Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

Atenção: você não está sozinho no mundo


De tempos em tempos, algumas pessoas passam por períodos em que perdem a esperança na humanidade. Essas pessoas dizem "olha, estou muito decepcionado, a ponto de desistir"; "essas coisas me fazem questionar a evolução do ser humano"; "tudo isso me desanima muito, fico pensando se devo lutar por tudo que luto", etc. Ainda que as sentenças expressem que estamos fatigados com o martírio de ser humano (e, consequentemente, ter que conviver com outros seres humanos), as frases carregam uma esperança. "A ponto de desistir", "Me fazem questionar", "Fico pensando se devo" ainda não são desistências. São desabafos. E todo mundo precisa desabar(far) de vez em quando. Faz parte dos movimentos da vida, faz parte dos movimentos do ser humano. Mas hoje, para além de estar cansada da minha própria espécie, comecei a pensar em algumas coisas mais seriamente. Comecei a pensar no porquê algumas pessoas se tornam desesperançosas, se cansam com frequência, perdem o brilho no olhar ou deixam de lutar pelo que acreditam. E o motivo pode ser a própria humanidade.

retrato.jpg

É impossível se curar da humanidade inteira. É impossível curar a humanidade inteira. Então, o que é possível ser feito? O que está ao nosso alcance?

Esses dias assisti ao documentário "eu+1" (https://www.youtube.com/watch?v=IG_DdW4znCE), que relata o trabalho de uma equipe de "cuidantes" (psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, um fotógrafo e uma jornalista) que se deslocou até Altamira, local onde a usina hidrelétrica de Belo Monte foi construída, alterando o ecossistema (em prol do perigosíssimo "ego-sistema"), os modos de vida e laços comunitários dos que ali habitavam. Definitivamente, um trabalho de coragem foi feito. De deslocamento, e não só físico. Um sair do lugar-comum, do "mas eu não posso fazer nada", e arriscar a pisar em outras terras para que algo possa brotar. Não digo mais para não cometer spoillers, mas este documentário me fez pensar, dentre outras coisas, que é preciso - e é urgente - trabalhar pelo coletivo.

O ser humano se esquece que vive ENTRE pares. Que o movimento sozinho-junto é ininterrupto. Se está em um prédio, existem os vizinhos... que eventualmente irão escutar (e se aborrecer, como é o meu caso) as músicas altas que escuta; que ao sacudir o tapete na SUA janela, o pó irá para a casa do OUTRO; que simplesmente dar um nó na sacolinha plástica e atirá-la ao lixo não faz com que ela desapareça, mas apenas com que suma do SEU campo de visão. Ainda bem, né? Já pensou ter que olhar para o lixo que produzimos todos os dias?

convivência.jpg

O ser humano se esquece que, se joga seu "lixinho" (mesmo que seja minúsculo, como um papel de bala) pela janela no ônibus, aquilo irá, SEM DÚVIDA, afetar a ele mesmo! Assim: vários papeizinhos de bala formarão um papelzão, que pode entupir bueiros e causar alagamentos, dentre outros transtornos. O ser humano se esquece que, se há algum problema no condomínio ou na vizinhança (no bairro, na cidade, no estado, no país, no mundo...) em que vive, isto automaticamente também se transforma em um problema seu. Mas onde já se viu perder tempo tentando conversar ou conhecer os seus vizinhos? A gente vive cada vez mais a lógica do "cada um no seu quadrado", ou "cada um na própria jaula" que criou para si e se engana pensando que assim está protegido. Do quê?

O ser humano perdeu e continua perdendo: a noção de espaço, de coletividade, de sociedade, de humanidade. Agora é comum se espantar com algo que deveria ser óbvio: "nossa, encontrei um médico muito bom, super humano, que olhou nos meus olhos e me escutou"; "nossa, fui atendida por uma pessoa muito solícita, simpática e bem educada que até me senti especial!"; "nossa, acredita que o caixa da padaria me cumprimentou ontem? não sabia que prestava atenção em mim!", e por aí vai. Dói na alma da humanidade inteira que habita em mim cada um desses exemplos. E hoje estou sentindo dor pela humanidade inteira.

honestamente.jpg

Já pensou em cumprimentar o porteiro? Em olhar nos olhos dos/das que te atendem nos mais diversos estabelecimentos? Perguntar como está o cobrador do ônibus? Em comprar do pequeno produtor? Em incentivar o comércio local? Em levar sacolas retornáveis ao supermercado? Pode começar por aí, pelo mais simples. Já pensou em organizar uma reunião de condomínio que seja "diferente", que sirva para conscientizar as pessoas a respeito da reciclagem do lixo, da economia de embalagens plásticas/sacolinhas, ou dar dicas de alimentação saudável? Já pensou em viver tentando não "jogar coisas fora"? E se você fosse a diferença que tanto procura? Eu sei, tudo anda muito corrido, os prazos estão apertando, o tempo não para e "eu" já tenho tanto para fazer. Pensar em "tudo" isso não significa considerar os projetos pessoais como sinais de egoísmo, mas perceber que viver lutando para sustentar e satisfazer apenas os próprios ideais é uma grande incapacidade de se abrir para o mundo. E quando a gente se abre para olhar o que há em volta, descobre que não está sozinho no mundo (!), a vida adquire um novo "status". O outro adquire um novo status. Não significa que a partir de agora vamos dar todo nosso salário aos que não têm salário, toda nossa comida aos que têm fome (já ouvi críticas assim). Se trata de não se tornar indiferente aos que não têm salário e/ou comida. Ou aos que não tem nem sequer um olhar.

Tudo isso são exemplos. O que importa é que talvez uma mínima atitude seja capaz de transformar o mundo. Ou alguns mundos. Porque o próximo passo ao "não ser indiferente" pode ser querer fazer algo para mudar a situação. E aí entram as mais diversas saídas que podemos dar à vida: estudar, pesquisar, trabalhar; para compreender, propor alternativas, deixar um legado às próximas gerações. Cada um de nós precisa encontrar o seu próprio alcance.

Nossos próprios problemas são importantes e continuarão sendo, sim, mas é importante lembrar que, uma vez no mundo (isto agradando ou não), a equação será sempre (eu) + 1.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Manuela Pérgola