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Propagando viagens através das estantes infinitas do universo.

Tainá Fragoso

Futura estudante de astrofísica em busca incessante pelo conhecimento e fascinada pelo universo. Apaixonada por literatura, música e chás, transborda loucura pela sétima arte.

De Édipo a Antígona: Macabéa conceitua a liberdade

Em a Hora da Estrela, Macabéa é ao mesmo tempo Édipo e Antígona, antes de sua epifania todas as suas escolhas e sua liberdade são guiadas pela ideia de um destino pequeno e, talvez, curto.


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Em A Hora da Estrela, Clarice Lispector aponta uma espada no âmago da alma humana e causa desconforto quando questiona nossa essência e liberdade. Através de um narrador perturbado, a autora nos apresenta uma personagem sem vida, excluída pela própria vontade e encaminhada a um destino que ela mesma acredita o único e intransponível.

Macabéa representa o íntimo do que Jean Paul Sartre diz com a frase "O homem está condenado a ser livre", a personagem, ao acreditar que não pode adquirir mais do que tem e que não é digna de evolução, acaba exercendo sua liberdade ao escolher sempre o que a levará ao seu destino que acredita ser predeterminado.

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"Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser.”

Ainda em Sartre, Macabéa é a própria existência que vem antes da essência. Por não escolher existir ela passa a exercer sua liberdade impedindo a criação de uma essência; através de sua vontade, acaba construindo um mundo sem vida e totalmente refletido de sua falta de personalidade.

"Se tivesse a tolice de se perguntar "quem sou eu?" cairia estatelada e em cheio no chão.”

Assim como Macabéa, Rodrigo S.M. ao tentar mostrar seu desinteresse pela história e pela própria personagem acaba escolhendo por contá-la e assim, nega a si mesmo e a sua liberdade. A história contada por ele parece ter sido tirada de um livro de filosofia, uma tragédia grega, ou as duas coisas. No mito de Édipo, escrito por Sófocles, através de um oráculo seu destino é traçado e para evitar que isso aconteça seu pai tenta matá-lo. Édipo é resgatado e criado por outro casal. Quando já adulto, Édipo resolve consultar novamente o oráculo e descobre seu trágico destino, ele foge e sem saber acaba encontrando seus verdadeiros pais, assim, Édipo através de suas vontades faz escolhas que o levam ao destino que ele temia.

Em Antígona, tragédia também escrita por Sófocles, conhecemos uma história diferente, onde a liberdade é exercida pela vontade e o destino é criado pela própria personagem ao tentar enterrar seu irmão morto mesmo contra a lei imposta por seu tio e escolhendo, assim, a morte como punição.

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Em a Hora da Estrela, Macabéa é ao mesmo tempo Édipo e Antígona, antes de sua epifania todas as suas escolhas e sua liberdade são guiadas pela ideia de um destino pequeno e, talvez, curto. Quando, orientada dessa vez apenas por sua verdadeira vontade, resolve mudar seu destino ao enganar o chefe e visitar uma cartomante, Macabéa é Antígona. Porém, ao descobrir uma nova vida e novas razões relativas a um destino melhor ela acaba, sem saber, indo diretamente ao caminho daquilo que nós, leitores, prevíamos para ela; aqui ela é Édipo.

Rodrigo S.M. desgosta tão intensamente da história por ele contada e discorda tanto de sua personagem que, mesmo sem querer, acaba interferindo no rumo e no destino dela como forma de acabar com seu próprio sofrimento. Ele esquece, portanto, que a liberdade segundo Kant está baseada na coletividade e não no egoísmo.

A Hora da Estrela é a imagem da liberdade construída por diversos filósofos através dos tempos, mastigada com suas analogias, metáforas e críticas por outra filósofa contemporâneo; é antes de tudo uma lição para aprendermos de vez a viver sem medo e sem arrependimento pelo que não fizemos.

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Tainá Fragoso

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