Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

A suportável leveza de Ser

Tudo o que tenho coube em uma mala, e por isso consigo partir de repente. Carrego os pesos mais leves do mundo. Ter uma bagagem leve pode parecer contradição, mas é "só" estória costurada, que agora tem o tamanho exato do que cabe a mim.


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“Cada um de nós tem o seu cemitério particular, e nem todas as sepulturas têm lápide” (Margareth Little).

Como um corpo que se descobre vivo e precisa tirar de dentro de si o que sente para que não inunde, resolvi escrever. Porque escrever é tentar entender aquilo que ainda não entendo. Porque vejo como sofremos por viver sendo réus da nossa própria história.

Apesar disso, sei que não posso falar a não ser por mim mesma e, olhe lá!, me exponho. Foram inúmeras - porque no inconsciente não se conta como se faz conta ou como se faz-de-conta - experiências vivenciadas em análise em que pude contar e recontar minha própria história, e todas, de alguma forma, me fizeram constatar, de maneira bonita e dolorida (e já não sei mais se acredito em uma coisa sem a existência da outra) que viver se trata de um imenso contar estórias.

Hoje tenho a certeza, viva porque pulsa em formato de vida, de que contar a própria história é trabalho dos mais importantes que podemos fazer por nós mesmos. Conta-se a própria história porque de estórias somos feitos, com vírgulas e demais pontuações necessárias ao ofício de saber quem se é. Não serei ingênua em dizer que a história acaba aí (quando já se sabe quem se é), mas é quando o mais importante tem início: poder viver sendo quem se é. E neste ponto está, para mim, o mais belo que uma análise pode proporcionar.

No fundo, o analista é um grande escutador de estórias. Alguém que nos ajuda alguém a escrever, editar e reler fragmentos já esquecidos. A oportunidade de re-escrever nos dá a capacidade de poder criar, a cada instante, novas maneiras de Ser. É um tesouro inigualável que está em nossas mãos: "basta" que tenhamos a coragem de pegar lápis e papel e, não sem dor, começar a re-escrever. Ainda que pareça sem sentido, difícil ou sem importância. Cada ser humano tem o direito de portar uma história, seja para contar aos filhos, parceiros(as) ou a si mesmo. Talvez a grande tarefa de estar vivo verse sobre isso: escrever, ainda que sem rimas.

Adélia Prado, em seu poema chamado “Limites”, nos conta:

Uma noite me dei conta de que possuía uma história,

contínua, desde o meu nascimento indesligável de mim.

e de que era monótona com sua fieira de lábios, narizes,

modos de voz e gesto repetindo-se.

Até os dons, um certo comum apelo ao religioso

e que tudo pesava. E desejei ser outro.

Minha mãe não tinha letras.

Meu pai freqüentou um Ginásio por três dias

de proveitoso retiro espiritual.

Tive um mundo grandíssimo a explorar:

“demagogia, o que é mesmo que essa palavra é?”

Abismos de maravilha oferecidos em sermãos triunfantes:

“Tota pulchra est Maria!”

Só quadros religiosos nas paredes.

Só um lugar aonde ir

- e já existiam Nova Iorque, Roma!-

Tanta coisa eu julguei inventar,

minha vida e paixão,

minha própria morte,

esta tristeza endócrina resolvida a jaculatórias pungentes,

observações sobre o tempo. Aprendi a suspirar.

A poesia é tão triste!

O que é bonito enche os olhos de lágrimas.

Tenho tanta saudade dos meus mortos!

Estou tão feliz! À beira do ridículo

arde meu peito em brasas de paixão.

Vinte anos de menos, só seria mais jovem.

Nunca, mais amorável.

Já desejei ser outro.

Não desejo mais não.

Conhecer minha própria história me fez sentir amor, mas não à primeira vista. “Quando não tinha nada, eu quis / quando tudo era ausência, esperei”. Demorei para conseguir olhar o meu passado, “meus mortos, meus caminhos tortos” com um terno sentimento de gratidão. Hoje, como Adélia (com a licença para fazer uso de uma pitada de audácia ao me comparar com ela), não desejo ser outro não: com todas as contradições, dificuldades, alcances e limites que me cabem. Fim (do capítulo).

“Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo” (George Santayana).

Sei que embutido neste ofício de escavar o próprio tesouro existem perigos, riscos, dores intensas e muito vivas, que por vezes não podem ser reveladas. Sei disso através da minha experiência como analista, mas principalmente como paciente. Minha(s) analista(s) não foram apenas "escutadoras de estórias": foram também editoras suficientemente boas; costureiras que reformaram roupagens antigas e me ensinaram a vestir não o que está na "moda", mas aquilo que cabia a mim; guias para a caminhada dentro da noite escura do inconsciente.

Por isso, trago um olhar um pouco menos terrível e amendrontador desta experiência. Um olhar para que possamos encarar, com uma pitada de ânimo e bom humor, o espelho. Para que a gente aprenda a amar a própria história, exatamente como ela é. Porque, de qualquer modo, já não pode ser modificada, mas, sem dúvida pode ser re-contada, quantas vezes for necessário.

Viver não pode ser fardo, não sempre; por isso é urgente que deixemos de contar histórias pela metade e/ou repetidas, assinar livros que não possuem uma protagonista com o nosso nome e carregar bagagens que não nos cabem. O próprio peso é o único que podemos suportar.

Na viagem da vida, sempre apreciamos mais quando levamos apenas uma mochila nas costas: o caminhar se faz fluido, os olhos ficam livres para contemplar e as mãos soltas podem, enfim, segurar outras mãos. E tanto mais.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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