganhar todas", ouvi, certa vez, de uma pessoa que se esforça e faz (quase) tudo muito bem. Não "ganhamos todas" porque somos humanos, não máquinas. E é qualidade humana falhar, faltar. Mas dá pra jogar, tentar, driblar os buracos que nos sondam, a desonestidade que nos distancia de nós mesmos, o pequeno furto aos nossos prazeres diários.

Até mesmo para escrever esse texto, fiquei me perguntando sobre o que deveria falar, qual assunto eu deveria abordar, sobre o que as pessoas gostariam de ler. E me vieram toneladas de pensamentos, de frases de efeito, de afeto, assuntos, mil coisas, meus problemas, minhas questões. Me vi rodeada de ideias, sem saber escolher alguma, porque todas diziam respeito ao caos da vida e também ao imperativo de escrever algo com excelência. Política, finanças, humanidades, resenhas de filmes, qualquer coisa que seja, é preciso escrever perfeitamente, porque é preciso ser excelente. Mas não sou, não somos.

Resolvi, então, jogar meus pensamentos desorganizados neste bloco branco e ir organizando aos poucos. Sobre o que consigo fal(h)ar hoje? Só daquilo que está ao meu alcance, e hoje está ao meu alcance a minha incapacidade de alcançar tudo. Não posso, não consigo e talvez não queira. Pensando se somos capazes de ser mais do que mais ou menos algumas coisas, me pergunto: somos capazes de conviver com as nossas contínuas falhas?

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Sendo humanos, falhando e gerundiando mais do que a gramática suporta, é possível ser exemplar em tudo? Chego à conclusão de que somos exemplares em quase tudo, ou seja, somos pessoas "mais ou menos". Mais em algumas coisas, menos em outras. Não significa que não nos esforçamos, que não damos o nosso melhor, que esperamos sucessos e conquistas caírem das árvores. Significa que somos humanos.

Sendo humanos, nos cansamos. Uma vez cansados, e sempre cansados de nossa humanidade que só usa 10% de sua capacidade cerebral, não dá pra executar tudo de forma magnífica.

Às vezes são justamente nestes momentos de hiato que a vida acontece. São fases. Em algumas delas produzimos de maneira exemplar, tiramos 10, somos 10, temos algumas notas de 10 na carteira; em outras, somos silêncio, vazio, caos. Precisamos não fazer nada, não produzir nada, repensar tudo, questionar se deveríamos ter aceitado a proposta do chefe em 1998, terminado aquele relacionamento em 2005, nos esforçado mais em 2014. E assim segue a vida, nestes altos, nestes baixos, quase nunca em uma constante. Talvez viver seja a busca, e sempre a busca, deste estado de equilíbrio, mas não se conquista o equilíbrio em cima de uma montanha no Tibet ou em uma casa no campo em Valinhos. O equilíbrio está aqui, no caos em que me encontro. O equilíbrio está em fazer o que está ao meu alcance, o equilíbrio está na vírgula que me permito usar, em meio a essa verborragia insana que de vez em quando é a vida.

Tendo me reconhecido no erro, dediquei a ele, mestre dos aprendizados, um poema:

[a gente gosta

é de errar

mas de errar bonito,

errar gostoso,

aquele erro

que no dia seguinte

permanece errado

andando torto,

brilhante como um dente de ouro

na boca do bandido.

o que a gente precisa aprender

é a dar a vez

pra um erro novo nascer

talvez a vida seja

uma sucessão de acertos errados

e de erros

acertados

sempre destinados

a nos ensinar

a errar cada vez melhor]

No que é possível falhar hoje? Como lidaremos com nossos deslizes, tão próprios de nossa condição? Só falhando pra saber. Então, em nome da humanidade que nos foi concedida e pelos poderes que os erros têm de nos fazer acertar, bendita seja a nossa falha, amém.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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