Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

Boyhood e a maravilha das mesmices

Boyhood é um filme para olhos sensíveis. Boyhood é um filme sobre despertar. É sobre a batalha de permanecer vivo e continuar amadurecendo; é sobre continuar “apesar de”.


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O filme Boyhood (2014) demorou 12 anos para ficar pronto. O diretor Richard Linklater reunia a equipe todo ano, desde 2002, e assim o filme foi sendo filmado. Quando fiquei sabendo desse detalhe (que é grandiosíssimo, diga-se de passagem), fiquei curiosa para assistir, mas só depois das quase quatro horas em frente à televisão, lágrimas nos olhos e mil coisas passando pela cabeça foi que entendi do que se tratava.

Boyhood me fez sentir, por um tempo maior do que normalmente a rotina permite, um “sentimento de mundo”, este que nos faz contemplar a vida como ela é: cheia de momentos que marcam, mas que passam. Assistir Boyhood foi ter uma parte da minha própria vida traduzida num filme. Ninguém precisa ter passado por todas as experiências do protagonista, mas, sem sombra de dúvida, quem assiste ao filme se identifica com vários sentimentos do jovem Mason. Boyhood é um filme para olhos sensíveis. Boyhood é um filme sobre despertar, apesar da monotonia despretensiosa que algumas cenas inspiram. É sobre a batalha de permanecer vivo e continuar amadurecendo; é sobre continuar “apesar de”. Boyhood é sobre sobreviver. É sobre constatar como os pequenos - e grandes - fatos da nossa vida influenciam nossas decisões, nossas escolhas amorosas, nossa maneira particular de enxergar esse mundo tão vasto e, por vezes, sufocante. Boyhood é sobre perguntas que não se respondem de um momento pro outro, e por isso se aproxima tanto da vida - dessa vida, que eu e você levamos. Porque é real.

A trilha sonora aliada aos detalhes da trama, como os olhares observadores do protagonista, suas percepções sobre o mundo e os pequenos-reveladores diálogos, fizeram de Boyhood um do meus filmes prediletos.

Uma das coisas que me passou pela cabeça quase no final do filme é que a maioria das pessoas tem uma enorme demanda, e ela diz respeito à vida. Estamos sempre esperando que a vida seja melhor do que é, que o trabalho seja menos monótono, que as pessoas nos surpreendam, que seja possível encontrar o verdadeiro amor na fila da lotérica. O filme me fez enxergar as maravilhosas mesmices, quase frívolas, que já vivi: sorrisos trocados com desconhecidos na rua; o dia em que tive o descuido de esquecer o guarda-chuva e a tempestade começou quando cheguei ao trabalho; a quantidade de amores que vivi (dentro da minha cabeça) nas filas das lotéricas, dos supermercados e no metrô; as belezas que experimentei, caminhando por cidades que visitei e tendo a oportunidade de ir a shows incríveis; os olhares desatentos que me inspiraram poesias, as conversas sinceras que me deram vida.

Boyhood, mal sabe ele, me inspirou: a viver essa mesmice nossa de cada dia. Porque nada é sempre a mesma coisa, apesar dos ciclos. Apesar dos “ter que”, apesar das segundas-feiras e das missas de sétimo dia. A vida é isso, e é bela justamente por ser isso. Não suportaríamos se fosse diferente. Não seríamos nós mesmos. Aqui, no Paquistão ou observando o pôr-do-sol no Arpoador haverão rotinas e mesmices. Ao mesmo tempo, se mantermos os olhos bem abertos, observando as coisas no ritmo do coração, pequenas maravilhas contidas nessas mesmices farão a vida ganhar mais sentido.

Boyhood não oferece cenas orgásticas, que conferem resposta pra tudo. Não surpreende, no sentido trivial do termo. Eu diria que o filme é uma espécie de treino para os nossos olhos cansados no espelho (ou diante do guarda-roupa, todos os dias às 7 da manhã, quando nos vestimos para ir trabalhar, enquanto o café esfria em cima da mesa, junto ao boleto do IPTU). É neste sentido que o filme se faz surpreendente. O diretor conseguiu captar as coisas de uma maneira “post-scriptum”, exatamente como acontece na vida. “Se eu fizesse faculdade com a cabeça que tenho hoje, teria aproveitado muito mais”. “Se eu tivesse me casado com a maturidade que tenho hoje, teria feito diferente”, e assim por diante, da maneira como queiram completar. Quantas vezes não dissemos isso? Irrelevante. A vida continua sendo essa sucessão de dias, em que aprendemos, não na chegada ou na partida, mas durante. As melhores e maiores coisas, as que conferem sentido à nossa existência, só fazem sentido depois. E é justamente nisso que Boyhood nos surpreende: onde nos esquecemos de olhar.

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Depositamos expectativas violentamente holywoodianas aos nossos dias e perdemos milhares de finais felizes, enredos belíssimos e a própria trilha sonora. Boyhood é magnífico por ser simples, complexo por ser comum, fantástico por ser real. Uma experiência que todos deveriam viver. Ensina que a vida é um biscoito da sorte, do qual demandamos respostas para as nossas angústias - que nem sequer têm nome - mas que geralmente vem com uma mensagem que só faz sentido tempos depois.

Mas a graça de tudo

está no agora.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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