palavras desassossegadas

Tudo aquilo que se tornou recôndito, de uma maneira ou de outra, esforça-se por se manifestar.

Jonathas Rafael

A língua é parte integrante do ser humano: constitui sua identidade. Por sê-lo, não é estável, muito pelo contrário, é viva. A língua é metamorfose.

Arteterapia: as artes enquanto instrumentos terapêuticos

Toda arte pode ser utilizada como instrumento terapêutico, já que é capaz de promover as reorganizações emocional, social, intelectual e espiritual, isto é, qualidade de vida. Por interligar as realidades interna e externa do sujeito por intermédio de sua simbologia, transforma-se em uma técnica singular, e não exclusivamente artística.


Gavroche at 11 years old Victor Hugo - 1850.jpg Gavroche at 11 years old (1850/2012), de Victor Hugo. Fonte da imagem: Wikimedia Commons.

A arte, cuja acepção latina significa técnica ou habilidade, pode ser compreendida como uma das maneiras de que o ser humano faz uso para demarcar sua presença no mundo. Pode ser compreendida, também, como uma das maneiras de que o ser humano faz uso para dar sentido à realidade a que pertence. Seu objetivo principal é mostrar como a realidade poderia ser, e não como ela é de fato. Podemos partilhar também das ideias de Reis (2014), que possui fundamentações teóricas vygotskyanas, e dizer que a arte é uma atividade criadora, age de forma a recortar elementos de determinada realidade e, por consequência, (re)combiná-los através da imaginação.

A arte é transformadora, já que está intimamente relacionada ao novo. Ao mesmo tempo em que transmite ideias de seu autor, faz com que este se veja em sua própria criação. Há uma relação dialógica entre arte e vida, quer isto dizer, o ser humano se comunica de maneira responsável e criativa com a realidade a que pertence por intermédio de sua criação artística. Com efeito, podemos considerar as íntimas relações existentes entre arte e trabalho, arte e cuidado, arte e reabilitação, legitimando sua dimensão social capaz de promover vivências socializadoras, tal qual vez Tavares (2003).

É importante dizer que há cinco classificações principais de arte, conforme ressaltam Aranha & Martins (1992). A primeira é a arte figurativa: seu objetivo é retratar pessoas, objetos ou determinados lugares, de maneira que seus contempladores possam identificá-los. A segunda é a arte abstrata: não tem por objetivo retratar nenhum objeto da realidade externa e é elaborada única e exclusivamente por intermédio de formas, cores ou superfícies. A terceira é a arte moderna: produzida a partir da segunda metade do século XIX, está mais alinhada à forma e à linguagem artística. A quarta é a arte contemporânea: referente aos últimos quarenta anos e ligada a diversas correntes estéticas, objetiva questionar os estilos de vida da sociedade que são propagados pelo cinema, pela moda, pela televisão e pela literatura. A quinta é a vanguarda: realizada por quem está à frente de seu tempo, tem por objetivo realizar novas linguagens artísticas a fim de obter respostas para questões evidenciadas pela cultura de seu tempo. Cumpre dizer também que há, segundo afirmou Ricciotto Canudo (1877-1923) em o Manifesto das Sete Artes (1912), sete tipos de manifestação artística, são eles: dança, música, pintura, escultura, teatro, literatura e cinema (Wikipédia, 2016).

Dito isso, podemos compreender, então, o que é arteterapia, como funciona e quais suas contribuições. Comecemos pelo esboço histórico. Embora seja uma atividade milenar, a arteterapia começou a desenvolver-se mais depois de se vincular ao campo da psiquiatria, no século XIX, por intermédio dos estudos de Johann Christian Reil, médico alemão contemporâneo de Pinel que fazia uso de desenhos, textos e sons para fins terapêuticos. A arteterapia também se desenvolveu bastante devido às influências recebidas da psicanálise freudiana e junguiana, já que seus autores, Freud e Jung, sempre advertiam que, por ser impossível acessar os conteúdos inconscientes de maneira direta, a arte serviria como uma das vias principais. Não podemos nos esquecer de Margareth Nauberg, pessoa responsável por firmar a arteterapia nos Estados Unidos, em 1940, como campo teórico e prático (Coqueiro; Vieira; Freitas, 2010). Tampouco podemos nos esquecer do psiquiatra Ulysses Pernambucano, do psiquiatra e psicanalista Osório César e da psiquiatra junguiana Nice da Silveira, responsáveis pelo desenvolvimento dos estudos de arteterapia no Brasil, a partir do início do século XX (Reis, 2014).

