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Propagando viagens através das estantes infinitas do universo.

Tainá Fragoso

Estudante de física em busca incessante pelo conhecimento e fascinada pelo universo. Apaixonada por literatura, música e chás, transborda loucura pela sétima arte.

Sejamos todos Edith

Edith era mais do que uma velhinha de 85 anos, ela era por inteiro um livro de histórias, o maior de todos eles. Edith era o tipo de pessoa que todos deveríamos ser, um pouco de tudo. Escritora, atriz, jardineira...o tipo de pessoa que não esquece seus ideais e manias com o tempo, o tipo de pessoa que não se conforma com a idade e que deseja continuar até quando puder, o tipo de pessoa que não se acomoda.


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A emocionante animação da Pixar "Up: Altas Aventuras", mostra uma visão diferente do pensamento das pessoas mais velhas, esses anciãos que têm muito a nos oferecer, mas que na sociedade atual estão cada vez mais menosprezados e esquecidos. A história do senhor Carl Fredricksen e de sua casa tão característica, porém, esconde outra narrativa real, que emociona ainda mais por seu caráter humorístico nas situações mais adversas e pela amizade entre duas gerações diferentes que encontram, um no outro, uma admiração recíproca.

"Uma casa no meio do caminho" foi o livro que serviu de inspiração para a animação. Narrado pelo próprio homem que viveu a experiência, Barry Martin, e escrito com a ajuda de Philip Lerman, o livro trás a história de Edith Wilson Macefield, uma senhora de 85 anos que se recusa veementemente em abandonar a sua pequena e aconchegante casa para a construção de um shopping center, projeto liderado pelo narrador. Várias foram as tentativas de Berry para convencer Edith a sair do local e é através de todas essas tentativas que ele acaba conhecendo melhor a vida e a pessoa incrível que ela era. Em suas idas a sua casa, Berry se surpreende com sua suposta história de vida, seus conhecimentos sobre diversos assuntos, sua cultura e com as pessoas que ela diz conhecer.

O fato é que Edith era mais do que uma velhinha de 85 anos, ela era por inteiro um livro de histórias, o maior de todos eles. Em sua vida, que Berry nunca soube se era real, ela já havia sido uma espiã durante a Segunda Guerra Mundial, ajudou crianças em seu próprio orfanato e era prima e amiga de praticamente todos os famosos de sua época. Edith era o tipo de pessoa que todos deveríamos ser, um pouco de tudo. Escritora, atriz, jardineira...o tipo de pessoa que não esquece seus ideais e manias com o tempo, o tipo de pessoa que não se conforma com a idade e que deseja continuar até quando puder, o tipo de pessoa que não se acomoda.

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"Em uma prateleira, junto ao sofá, havia uma coleção de livros clássicos, como "O Morro dos Ventos Uivantes", "Os Contos da Cantuária", "O Capital" e coletâneas com poemas de Longfellow. Todos estavam empoeirados, como se ninguém os lesse havia tempos, mas de vez em quando ela citava trechos deles, então sei que ela tinha lido todos, alguns até mais de uma vez".

Não somente a culta Edith tem algo para nos ensinar, como também toda uma geração de anciãos e veteranos que já estão há algum tempo sobre a Terra. Não é à toa que Raul Seixas, "nascido há 10 mil anos atrás", já vira e sabia de tudo demais. Os velhos, sim, velhos! Porque isso não é ofensa, é elogio! Possuem muito a nos ensinar. Quem não gostaria de ter um avô com dons de marcenaria para no ensinar a criar peças de madeira, um agricultor(a) para nos ensinar a plantar e cuidar da própria horta. Um baú de histórias, receitas antigas, remédios caseiros, dicas engraçadas de relacionamentos. A experiência é o que faz a vida valer a pena, passar nossos conhecimentos adiante é fundamental e mais ainda é ouvirmos o que essas pessoas maravilhosas têm a oferecer. O respeito aos mais velhos não é "coisa" para ser educado, é algo que deveria estar enraizado em todos nós, deveríamos nos orgulhar de dividir nosso novo mundo com eles.

Edith foi a prova da quantidade de ensinamentos que um senhor ou uma senhora podem distribuir se dermos uma pequena chance, o mal humor que às vezes vem junto com a velhice talvez seja uma camada de proteção contra uma sociedade tão dura e com tão pouco a ouvir e aprender. Quando no livro Edith, depois de passar por situações que causam sérias marcas em nossa sensibilidade, encontra seu lugar no mundo de sua magia interior, é como se uma fada tivesse morrido, como se um livro tivesse sido queimado e uma música fosse esquecida. Sua morte é a perda de décadas de sabedoria, é o cair da maior árvore da floresta, é o fim de todo um universo que é cada um de nós e tudo o que viveu em sua jornada. O que ameniza o sentimento de perda, porém, é saber que a lembrança, e talvez um pouco de seus ensinamentos, alcançaram um caminho maior e que Edith e todos os donos do mundo continuam vivendo dentro de cada um de nós.

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Tainá Fragoso

Estudante de física em busca incessante pelo conhecimento e fascinada pelo universo. Apaixonada por literatura, música e chás, transborda loucura pela sétima arte..
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