Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

a arte de se (des)equilibrar

Depois de um tempo, percebo que os momentos de angústia são necessários para que se chegue a algum lugar. Perder-se é extremamente necessário para que se possa encontrar. Quem se acha demais talvez fuja do abismo. Quem é bem resolvido demais talvez se defenda de olhar para os próprios medos. Porque dá medo olhar para os próprios monstros. Eles são horríveis, e têm exatamente a nossa cara.


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Eu, assim como Manoel de Barros e muitos outros por aí, "ando muito completo de vazios". Essa dicotomia da vida - do esquenta-esfria, amanhece-anoitece, faz chuva-faz sol, beija-não beija, etc. e tal - me pegou, e foi pra valer. A gente sabe que as coisas todas têm dois lados. A natureza está aí para provar isso todos os dias. Mas quem é que repara que temos metade do dia escuro e outra metade claro? Quem quer se equilibrar na corda bamba da vida? Quem? Bem, não se trata muito de querer, afinal, a vida não pede a nossa opinião pra tudo. A vida, que é "plissada, godê, franzida e curta", como disse Líria Porto, tem esse jeitinho de ser: boa e ruim. Legal e chata. Clara e escura.

Não dei conta de tamanha dicotomia, e feito cabo de guerra, esses dias precisei ceder. (In)felizmente o lado que caiu foi o da claridade. De repente, uma escuridão angustiosa tomou conta dos meus dias e, o clichê bonito do sol depois da tempestade ficou esquizofrênico, talvez por causa deste aquecimento global: depois da chuva veio mais chuva. Foi como se a sorte tivesse parado na esquina e pedido carona a um desconhecido. Os dias se transformaram em noite densa, funda, escura. E mesmo que a madrugada acabasse, o sol nascia forçado e decidia queimar a pele dos desavisados. Trocando em miúdos, passei dias mergulhada na mais perfeita e deliciosa merda. Nada como experimentar o limbo por alguns dias, não é mesmo? Pois bem. Acontece com todo mundo. Paciência.

Como vez ou outra preciso dar palavra aos sentimentos que não saem de outra forma, precisei escrever. Escrevendo, me dei conta de algumas coisas. Dos meus momentos de transição, únicos e intransferíveis. Das escolhas que preciso fazer, dos caminhos que preciso seguir. Me senti só e com um nó no peito. Fui tomada por um medo grande de não dar conta. De fracassar. De perder os motivos que até hoje me fizeram sorrir, seja por ver um pássaro pousado no poste ou uma árvore florida ou o sorriso de um velho. Morri de medo de perder a alegria, tamanha angústia que sentia. "Certas pessoas parecem separadas da angústia apenas pela pobreza de sua imaginação, como se fossem por demais tolas ou por demais inteligentes para ter medo. Invejo-as às vezes, mas erroneamente. A angústia faz parte de nossa vida. Abre-nos para o real, para o futuro, para a indistinta possibilidade de tudo", me tranquilizou André Comte-Sponville. Neste momento, abri os braços e corri pro abraço.

Comecei a pensar que se eu tinha medo de perder a alegria era porque ela estava ali, guardada em algum lugar, esperando a hora de entrar em cena. Atrás das cortinas, nos bastidores. Ainda não era hora dela proferir a sua fala. Calma aí, alegria. Agora é a vez da angústia. Enquanto ela durar, estarei tentando o equilíbrio na corda bamba de sombrinha.

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Depois de um tempo, percebo que os momentos de angústia são necessários para que se chegue a algum lugar. Perder-se é extremamente necessário para que se possa encontrar. Quem se acha demais talvez fuja do abismo. Quem é bem resolvido demais talvez se defenda de olhar para os próprios medos. Porque dá medo olhar para os próprios monstros. Eles são horríveis, e têm exatamente a nossa cara.

A segunda-feira é pesada porque existe o domingo preguiçoso. A sexta-feira é gostosa porque longos dias de intensidades capitalistas foram vividos anteriormente. O todo só faz sentido com as partes. O dia só nasce depois da noite, não tem como parir a manhã à fórceps. Legumes tratados com agrotóxicos causam câncer, mostrando que alguns processos não podem ser acelerados. Como certa vez conversei com dona Maria, feirante de quem compro bananas aos domingos: é um erro embrulhar o cacho de bananas no jornal, para que amadureçam com mais rapidez. A banana tem o tempo dela. Mas o humano é cheio de acelerar processos... até "psicoterapia breve" inventou. Como se dissesse "Vai, vamos logo com isso. o sofrimento tem data de partida". Só que não. Alguns processos precisam de tempo. Espera. São ciclos. Cada um com a sua beleza singular.

Olhar pra si é parte da vida. Da vida que são partes os precipícios que nos ajudam a enxergar o fundo de nós mesmos. Porque é preciso saber da profundidade de alguns buracos que nos habitam. Guimarães Rosa também sabia:

A vida é assim: esquenta e esfria,

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem...

Talvez estes momentos de aperto e inquietação sejam necessários para dar conta de todos os outros - de aforuxamento e belezas - que virão. Talvez a angústia seja justamente o que irá abrir a porta para um verdadeiro eu e/ou uma verdadeira vida. Quanto a mim, não restam dúvidas de que estou vivendo um momento crucial. Um momento de travessia. Será preciso realizá-la, para depois olhar pra trás e perceber que "não fiquei à margem de mim mesma". Comte-Sponville me reitera: "Não se trata de evitar, e sim de aceitar. Não de curar, e sim de atravessar".

Não sou católica, mas me lembrei deste trecho contido em Eclesiastes, que acho muito bonito e verdadeiro:

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

Há poucos dias, escutei de uma grande amiga que o tão almejado equilíbrio talvez seja algo inalcançável. Duvidei, de início, mas começo a vivenciar a veracidade da afirmação. Talvez seja sempre uma tentativa de. Tentamos voltar ao centro quando tombamos um pouco para a esquerda... reerguidos, logo bate um vento e tombamos para a direita. Centralizamo-nos novamente, até a próxima curva. O equilíbrio talvez seja essa eterna busca; puro movimento de estar vivo. Talvez seja justamente a busca que dê combustível para continuar tocando a vida e - quem sabe até - sonhando.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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