Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

a dádiva da dúvida

Se não deixarmos espaço vazio entre a dúvida e o passo, o desejo não surge; porque ele nasce justamente de onde falta. É uma questão de física (que, aliás, se eu pude entender, qualquer um pode).


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Por algum tempo praguejei a dúvida. Queria ter certeza. Escutei, dia desses, que o problema estaria em ter certeza, uma vez que a dúvida me faria questionar. Doeu, mas decidi pegar a dúvida e, a partir de então, carregá-la a tiracolo.

Não saber é um tipo de dádiva. Não saber é quase uma certeza. E é justamente no quase que o desejo pode nascer: o próximo passo, o passo de fato. É uma questão de física: se não deixamos espaço vazio entre a dúvida e o passo, o desejo não surge; porque ele nasce justamente de onde falta.

Estamos tão acostumados a saber da hora, do outro, de tudo. "Eu sei o que eu quero". "Eu sei pra onde estou indo". "Eu sei qual é o rumo que minha vida está tomando". "Eu sei pra onde esse relacionamento vai me levar". "Eu sei o que estou sentindo". "Eu sei, eu sei, eu sei". "Eu, eu, eu".

E se a gente arriscasse o não sei ? Por uma vez, uma única vez, que seja: Eu não faço a mínima ideia do que estou fazendo. Eu não tenho a menor noção do que está acontecendo. Eu não sei porquê diabos faço isso. Eu não sei se quero. Eu não sei.

(Que susto. Por um momento achei que não soubesse)

A dúvida causa espanto. De tão acostumados a saber, esquecemos de duvidar. Esquecemos que o problema pode estar na certeza. Onde ela está escrita, afinal? No medo de questionar? A dúvida paira. Flana. A dúvida repousa no meu ombro. É a certeza que me pesa as costas.

Na dúvida existe uma benção, a dúvida tem português simples (o que mais gosto). Na dúvida mora eu. Na dú-vida mora vida.

Mas precisamos saber. Prever. O próximo tsunami, a próxima queda da bolsa de valores, o próximo filho. No caso da ciência, o mais interessante é que o que faz com que a ela exista é a pergunta, ou seja, a dúvida. No caso da natureza, há uma espera, um estado de latência, sem ser inerte. Por que, afinal, distorcemos tudo? Como há um imperativo do saber, quando não sabemos (e a certeza da dúvida se torna insuportável), fingimos saber. E fingimos tão bem que nos esquecemos da verdade. O que era mesmo que eu estava procurando? Perdeu-se. Ao escolher a certeza, se engana quem acha que perde. Na certeza se ganha: certeza. É na dúvida que se perde. Se perde a possibilidade de saber, ou de fingir saber; se perde o egocentrismo. Se perde o outro, pois se não sei de mim, que dirá de um outro! Duvidar é perder. E perder é para os fortes.

Eu não sabia perder. Era inadmissível encarar a vida sem saber. Por isso, eu sempre sabia. "Vai ser assim". "É isso, eu sei que é".

Hoje, tenho pavor dos completos destemidos. Os destemidos têm certezas. Alguns destemidos me soam covardes, porque não expõem seus medos. O destemido completo está mais pra vazio do que cheio. Deus me livre.

A dúvida me libertou às quatro da tarde. Assustou aos corajosos. Desculpem, é que eu não sei. E talvez esteja aprendendo a conviver com o não-saber. Até que estamos nos dando bem, apesar da minha cabeça-dura.

A dúvida me ensinou o óbvio, a muito custo.

Não estou falando em não ter certeza alguma. Não estou sendo radical. É um pequeno, e duvidoso, ponto de vista sobre a maneira de fazer minhas (suas, nossas) escolhas. É bom ter certezas, de vez em quando. Pra ter alguma esperança de continuar acordando às seis. Ir dormir às onze. Chegar no compromisso às oito. Estar no trabalho às nove. Mas tudo começa na dúvida. Deus fez o mundo em 7 dias e eu não faço a mínima ideia do que vai ser de mim nas próximas cinco horas.

De onde vem esse peito cheio de si? De onde vem essa noção do que é certo? A certeza é, em alguns casos, delirante.

A dúvida é abençoada porque nos faz questionar. É simples. É incômodo, por isso vivemos a era dos que sabem. Porque a dúvida faz surgir questão. Faz brotar, por fim - do fundo da alma - a certeza, tão igualmente abençoada.

Entretanto, antes da resposta, vem a pergunta. E tolerar a espera em tempos de impaciência é dádiva. Duvidar é um ato de ousadia. É revolucionário. Duvidar é ter coragem para escutar a resposta que eu (ainda) não sei. Duvidar é ter coragem, apesar de tentarem nos convencer do contrário.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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