Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas.

Perdas, sublimação e pandemia

O que pode a palavra diante das angústias pandêmicas?


Escrevi um texto há três ou quatro dias atrás. Um texto que, modéstia às favas, gostei bastante. Acontece que hoje, ao abrir o arquivo do texto, ele havia desaparecido. Me lembrei de qualquer coisa que poderia realmente ter acontecido quando finalizei a escrita, mas não me fica muito claro o quê. Salvei ou não salvei? Seria possível saber?

Pois bem. Me sinto contrariada, quase triste, por ter perdido o texto. Como é que se recupera a palavra? Não posso, não consigo. Ao mesmo tempo, achei uma sacada inteligentíssima da vida (tudo isso pra não dizer que coisas que não podemos controlar acontecem o tempo todo e que não há nada que se possa fazer a respeito) o fato de o texto ter desaparecido, mas o título ter permanecido salvo. Achei curioso. O conteúdo em branco. Um papel novo em folha para ser preenchido, ou não.

Acabei topando o desafio comigo mesma, e fiz uma comparação besta (às vezes o besta é ouro) com o que estamos vivendo: a falta de controle, de forma radical. Cada um, de acordo com a cartilha de sua neurose, está reagindo de um jeito. Mas, o fato é um só: não temos controle sobre um vírus que assola o mundo. As medidas de precaução servem para que se evite a proliferação ainda maior e os colapsos que podem vir a acontecer (e já estão acontecendo), caso “isso” não seja controlado.

Mas, a cada dia que passa, a cada noticiário escutado, a cada caso de morte confirmado, esbarramos com a nossa insignificância. Desamparo. Solidão. Descontrole. Morte. Medo. Angústia. Todos esses, claro, sentimentos que queremos evitar e que, em últimas, não conseguimos. Faz parte do que é ser humano. Em menor ou maior grau, dependendo dos recursos (internos e externos), sintomas, capacidades sublimatórias, etc. etc. etc. A pergunta poderia ser, então: o que se faz diante do inevitável? O que se faz diante de sentimentos dos quais não podemos fugir, e que por toda vida vão nos acompanhar? Ou: o que se faz diante de uma pandemia?

Percebo, então, que escrever durante esse momento histórico e trágico é o que me restou. Me restou não porque tenha sobrado, mas justamente porque faltou. Há uma diferença entre vazio e falta. Se posso dizer algo a respeito disso (poder eu posso, tanto que já estou fazendo), talvez a falta seja um “tratamento” que os neuróticos concedam ao Real, conforme descrito por Lacan. Vazio é vazio. Estará presente, ainda que vazio, até que a morte nos separe, amém. O que pode a palavra diante dessas angústias, do enfrentamento da própria castração?

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Pra mim, a escrita transforma o pior em algo. Funciona como um tratamento possível para isso que não posso controlar. Algo da ordem do pior porque nos convoca a sentir o que tentamos não sentir. Ou seja, tudo o que esse período que vivemos tem feito: despertado os leões que viviam adormecidos em nós. Aqui, o que já virou clichê (não tenho nada contra eles, são apenas modos de dizer o óbvio), o "trancado em casa e em mim" não poderia expressar melhor. Quer melhor maneira de se deparar com os próprios fantasmas? Passe 24 horas do seu dia com aqueles que você ama. Se for muito difícil, recorra à análise.

A palavra, portanto, é filha do vazio. A palavra só existe porque não há mais nada para existir em seu lugar. Ela vem contornar o incontornável, por isso as usamos aos montes, fazemos poesia, poemas, contos, prosa, crônicas, novelas, romances, mestrado, doutorado e pós doutorado, pichamos muros, tatuamos a pele, cantamos, “rasgamos o verbo” para que apareça justamente o que está debaixo da pele da letra: o corpo. É o corpo que está ameaçado na pandemia. É o corpo que pode, por vários motivos, ser capturado por um vírus, não combatê-lo, adoecer e morrer. É o corpo que perecerá, no fim das contas. O que restará depois da morte? . . . Não sei.

Confinada, (des)confio que em matéria de vida e do pouco que nos é possível capturar dela, as diferentes formas de arte podem fazer o melhor desse momento de advento do pior. Temos condições de transformá-lo em outra coisa, que não só desespero, pânico, medo e angústia? Minha aposta vai no sentido de que o pior pode ser transformado em algo melhor: o medo em riso, a paralisia em ideias, o silêncio em busca, a angústia em palavra.

Não nos resta muito mais do que isso. Ainda bem.

(Créditos da imagem: Alice Wellinger)


Manuela Pérgola

gosta das palavras - escritas e faladas -, da escuta, café e sempre está em busca. de vez em quando descobre do quê. picada pelo bicho da psicanálise, é incurável no que diz respeito à análise não-óbvia das coisas, do mundo e das pessoas. .
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