Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

aperta que cabe

Quando eu era pequena (e nem tão pequena assim), às vezes me lançava na tarefa difícil de montar quebra-cabeça. Depois de um tempo ali, parada na frente das peças sem conseguir encaixar nenhuma, eu forçava uma pecinha na outra. Ali, bem na borda. Ali, onde ninguém vai ver. "Shhhh, pronto, deu super certo, até parece que essa peça foi feita pra ser encaixada exatamente aqui."

No quebra cabeça até dá. Mas e na vida?


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Chega um momento da nossa vida, seja aos 20, aos 27 ou aos 62, em que sabemos bem quem somos. É claro que isso irá mudar mais quatrocentas mil vezes (eu mesma, às vezes, me descubro outra e me readapto a mim mesma umas três vezes ao dia, em períodos críticos), é claro que nunca estamos prontos, "viver é etecetera", disse nosso grande sertão Guimarães. Mesmo assim, chega um momento em que sabemos. "Eu sou eu, nicuri é o diabo", eu sou eu, sei bem onde estão meus pés, quais sapatos usarei e para onde vou encaminhar meus passos. Dói, como dói a dor de um parto normal, como tudo que é rebento, como tudo o que é desejar.

"Desejo é onde nossos pés nos levam": Apesar de ter demorado a entender, nunca mais me esqueci desta frase que ouvi. Achava que desejar fosse algo grandioso, que eu ia estufar o peito e enquanto eu andasse, uma música, provavelmente do Bob Dylan, tocaria como trilha sonora, e meus pés me levariam para um lugar bonito, com o sol brilhando na minha cara. Achei que eu me sentiria leve ao proclamar a voz do(s) meu(s) desejo(s). Bem, quase isso.

Desejar é doído. Encaminhar nossos pés pelo caminho afora é sinal de que ali, onde estamos, não está bacana. Tem sofrimento, incômodo. Tem uma coceirinha chata bem no meio das costas justamente onde eu não consigo alcançar. Ai. Lá vem mais uma da vida. Pois é. Lá vem mais uma. Lá vem mais um bonde chamado desejo. Então, quando nos movemos em direção ao que desejamos, carregamos dentro da nossa mochila o peso incrível do vazio por não caber mais onde estávamos. Porque quando descobre-se que não se cabe mais, é porque descobrimos que algo nos falta. Falta um pedaço, falta algo, alguém, uma coisa, uma coisa que não tem nome, e nesse vazio fica sempre um vento soprando, constantemente, que esfria a nossa espinha. Bem, é aí que começamos a nos movimentar. Vestimos o casaco, calçamos os sapatos e saímos. Em busca de. Aqui temos uma maneira poética de falar sobre o desejo. Este que sempre, sempre denuncia uma falta. Uma falha.

Começamos a seguir (Bob Dylan pode até estar tocando ao fundo), e de repente nos deparamos com algo, alguma coisa, alguém, que parece caber tão bem ali naquele buraquinho onde bate o vento frio. Como aquela roupa que avistamos na vitrine e, ao experimentá-la não serve tão bem, não cai como luva; quando tentamos encaixar qualquer algo, coisa ou alguém nesse buraco, até que vai. Damos até uma voltinha no espelho "Ah, mas veja, até que não ficou tão mal assim". E daqui um tempo "Olha, até que ficou bom!", e mais tarde "Puxa, eu não poderia ter encontrado algo melhor pra mim". O famoso "aperta que cabe". Quando eu era pequena (e nem tão pequena assim), às vezes me lançava na tarefa difícil de montar quebra-cabeça. Depois de um tempo ali, parada na frente das peças sem conseguir encaixar nenhuma, eu forçava uma pecinha na outra. Ali, bem na borda. Ali, onde ninguém vai ver. "Shhhh, pronto, deu super certo, até parece que essa peça foi feita pra ser encaixada aqui." Não demorava muito pra eu receber um olhar de reprovação do meu irmão (quem geralmente era o mentor do quebra-cabeça). Ele tirava a peça forçada do não-lugar e encaixava a peça certa. Sem esforço, sem forçar.

Eu cresci, e nunca fez tanto sentido lembrar disso para falar sobre o que é desejar. Descubro a cada dia que assim deve ser aquilo que buscamos, aquilo que representa alimento para a nossa alma: difícil de encontrar, e ao mesmo tempo tão mais fácil quando finalmente achamos a peça certa.

Descubro que o famoso "aperta que cabe" só vale para número de pessoas dentro do carro, dentro da boate e na mesa do almoço de natal da família. Só serve para lugares físicos em que, literalmente, basta apertar pra caber. Em situações simbólicas, apertar pra caber é sinônimo de perigo. "Aperta que você cabe nesse relacionamento aí. Ele não é exatamente o que você procura, mas até que você se diverte com ele, até que você parece feliz", "aperta que você cabe nesse emprego aí, afinal de contas você precisa do dinheiro, você precisa terminar de pagar as parcelas da viagem, você precisa de status, você precisa de ZzzzzZZZzzZ..."

Qual parte nossa fica de fora quando aplicamos o "aperta que cabe"? Esta parte é vital? E se não for, dá pra viver sem o dedo mínimo?

Raul Seixas parece ter entendido essa artimanha do desejo e a crueldade imbricada em atender ao desejo de um outro em vez de dar passagem ao nosso. Raul nos deu de presente a música "sapato 36", e a gente nem precisou pagar a sessão.

Eu calço é 37

Meu pai me dá 36

Dói, mas no dia seguinte

Aperto meu pé outra vez

Eu aperto meu pé outra vez

Pai eu já tô crescidinho

Pague pra ver, que eu aposto

Vou escolher meu sapato

E andar do jeito que eu gosto

E andar do jeito que eu gosto

Por que cargas d'água

Você acha que tem o direito

De afogar tudo aquilo que eu

Sinto em meu peito

Você só vai ter o respeito que quer

Na realidade

No dia em que você souber respeitar

A minha vontade

Meu pai

Meu pai

A metáfora do sapato é muito cabível. Porque o desejo do outro é do outro, e sendo do outro, quando a gente tenta "calçá-lo", aperta. Por que é que tenho que me decepar pra caber dentro do que quer que seja? Por que comprar uma roupa tamanho P se eu uso G? Por que eu tenho que deixar de fora partes que me são essenciais?

Não, isso não é fazer birra, não é não sair da zona de conforto, não é capricho. Apesar de ser uma linha tênue, muito tênue, que separa uma coisa da outra. Ser coerente com o próprio desejo (seja lá qual for) é um ato de amor e respeito a nós mesmos.

É doído, é difícil, mas a "peça" encaixa fácil, sem forçar, quando é a peça certa. Talvez o trabalho de uma vida toda seja o de montar esse quebra-cabeça de 10.000 peças, todas em tons de cinza, que a própria vida nos entrega.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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