Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

Manifesto de partilha feminina

Precisamos ser preguiçosas. Precisamos acumular roupas no cesto, louças na pia, contas vencidas. Precisamos fracassar juntas.


Estou terrivelmente distraída. Não sou capaz de me concentrar continuamente por mais de 40 ou 50 segundos. Coloquei mais de oito músicas diferentes, de artistas diferentes, pensei mais uma dezena de coisas importantes que eu não deveria esquecer, e acabo de perceber que esqueci. Deixei passar. Quero terminar um livro de poesias. Já faz 3 anos desde o lançamento do meu primeiro. Quero construir uma horta no quintal. Preciso fazer as unhas, gostaria de ter dinheiro. Mas se sustentar sozinha não é fácil (não estou dizendo que não gosto), e simplesmente é melhor esquecer a ideia da manicure por enquanto.

O sentimento agora beira a incapacidade. Estou intranquila, apesar do semblante aparentemente calmo, me sinto insuficiente. Incapaz. Preguiçosa. Lenta, extremamente lenta. Distraída. Qual foi a última vez que estive assim? Estou querendo traçar comparações para não me sentir tão culpada.

(Um tempo se passa. Me levanto, tomo água, vou ao banheiro. Mal me encaro no espelho. Acho que não quero ver. O quê?)

Minhas mãos suam. Um dia de folga está quase se transformando em um inferno. Antes estivesse trabalhando, chego a pensar. Que horror não poder tirar o dia só para mim, sem culpa. Então me lembro, pela décima vez: hoje é o dia da mulher. Quantas estão se sentindo assim?

Faço uma nota mental: Não posso me esquecer que no meio tempo, em que não estou trabalhando ou escrevendo, eu estou vivendo, e isso significa que estou produzindo. Estou produzindo minha própria alimentação, estou produzindo roupas limpas no varal, estou produzindo louças lavadas no armário, estou produzindo risadas em alguns (poucos, mas estou), reflexões em outros. São poucos, mas o que importa? Por que essa síndrome de que eu devo ser a super "alcançadora" de pessoas e salvadora da humanidade?

(...) são ideias, você sabe, sobre sustentabilidade, são coisas que não concordo que estão acontecendo e não sei como controlá-las, são alguns pensamentos que eu tenho sobre a natureza humana, sobre as relações, sobretudo. você também tem isso, não tem? digo, as ideias. acho que estou dizendo da minha individualidade. das minhas particularidades. daquilo que me faz eu. quem me viu, quem me vê? (meus olhos se enchem d'água).

Fora as ideias. Fora temer. Hoje é dia da mulher e eu não consigo descansar porque acho que deveria estar fazendo outra coisa.

Por que estamos sempre compelidas (e compelidos também) a nos sentir insuficientes? oras, horas atrás, eu disse: "hoje vou tirar o dia para mim". Por que diabos está tão difícil fazer isso? Por que não podemos descansar? Por que não podemos estar tranquilas? Sofremos de excessos. De "coisas de mulher". De ideias. De pensamentos. De pesares. De hormônios. Em meio a isso, há um imperativo que grita PRODUZA! e, até mesmo em meus sonhos, ele aparece. É uma assombração que nos ronda. Devemos ser e ter cada vez mais. Ser melhores. As melhores. Agora, eu procuro melhoras para isso. E por falar em cura, eu dedico, do fundo do meu coração, esta minha mais profunda crise existencial. Para as mulheres.

faygaostrower.jpg

1.

que se deixaram transformar por tudo o que a vida trouxe.

que passaram grande parte da vida tentando se transformar, mas partiram antes que isso pudesse acontecer.

que não entenderam o que significava opressão.

que não extraíram o poder de sua criatividade.

que calaram seus ovários, úteros e pulmões para não "causar transtorno".

2.

às mulheres com quem fiz amizade, com quem criei laços e aprendi lições profundas, permanecidas em mim até hoje.

com quem dei risadas, gargalhadas, abdominais de tanto rir.

com quem compartilhei a cozinha, o banheiro, a sala, a cama.

