Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

Vida: teste

A vida é curta demais para gastar tempo e energia montando esquemas neuróticos que nos afastam daquilo que diz respeito a uma verdade, que diz respeito ao desejo. A vida é curta demais para não reclamar do suco que veio com açúcar, mas também é grande demais para reclamar por qualquer coisa. Achar a medida certa é o andar na corda bamba dos aprendizados.


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É difícil chegar direto ao ponto, encontrar a medida adequada. Simplesmente porque parece que aprendemos tudo ao contrário. Se a mulher está interessada, não pode demonstrar porque pega mal. Se quer muito o emprego, tem que agir com certo descaso para não parecer desesperada(o), dentre outros exemplos que podem parecer tolos, mas que revelam como cada um se relaciona com o próprio desejo. Além disso, revelam como simples atitudes, não que sejam fáceis de alcançar, podem conferir certa leveza à vida e evitar diversas doenças, dentre elas intrigas familiares, mau humor matinal e inveja.

Ir direto ao ponto pode ser um dos aprendizados mais difíceis da vida, e talvez a gente nunca chegue lá: porque é bom deixar um restinho faltando, um tanto que nunca se realiza, para que a roda viva do desejo continue a girar. Como saber a medida exata do que deixar sobrar ou faltar? Eis a sabedoria. Considero que o mais importante - neste momento - seja se saber faltante, desejante. Saber que falta em mim facilita que eu aceite o outro como o outro é: igualmente faltante. Eureka.

Uma das maiores alegrias de ser eu mesma que a análise me proporcionou foi a de aprender que ser flexível significa também aprender a errar. E errar significa estar disposta a ser vista como errante, faltante. Saber que ainda não sei me libera de ser perfeita, me dá o aval para errar e a oportunidade de consertar. Não é isso uma maravilha, no fim das contas? Não ter que provar, a si mesmo e aos outros, que não somos protótipos de super herois e heroínas?

Eu disporia diversos argumentos "pró-análise" neste sentido, mas acredito que cada um que passa pela experiência deve ser capaz de chegar às suas próprias conclusões, por isso, não sem alguma dificuldade, vou direto ao ponto: se não conseguimos manifestar nossa(s) potencialidade(s), algo deve ser feito. Se a gente não consegue lembrar qual foi a última vez em que algo foi realizado com verdadeira paixão e brilho nos olhos, alguma coisa está errada. Cabe a cada um descobrir o quê.

A vida é curta demais (veja, já é quase meio do ano e já adiamos tantos planos e sonhos) para gastar tempo e energia montando esquemas neuróticos que nos afastam daquilo que diz respeito a uma verdade, que diz respeito ao desejo. A vida é curta demais para não reclamar do suco que veio com açúcar, mas também é grande demais para reclamar por qualquer coisa. Achar a medida certa é o andar na corda bamba dos aprendizados. Por isso, clamo por uma vida em que testemos mais receitas, experimentemos mais temperos e encontremos a pitada ideal de noz-moscada para o molho branco. O desfrute pode ser breve ("tristeza não tem fim, felicidade sim"), mas a satisfação do momento fica marcado, por ter sido algo que recebeu nosso toque pessoal.

Viver é encontrar a medida certa, mesmo que a gente passe muito tempo testando a receita.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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