Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

Viver é bom?

A gente, esse poço de inconstâncias, dores, alegrias, mal entendidos.
A gente quer bolo de chocolate e come bolo de chocolate, a gente quer abraçar, vai e abraça. E aí sente aquela sensaçãozinha boa em estar vivo, a brisa fresca da tarde bate no rosto e... Na mesma medida, a gente odeia ir à academia mas vai, não simpatiza com aquele parente mas deseja um ano novo maravilhoso, faz promessa e não cumpre, come sete uvas, faz yoga e no dia seguinte tem vontade de cuspir na humanidade inteira. Isso significa que viver não é bom? Não. Significa que é? Também não. Porque viver é bom e não é, viver é tudo isso, ser humano é tudo isso.


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Esses dias me perguntaram se eu, "enquanto psicanalista", achava que viver era bom. Achei uma pergunta tão boa (e se não me engano foi a que Lispector fez a Hélio Pellegrino em uma entrevista) que tive receio de estragá-la ao tentar responder, assim como aqueles que colocam figo cristalizado no panetone.

Viver, assim como fazer análise, não é um troço bom. Mas acalmem-se, este não é um texto pessimista. É apenas uma comparação da vida com o processo analítico. Fazer análise é pagar pra ver uns demônios, olhar de frente pro espelho, com medo e sem máscaras. Depois de um tempo (sabe-se lá quanto), pode ser que tudo adquira uma leveza antes desconhecida, que na verdade vem porque a gente decide e trabalha para carregar o menor peso possível: menos ideais, menos projeções, menos narcisismo... Assim como a vida, que não é só boa ou só ruim, mas feita de paradoxos - matéria perecível & eterna, insignificante & magnífica -, a análise não é a vida toda, não é o todo, e sim apenas um jeito de procurar a (in)coerência em nós. UM dos jeitos. A psicanálise não é a totalidade, porque nada é, porque a palavra não dá conta de tudo, e nem quer dar. A retrospectiva do inconsciente não dá ibope, não vale um milhão de dólares. A vida não é um instante, “carpe diem” é ilusório, a semana recomeça e os boletos vencem, a dieta sai do prumo, ainda que seja por um bom motivo. “A gente - essas tristezas”, disse Guimarães Rosa. A gente, esse poço de inconstâncias, dores, alegrias, mal entendidos. Não somos um cartão de natal musical, e a vida é esse transtorno mental não catalogado.

Freud escreveu (não exatamente deste modo que irei dizer, é claro) que não existe uma fórmula geral para a felicidade que possa ser aplicada a todos, porque felicidade é uma questão de economia libidinal. Trocando em miúdos, a felicidade está ligada ao gasto / economia de energia psíquica que empenhamos em nós mesmos e no mundo. Talvez "Com o que / quem você dispensa energia?" seja uma boa pergunta pro balanço-íntimo geral antes de começar 2017.

Acredito que são as oscilações que produzem equilíbrio, que é a corda bamba que não nos deixa cair, e não o contrário. Talvez a análise sirva para que a gente tenha espaço e aprenda a abrir espaço em nós para falar. "Quem diz é são", disse Comte-Sponville. Por isso eu digo. Falar talvez seja a saída, falar "o que vem à cabeça", porque em algum momento pode ser que as falas perdidas e desconexas encontrem sentido, e então o sentido nos encontra e a vida fica mais prazerosa. A gente quer bolo de chocolate e come bolo de chocolate, a gente quer abraçar, vai e abraça. E aí sente aquela sensaçãozinha boa em estar vivo, a brisa fresca da tarde bate no rosto e... Na mesma medida, a gente odeia ir à academia mas vai, não simpatiza com aquele parente mas deseja um ano novo maravilhoso, faz promessa e não cumpre, come sete uvas, faz yoga e no dia seguinte tem vontade de cuspir na humanidade inteira. Isso significa que viver não é bom? Não. Significa que é? Também não. Porque viver é bom e não é, viver é tudo isso, ser humano é tudo isso. E é tão pouco. Talvez estar em paz com as próprias contradições e não ansiar pela nota "10" na avaliação imaginária que esperamos que o outro faça da gente seja uma das conquistas mais importantes de uma vida.

Viver é bom quando a gente pode estar próximo da verdade: essa, de v minúsculo... essa, pequenina, nossa. Como pérola que não reluz, mas é ouro. Viver é bom quando a gente consegue levar uma vida um pouco mais coerente com o próprio desejo. Viver é bom quando a gente pode escolher ter uma vida um pouco mais florida, risível, vivível, menos apegada aos sofrimentos. Viver é bom quando a gente falha, quando a gente fala da gente e de toda essa gente que mora dentro da gente. Não é tudo, tampouco é pouco. Não é maravilhoso, tampouco é ridículo. É apenas o que é, assim como a vida: sem mistérios, misticismos e ilusões, bonita logo ao acordar, com a cara amassada e sem maquiagem... e igualmente bonita quando se arruma pra sair e veste o look que parcelou em sete vezes no cartão mas só vai começar a pagar em março do ano que vem. Feliz ano novo.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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