Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

cai no poço; quem me tira?

É difícil enxergar o outro como um igual, lançado na mesma tarefa de continuar vivendo, quando não me vejo como parte do processo. Ordem e progresso. Progridam, caminhando sempre destinados a vencer na vida. Quem vence?


A cidade me impele para dentro de uma camada que eu nem sabia que existia. Lá, me encontro com desalinhos humanos, misérias sem misericórdia, cheiros dos mais variados possíveis. Estou compelida a achar que meus desencontros são apenas formas de encontrar o que tenho de mais brilhante. A cidade me mostra seus opacos vidros embaçados e olhares viscosos marcados pela indiferença.

No último domingo, eu saía da padaria onde tive a grande sorte-oportunidade-não-meritocrata de tomar meu sagrado café coado & pão na chapa, quando avisto um homem de aproximadamente 60 anos caído na sarjeta, na chuva. Sua cabeça sangrava. Um de seus sapatos estava jogado na rua. Aquela cena foi como um tiro, me acertou em cheio o coração quente, bem alimentado, branco, classe média, poeta, psicanalista, eu. Não consigo pensar em mais nada. Entro na banca ao lado para comprar (quem tem dinheiro tem este poder de comprar coisas e isto tem me desiludido, ando pensando muito no que o dinheiro nos trans-forma. às vezes em monstros) uma coisa, e penso em ligar pro SAMU. Um casal que estava perto do senhor caído na sarjeta vem falar comigo, pedem para que eu ligue para o SAMU. Quem sabe com mais pessoas ligando... eles finalmente, viriam? Descubro que eles estavam esperando há uma hora a ambulância chegar. Eles haviam chamado assim que se depararam com a cena, mas "caíram no erro" de dizer que se tratava de atendimento para um morador de rua. Pareciam culpados por isso.

Que mundo é este, em que consideramos um "erro" dizer que precisamos de uma ambulância para uma pessoa? Bem, é este, em que eu e você vivemos.

Depois do segundo chamado, um terceiro casal se aproxima e também liga para o SAMU. Uma senhora que passava pela rua também. Até que um outro morador de rua se aproxima, tenta "acordar" o que está no chão (tudo indicava que ele havia tido um ataque epilético, pois estava bem machucado e tremia), tira sua camisa e cobre o outro. Um morador de rua tira sua camisa e cobre o outro. Minha alma se encolhe e ao mesmo tempo se inflama. Há uma ferida aberta, uma fratura exposta, e não apenas na cabeça do homem caído na sarjeta. Há um abismo entre eu e ele, mas estamos tão próximos. O que nos distancia tanto? Há uma solidão disfarçada de muito trabalho-pouco tempo, e quem ousa rompê-la é diferente, rebelde, estranho. Há um fantasma de solidão e desigualdade nas ruas da cidade, em que eu e você passamos e (quase) ninguém vê. E se fosse um homem branco, engravatado, viria a ambulância com apenas um clique? Alguém pararia o seu carro para levá-lo ao hospital mais próximo e salvar a sua vida? Não posso deixar de pensar nisso. Não posso deixar de levar comigo todos esses olhares que não são vistos, não posso apenas "não fazer nada". Um dos casais compra uma capa de chuva e cobre o senhor que está no chão. O outro pega jornais para proteger a sua cabeça. A chuva continua. Ficamos ali, esperando a ambulância que não chegou. Um dos casais vai embora, com pesar nos passos e no olhar. Eu quero ficar. Quero ao menos ser a que acompanha aquele homem caído no chão, que vela o seu sofrimento e não pode fazer muito a não ser esperar a ambulância que não veio. Um senhor está no chão, no centro de São Paulo, e quase ninguém olha. É domingo, garoa, as pessoas passam e (quase) ninguém se preocupa. O SAMU não se preocupa. Quem se preocupa? Quem deveria se pre-ocupar com isso?

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Para essa e tantas outras desigualdades, quem olha? Quem cuida? O homem que vejo quase todos os dias comendo lixo ---- quem pode fazer alguma coisa? Ou é melhor nos fecharmos em nossos escritórios, casas e estabelecimentos de vidro e tocar a vida? Continuar educando as nossas crianças para a (in)diferença, a meritocracia, uma sociedade definida em "quem tem e quem não tem"? Por que este que tem, tem? E o que não tem, pode chegar a ter? Quem vai fornecer as condições básicas para que a vida (não estou falando de subjetividade, ainda, infelizmente) seja possível?

É difícil enxergar o outro como um igual, lançado na mesma tarefa de continuar vivendo, quando não me vejo como parte do processo. Ordem e progresso. Progridam, caminhando sempre destinados a vencer na vida. Quem vence? Uma vez no mundo, não dá para desconsiderá-lo, fingir que não somos atingidos, todos os dias, por balas precisas, vindas, muitas vezes, de dentro do nosso grande egoísmo.

É preciso fazer um chamado. Ligar para todas as ambulâncias da cidade. O mundo está dodói.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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