Conquanto a arteterapia tenha se vinculado ao campo clínico, ela se desenvolveu e se difundiu de modo a ser colocada em prática em diferentes contextos, por exemplo, escolar, social, comunitário e laboral, fundamentando-se em diretrizes que norteiam a formação e a prática do profissional que a aplica. Atualmente, a área da saúde é a que mais tem feito uso da arteterapia, principalmente no tratamento de crianças hospitalizadas, sendo sua aplicação grupal. Entende-se, portanto, que ela é um instrumento capaz de promover humanização. Cumpre dizer que a arteterapia tem sido escolhida como instrumento terapêutico por diferentes profissionais porque não se limita, isto é, consegue promover resultados em pacientes cujas dificuldades são elementares e em pacientes cujas dificuldades são complexas (Reis, 2014).

Com efeito, podemos compreender a arteterapia, hoje, como um instrumento de intervenção transdisciplinar que se fundamenta em diferentes formas de manifestação artística a fim de obter resultados terapêuticos. Um instrumento que promove comunicação cliente-profissional, autoconhecimento e desenvolvimento global, assim, contribuindo com a linguagem artística para o processo de cura (Reis, 2014). Ademais, é um instrumento capaz de interligar as realidades interna e externa do sujeito por meio da simbologia da arte livre que é criada no processo terapêutico, deste modo, transformando-se em uma técnica singular, e não exclusivamente artística. Visa a promover saúde através da criação estética e da elaboração artística predominantemente não verbal. Acolhe o sujeito em sua complexidade e dinamicidade, buscando abarcar seus aspectos afetivo, cultural, cognitivo, motor, social, entre outros (Coqueiro & Cols, 2010).

Os recursos artísticos utilizados na arteterapia são inúmeros, mas alguns deles, por possuírem determinadas eficiências, são utilizados de maneira unânime por profissionais que a aplicam, são eles: desenho, pintura, modelagem, música, poesia, dramatização, dança (Reis, 2014), escultura, pincéis, cores, papéis, argila, cola, figuras, recortes, água, areia, corpo, colagem, sucata, costura, tricô, culinária, teatro, literatura (Tocantins, 2016).

Para finalizar, é indispensável dizer que a aplicação da arteterapia tem promovido resultados bastante eficazes. A prática tem demonstrado que os sujeitos que fazem uso das artes para fins terapêuticos, conseguem desenvolver uma posição subjetiva nova diante da vida, problemas e sintomas. Em outras palavras, a arteterapia promove qualidade de vida.

Referências

ARANHA, M. L. A; MARTINS, M. H. P. Temas de Filosofia. 2 ed. Salvador: Editora Moderna, 1992.

COQUEIRO, N. F; VIEIRA, F. R. R; FREITAS, M. M. C. Arteterapia como dispositivo terapêutico em saúde mental. Acta Paulista de Enfermagem: São Paulo, v. 23, n. 6, p. 859-862. 2010.

REIS, A. C. A arte como dispositivo à recriação de si: uma prática em psicologia social baseada no fazer artístico. Barbarói: Santa Cruz do Sul, n. 40, p. 246-263. 2014.

TAVARES, C. M. M. O papel da arte nos centros de atenção psicossocial – CAPS. Rev Bras Enferm: Brasília, v.56, n. 1, p. 35-39. 2003.

TOCANTINS, M. O que é arteterapia?. Disponível em: http://www.marlytocantins.com.br/arteterapia1.htm . Acesso em: 14/05/2016.

WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Numeração das Artes. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Numera%C3%A7%C3%A3o_das_artes . Acesso em: 14/05/2016.


Jonathas Rafael

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