Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

as (im)possibilidades do estar com o outro

Sofremos de não saber estar com o outro. Sofremos de uma espécie de carência de estar com o outro. Mas não sabemos como tornar o encontro possível, porque para estar com o outro é preciso deixar-se sofrer de uma porosidade. Por que anda tão difícil estar com o outro?


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Freud, no texto "Mal-estar na civilização", nos fala sobre os sofrimentos que nos ameaçam. Dentre eles, está o sofrimento advindo das relações com os outros. Freud escreveu o texto em 1929, mas, ano após ano vemos esse sofrimento ser atualizado. Há alguma coisa, que não sei dizer bem, de intransponível nesse sofrimento causado pelas relações com outros seres humanos. Se não é possível achar uma única solução, quais saídas se fazem possíveis, além da amargura, isolamento e incremento das nossas neuroses?

Há uma infinidade de motivos para classificar as relações humanas como difíceis. Distância afetiva que alguns preferem manter - na tentativa de não se misturar com o outro e (vai que) perder-se de si mesmo -, o álibi perfeito das redes sociais, que nos mantém juntos desde que haja wi-fi, amém, o esquecimento & indiferença, etc. Seja como for, os motivos permeiam, por vezes, a incapacidade emocional de estar com o outro.

Dois si-mesmos, inteiros, quando se encontram e partilham de uma área intermediária típica do 'estar com', mantém suas singularidades, suas próprias "áreas de ilusão", como escreveu o psicanalista inglês D. W. Winnicott. E, ainda que mantenham um núcleo do self incomunicável, o encontro entre duas pessoas acontece, as duas áreas se cruzam em uma área intermediária, e experiências como 'sensação de estar vivo', 'entusiasmo para encarar a vida' e 'momentos prazerosos para além das neuroses' se fazem possíveis.

Ainda que toda a sutileza de tais momentos seja descrita, nem sempre isso é possível. Há pessoas que simplesmente não podem estar com o outro, não são capazes (emocionalmente falando) de compartilhar, pois têm medo de que seus selves sejam descobertos. Não apenas seus núcleos incomunicáveis ficam escondidos, como a saúde nos convida a fazer, mas se escondem também aqueles que poderiam ser 'junto com', geradores de energia emocional e afetiva. Um número infinito de motivos leva a isso, o que não será abordado agora.

Mas por que anda tão difícil se encontrar - no sentido de troca, escuta - com o outro?

Estive, há algumas semanas, na palestra "O psicanalista e o palhaço", com Christian Dunker e Cláudio Thebas (quem ainda não viu, veja "Fala que eu não te escuto"). Durante e depois da palestra, fiquei completamente tocada. Os dois abordaram, cada um a sua maneira, o tema da (não) escuta que nos atravessa hoje, a importância e urgência da sensibilidade para estar com o outro, as capacidades necessárias para escutar, a necessidade de manter viva a nossa capacidade de nos surpreender com o outro, etc. etc. Tudo isso junto com um humorzinho para dar um toque de leveza. Em algum momento, falaram de uma certa "porosidade" que faz com que sejamos capazes de escutar o outro. Precisamos estar, ao menos um pouco, esvaziados de nós mesmos para que a comunicação não se faça nó. Mas o que acontece é que fomos educados para ocupar o lugar de fala, não o lugar da honra de ouvir. Por isso é raro experimentar o Encontro. Por isso Rubem Alves escreveu "escutatória". É do que precisamos.

Por que anda tão difícil estar com o outro?

Porque, para estar com o outro, é preciso não estar preso a si mesmo. É preciso perder um pouquinho do nosso precioso narcisismo, que sim, é importante e nos mantém de pé, mas em outros momentos se faz grande armadilha: nos mantém afastados do outro porque não podemos deixar de olhar, nem sequer por um momento, para nós mesmos. Se cada um de nós está sempre consigo mesmo, qualquer coisa que o outro faça ou diga vai soar direcionado DIRETAMENTE a nós mesmos, porque estamos DIRETAMENTE ligados a nós mesmos, e só.

Porque o outro nos magoa, nos machuca, erra: eis a condição para ser humano. Se não errássemos, seríamos máquinas. Somos suficientemente bons, não totalmente, e é difícil aceitar e lidar com o outro que erra porque esta é a via que nos leva diretamente a nossa própria condição errante.

É difícil estar com o outro porque as relações humanas não são lineares.

Você pode passar tempos sem falar com seu melhor amigo, e ainda assim serem melhores amigos. Você pode ter perdido o nascimento do seu afilhado, mas estava lá quando sua amiga precisou de você para ir ao hospital. "Todo dia é um 7 x 1 diferente". Todo dia alguém dá uma mancada com a gente. Todo dia a gente dá uma mancada com alguém. E continuamos por aí, mancos, tentando amar. Praticamente dizendo "olha, eu não sou perfeito, mas estou aqui, vamos mancar juntos". Guimarães Rosa já sabia, e disse que o bonito do mundo era isso, que as pessoas não estão prontas, estão sempre se transformando.

Mas, em geral, o que acontece é que somos exigidos e exigimos que as pessoas tenham pernas biônicas, e nunca, nunca manquem. Porque aprendemos que mancar é feio. É imperdoável. Sofremos de não saber estar com o outro. Sofremos de uma espécie de carência de estar com o outro. Mas não sabemos como tornar o encontro possível, porque para estar com o outro é preciso deixar-se sofrer de uma porosidade. É preciso saber escutar. A nós, ao outro. As duas tarefas são difíceis.

Se a gente teima e insiste no famoso oito ou oitenta, tão típico da neurose, quem perde é a gente, porque entre oito e oitenta existem muitos números... várias reações que podemos ter frente à "mancada" do outro. Mas oito ou oitenta só escancara o nosso narcisismo, e aí sim é que perdemos força: inflados de nós mesmos, perdemos a oportunidade de estar com o outro, e essa é a pior mancada que podemos cometer. É assim que nos tornamos muito mancos. Ainda que sejamos mancos maquiados, que sorriem, não furam o sinal vermelho e pagam os boletos em dia ou quase, no silêncio da noite estaremos lá, a sós - nós, o oito e o oitenta.

Relacionar-se nunca será pura alegria, mas a gente aprende a sorrir chorando, a chorar sorrindo. Essa é a (des)graça do encontro. Somos diferentes, conhecemos nossos limites, e ainda assim estamos juntos. A vida se torna algo mais leve.

Há uma beleza sem fim no relacionar-se, no estar com, que é fruto da espontaneidade e capacidade criativa do ser humano. Eis um dos sentidos da frase de Vinícius de Moraes: "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". Que possamos diminuir as doses de nossos narcisismos (dá-lhe análise) para desfrutar dos nossos laços afetivos e evitar nós na garganta (no melhor dos casos). No fim, o que necessitamos, desde os primórdios de nossa vida, é o que cria o próprio sentido da experiência humana.


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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