Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

o poeta é um eterno insatisfeito

Não tentem definir o poeta.


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O poeta é um eterno insatisfeito. Não encontra, nas palavras dos outros, aquilo que expressa a sua verdade, a sua cólera ou agonia. Por isso, o poeta faz palavras com as próprias mãos. Não há, ainda, para o poeta, palavra suficiente no mundo. Por isso ele as cria e recria. O poeta tira as palavras de um estado de latência e as traz de volta para o centro do seu ser, para encontrar um sentido.

O poeta tem cinco dedos no pé, nenhuma pedra nas mãos. O poeta não sabe se defender da palavra.

O poeta segura a palavra pela lâmina. Se corta e se remenda no despertar do curto espaço de tempo entre o sentimento e a realidade. O poeta se desfaz em palavras e se refaz com as mesmas palavras que outrora atirou no lixo.

O poeta está sempre com o estômago roncando. Mastiga os papeis em que escreve, digere o mundo inteiro que não coube no verso e defeca palavras ásperas, palavras de desapontamento, palavras que a vida dá todos os dias, com seus normais percalços. O poeta traça o próprio caminho porque não suporta a ignomínia de outro alguém colocar palavras em sua boca e, apesar de lê-las, não fazem total sentido porque não são dele. O poeta é um profundo egoísta, vendo por este lado.

Mas, o poeta é também alguém com enorme coração. Distribui ao mundo, sem muito pudor, suas vísceras, cheias de anseio por algo que seja diferente da mesmice, por algo que aquiete os milésimos. O poeta é tudo e nada. É compositor barroco e é também a puta na esquina escura, com o esmalte velho, as unhas roídas, o dinheiro amassado dentro do sutiã. O poeta tem medo de ser roubado pela rotina, de ser engolido pela falta de sentido. O poeta é algo que jamais se viu e é o que mais se vê, em tempos como os de agora. O poeta é uma palavra que rima com qualquer coisa e que não rima com nada. O poeta é difícil e é fácil. O poeta é e não é.

Não tentem definir o poeta. Não elogiem o poeta. Não esqueçam o poeta. Comprem os livros do poeta. Paguem cervejas ao poeta. Deem risada com o poeta. Ajudem o poeta. Não achem que o poeta é um louco, abstrato feito pintura do Miró, onde apenas vislumbres humanos podem ser vistos. O poeta é colorido, é cinza, é preto, branco, é o espectro de espelhos. É o dark side of the moon. O poeta é física quântica e é leite apodrecido. O poeta é a fruta mofada esquecida na fruteira. O poeta é a caixa de suco integral que custa dez reais. O poeta é o caviar na boca dos velhos ricos e burros. O poeta é rico. O poeta é pobre. Mas não é contradição. Repare bem.

O poeta é simples, come sem guardanapo, não sabe se começa pelos talheres de dentro pra fora ou vice-versa. O poeta vira amigo do garçom, do mendigo, da empregada. O poeta é a escória. O poeta gosta de árvore, mato, água, planta, café, gato, silêncio e barulho. O poeta gosta de segunda-feira, terça sexta e domingo. O poeta gosta de ficar olhando as coisas serem coisas, insípidas, infinitas por um segundo. O poeta gosta de ônibus, de andar a pé; mas deem carona para o poeta. O poeta não lê camões. O poeta é o objeto indireto jogado no mundo, à procura de. O poeta detesta bons modos, mas não abre a geladeira em casa alheia. O poeta não tem mãe. O poeta é órfão de insensibilidade, condenado a ser tolo. O poeta não sabe dizer as coisas. O poeta não sabe a medida das coisas. O poeta erra a receita. O poeta erra.

O poeta tem duas pernas, mas também tem asas. E não voa. O poeta só voa enquanto escreve. Quando a poesia acaba, ele desaba. Cai no chão feito fruto maduro. Que ninguém vê e pisa. Que ninguém vê e por isso não come.

Salvem o poeta, ele está se afogando. Mas ele não quer uma boia. Ele quer uma palavra, aquela palavra. Ele quer paixão, ele quer amor, ele quer comer, beber, ele quer nascer mil vezes. O poeta precisa pagar a conta de luz vencida. O poeta não sabe lidar com a realidade. O poeta tem um problema com a realidade. O poeta tem déficit de atenção, ele só consegue se concentrar em linhas curtas. O poeta se apega às prosas que passam rápido feito os dias. O poeta admira os que nunca precisaram escrever uma só linha para esboçar um relance de felicidade ou júbilo. O poeta inveja os engenheiros. O poeta inveja o sapateiro, que nem se preocupa com as palavras. O poeta amaldiçoa o dia em que aprendeu a ler. Mais ainda, o dia em que percebeu que não poderia viver sem escrever. Um só dia. Este foi o dia de sua condenação.

Mas este também foi o dia de maior alegria na vida do poeta: o dia em que escreveu. E não há um só dia em que não escreva que faça sentido para o poeta. Não há um só dia em que o poeta não anseie chegar, pra ver qual é a palvra que vai parir. Quando o poeta for se deitar e pensar 'amanhã não quero me levantar', mandem-o à poesia que o pariu.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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