Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

alegria difícil

Em algum momento, introjetamos mal máximas como “Tristeza não tem fim, felicidade sim” e “A felicidade não é deste mundo”, e nos privamos de tudo que nos arranca a dor. Parece que a alegria dispara algum mecanismo de luta-e-fuga, que, instintivamente, faz todo nosso sangue ser enviado às pernas: tudo o que queremos fazer é sair correndo.


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É difícil aceitar a felicidade. A alegria. O contentamento consigo mesmo. Se orgulhar das próprias conquistas, dos “eu dei conta”. A gente está acostumado a sentir falta: de algo, de alguém, de uma coisa. O “serei feliz quando...” quase nunca é trocado por “sou feliz porque tenho/sou...”.

Mas às vezes o que a gente sente não é falta. Às vezes o que a gente sente é cheio. Mesmo assim, quando a felicidade chega sorrateira e dá três suaves batidas na porta da frente, a gente tem dificuldade de abrir. De transbordar. Como se a alegria fosse uma coisa da qual deveríamos desconfiar, olhamos para os lados levando no rosto uma expressão ressabiada, pra checar se é pra nós mesmos que ela está acenando.

A vida é boa, e não pode ser diferente disso. É boa na medida em que nos coloca em contato com os sentimentos negativos, com a tristeza, os cacos de nós mesmos e com a falta de alguma coisa. A felicidade não está apenas em sorrir feito um bobo alegre. Está também nas pequenas-grandes coisas, que demoramos a conquistar, como aprender a aceitar elogios e a nos vangloriar, sem falsas modéstias. Sem ser arrogante, dizer “sim, eu mereço”. Se orgulhar, apenas: por pequeninos feitos, como ter sorrido numa segunda-feira cinzenta ou por ter levado a cabo aquela ideia empreendedora; e também pelos grandiosos, como ter publicado um livro e conseguido o emprego. Por mais que ainda faça falta o amor, a presença física de alguns e alguns trocados, ainda que as coisas não estejam como a gente quer (porque quase nunca estarão, e este é justamente o ofício da vida), é preciso aprender a felicidade. Apreendê-la. No fim de 2015, me perguntei bastante: “o que estou sentindo?”, e a resposta não vinha. Nesta época, eu era tomada por uma série de pensamentos que vinham feito enxurrada: “coisas que não fiz em 2015”. Eram muitas. Até que me lembrei de pequenos e revigorantes momentos ao longo do ano que passou em que consegui sentir que a vida valia a pena. Coisas prazerosas que fui capaz de proporcionar a mim mesma. Bons encontros, bons cafés, boas risadas, bons filmes, boas músicas. De repente, descobri: "o meu problema era felicidade"*. Comigo, com as minhas conquistas, com tudo o que tinha e com tudo o que me fazia falta. E que bom que falta, porque é na falta que posso ir em busca do outro e me abrir ao encontro, e são esses encontros que revigoram a alma. Como uma mãe que descobre o motivo do choro do bebê e finalmente consegue interrompê-lo, comecei a chorar. De alegria. Não me lembrava da última vez em que havia feito isso.

Mais ou menos nesse mesmo período, eu disse à minha analista que tinha a sensação boa (e estranha, ao mesmo tempo) de que estava me desfazendo de "picuinhas", que estava finalmente podendo enxergar os outros como outros e, portanto, diferentes de mim. Disse que isso estava me proporcionando uma liberdade bonita, apesar de solitária. Ela me devolveu tudo mastigado, porque já era hora de eu escutar: "Manuela, você está se desapegando da dor, finalmente". No meio da risada que soltei por estar estupefata com essa constatação, chorei. Era possível continuar sendo exatamente a mesma e sentindo as dores do mundo, escrevendo poesia e reclamando sempre que as coisas não estivessem do jeito que eu queria e, ainda assim, me sentir feliz. Era possível segurar a tristeza com uma das mãos e, na outra, a alegria. Pesadíssima esta última, diga-se de passagem. Foi difícil equilibrar as duas e seguir andando. Isso me fez lembrar de um trecho da música do grande Luiz Tatit, "Felicidade"*.

Não sei porque eu tô tão feliz

E já nem sei se é necessário ter um bom motivo

A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo

Enfim, eu já tentei de tudo, enfim eu quis ser consequente

Mas desisti, vou ser feliz pra sempre.

A vida é boa. Estamos vivos. Temos potências de ser sempre mais do que somos. Podemos nos transgredir. We can be heroes, como disse Bowie. É que disfarçamos nossos super poderes. O super poder de acordar assim que o despertador toca e ir trabalhar, de cozinhar, de se relacionar, de ser.

A tristeza, às vezes, não precisa de um bom motivo. "Sei lá, eu só estou triste", e pronto. Basta. Fecham-se as portas, abre-se o pranto (necessário, em alguns momentos). Com a alegria é diferente: "Diacho, por que será que estou tão feliz? Não aconteceu nada!". Pobre alegria, relegada ao descrédito, nunca parece ser crível. “Parece que algo de muito ruim vai acontecer, está tudo muito bom pra ser verdade”. Temos medo das coisas darem certo. Medo de ser feliz. Já ouviram coisa mais esquisita? Como é possível ter medo de uma coisa boa? Não deveria ser o contrário? Em algum momento, introjetamos mal máximas como “Tristeza não tem fim, felicidade sim” e “A felicidade não é deste mundo”, e nos privamos de senti-la. Parece que a alegria dispara algum mecanismo de luta-e-fuga, que nos faz temer. Instintivamente, todo nosso sangue é enviado às pernas e tudo o que queremos fazer é sair correndo.

Por isso, penso que talvez estejamos mais familiarizados com a tristeza do que com a alegria, uma vez que sabemos muito sobre a primeira (há motivos de sobra para estar triste, não é mesmo?). Trata-se, portanto, de abrir a porta, com toda a cafonice que isso exige, para a felicidade. Tenho pra mim que se devotássemos à felicidade o mesmo empenho que devotamos à tristeza, o mundo seria um lugar melhor.

Clarice Lispector escreve, em seu livro "A paixão segundo G.H.": Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria feliz se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.

Com este trecho quero deixar claro que não se trata de negar a tristeza, deixando-a engavetada, mas justamente de arejá-la. A dificuldade em ser feliz é diretamente proporcional à dificuldade de se desapegar da tristeza. O que virá depois?, questionamos aterrorizados. Mas o fato é que a felicidade "nada tira nada de ninguém".

Talvez a alegria seja difícil e desafiadora porque nos coloca em contato com as nossas conquistas. Com os nossos sonhos que vingaram. E isto é, também, parte de quem somos.

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Que em 2016 possamos nos adornar de sorrisos fáceis (talvez diários, quem sabe), investir em relações menos catastróficas, reconhecer que temos muito mais poder do que imaginamos. Em meio a tantas dores difíceis de digerir, experimentar a felicidade talvez seja o grande desafio. Em meio às pedras do caminho, flor-escer talvez seja a tarefa mais difícil.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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