Preciso de todas vocês, e vocês sabem quem. Preciso de suas companhias, suas risadas, suas receitas, seus abraços, suas lágrimas, suas dores. Preciso compartilhar todas essas ideias de um mundo cheio de ódio, preconceitos, opressões. Precisamos construir hortas, composteiras, sustentabilidade. Precisamos escrever nossas estórias, nossos poemas, nossas biografias, um, dois, três livros de tudo o que vivemos. Precisamos levantar os braços, abrir as pernas, a boca, os olhos, e o peito (com cuidado). Precisamos gritar sem ter medo. Precisamos silenciar sem ter medo. Precisamos ser produtivas e improdutivas sem medo. Precisamos ser preguiçosas. Precisamos acumular roupas no cesto, louças na pia, contas vencidas. Precisamos fracassar juntas. Precisamos vencer juntas. Precisamos raspar nossas cabeças, deixar crescer os cabelos, nunca mais cortar os cabelos. Precisamos de pouca maquiagem, poucos pares de sapato, poucas bolsas, pouco fetichismo. Precisamos nos reunir e conversar sobre isso. Precisamos nos reunir para não falar nada. Precisamos nos reunir. Precisamos tomar café, tequila, cerveja, chá de camomila. Precisamos fabricar nossos próprios produtos de "beleza", porque o que é bonito é ser a gente mesma. Precisamos cantar, gravar discos, ouvir discos, deitar de barriga para cima e escutar as nuvens, deitar de cabeça para baixo e escutar o ventre. Precisamos menstruar, ovular, engravidar, abortar. Precisamos sentir o cheiro do nosso sangue, fazer pinturas com ele, desmascarar tudo o que aprendemos até hoje sobre o "nojo" dos nossos ciclos naturais & saudáveis!

Precisamos não precisar de nada, de tudo, precisamos ser imprecisas, indecisas, indevidas, inúteis. Precisamos não precisar receber elogios para afirmar o óbvio, precisamos não precisar lutar por direitos iguais, precisamos não precisar pedir silêncio porque queremos falar, precisamos não precisar de um dia para receber mensagens de spam nos grupos do whatsapp, disseminando rosas de hiroshima em nossos cérebros atolados de preocupações, em nossos corpos cansados de opressões, em nossas almas violentadas por tamanha falsidade.

Precisamos não precisar de um dia, de uma luta, de várias lutas, de modismos, de espaços reservados "para elas", de cabines cor-de-rosa, academias "para mulheres", de corredores poloneses. Precisamos não precisar nos controlar, nos odiar. Precisamos não precisar de corpos esculturais e plastificados, cera quente, cera fria, frieza e frigidez. Não precisamos e precisamos de muito. Precisamos nos re-unir.

Preciso de vocês.

Precisamos umas das outras.

Por isso, este é um texto sobre p r e c i s ã o.

Ainda precisamos de um dia estabelecido no calendário para as floriculturas lucrarem, para os homens se redimirem, para a indústria cultural fingir que nos prioriza, para o mundo fingir que nos prioriza. Mas, principalmente, para que a gente possa se expressar. Umas com as outras, também. Cada vez mais conscientes.

* Nota póstuma: este texto nasceu de uma necessidade. nasceu de uma mulher em plena "tensão pré menstrual", que deveria estar debaixo das cobertas em posição fetal, pois está exalando odores típicos desta época do ciclo, pois está "descontrolada", "louca", "cruel", "deprimida", "exausta", pois está com "necessidade de chocolate", pois é mais uma daquelas que escreve incansavelmente (não muito, estou num período de baixa) sobre esses "temas chatos", pois é mais uma mulher. Mais uma mulher desaprendendo a ser mulher nos moldes de hoje, desaprendendo a construir ódios por mim mesma por não estar nas capas das revistas. Desaprendendo a amar maus tratos. Desaprendendo a odiar a TPM, desaprendendo a achar que "beleza" é cabelo comprido e rímel, e tanto mais. "Não estou louca, sou cíclica".


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// //Manuela Pérgola