palavras desassossegadas

Tudo aquilo que se tornou recôndito, de uma maneira ou de outra, esforça-se por se manifestar.

Jonathas Rafael

A língua é parte integrante do ser humano: constitui sua identidade. Por sê-lo, não é estável, muito pelo contrário, é viva. A língua é metamorfose.

Cartas a um pai ausente – Ensaio

Cartas possuem a capacidade de revelar nas entrelinhas nosso mais íntimo eu. Quem nunca enviou uma, duas, três... a um destinatário que o tempo, cautelosamente, fez questão de fazer esquecível? Por isso foram compiladas neste trabalho cartas, cada uma com suas particularidades, de um autor anônimo a seu pai, seu querido pai, para serem lidas, melhor dizendo, analisadas. Os detalhes são essenciais, porém, não menos fugidios.


Cartas (2014) - Michal Jarmoluk.jpg Cartas (2014), de Michal Jarmoluk. Fonte da imagem: Pixabay.

Instância do Sul, 13 de agosto de 1950

Papai, hoje é dia dos pais! Já tem nove anos que a gente se conhece. Um tempão!!! Até hoje não escrevi uma carta dizendo o quanto você é especial para mim! A professora Divânia disse que um dos melhores jeitos de demonstrar que uma pessoa é especial para a gente é escrevendo uma carta. Eu nunca escrevi nenhuma, esta será a primeira. Já conta, não é?

Então vamos às vias de facto, e não de fato, papai, como você costuma aconselhar. Já tem todo esse tempo que a gente se conhece! A gente se abraça, a gente se beija, você faz cócegas na minha barriga e eu na sua, mas nada de carta! Já é mais do que tempo!!! Quero dizer que você é tudo para mim. Nossa, nunca conheci alguém tão inteligente, ensina-me os deveres de matemática e ciências com tanta facilidade. Nunca conheci também alguém tão corajoso, você mata todos os ratos de casa com tanta esperteza, enquanto mamãe sobe na cadeira. E para subir em cima da casa para arrumar o telhado, sem escada, escalando o muro? Nossa, que demais! Eu até tento subir também, geralmente você não está aqui, mas mamãe grita comigo, dizendo que eu vou é machucar. Ah, nunca conheci também alguém tão popular. Quando a gente vai ao centro, você aperta a buzina sempre que para no sinal, e sempre buzinam para você também! Isso significa que você é especial, papai! Mas eles não escrevem cartas a você, então eu acho você mais especial! Se bem que na segunda-feira que passou vi mamãe conversando com o carteiro e pegando um envelope branco. Era uma carta, eu acho. Ela disse que você iria perder mais pontos, foi quando eu não entendi direito. Mas, não importa, na vida é assim mesmo, “A gente ganha pontos com uns e perde com outros.”, como você mesmo disse, papai. Nunca vou esquecer essa frase. Bom, acho que o que eu queria dizer era isso mesmo.

Eu me esqueci de dizer que estou precisando de um cachorro para brincar, ser filho único não está sendo fácil! A professora Divânia mandou dizer também que preciso de aulas de português, e que conhece uma mulher que mora lá perto de casa. Ela disse que vai corrigir todas as cartas, então acho que a minha não vai ter muitos erros. Pense nisso, papai!

Um abração de seu melhor filho e admirador!

Florescência, 1° de abril de 1960

Pai, como você está? Já faz alguns meses que nem eu nem a mãe vemos você! Telefonamos incessantemente, todos os dias, mas não tivemos êxito, por isso estou escrevendo esta carta. Precisamos de você aqui, as coisas estão desandadas. O Saraiva morreu, acho que por causa da velhice. Esse é um dos piores momentos de se ter um cachorro. A gente se apega demais, demais! A mãe está com febre, acho que por causa da mudança do clima, que está ainda mais instável por aqui. Ora sol, ora chuva, ora sol mais chuva: agora está chuva e frio.

Ontem, o novo vizinho veio a nossa casa para reclamar do som alto. Na verdade, acho que nem foi por causa do som alto, mas pelo estilo da música. Ele é quem não sabe. Um batido mais forte até que é bom, faz o coração se mexer. Vou ficar na minha, se ele vier aqui novamente, dou meus pulos. Aconteceu também que fui suspenso da escola. A diretora ficou sabendo que estávamos partilhando um cigarro no banheiro. Eu nem fumando estava, tive de ser punido junto com os moleques. Acredite se quiser, mas eu estava só vigiando. Quando dei por mim, a diretora já estava dentro do banheiro, já tinha descoberto tudo. Se tivesse sido lá na outra escola, tudo teria ficado bem, eu receberia apenas algumas advertências.

Repito, as coisas estão fora do lugar! Agora, estou sem cachorro, sem aula, sem os colegas. Não posso contar com a mãe, ela não está dando conta de cuidar nem de si mesma. Ah, laia me esquecendo de uma coisa, agora estou sem as aulas particulares de português também. A nova professora disse que não preciso ir mais às aulas, porque alcancei o nível esperado. Vou pegar o dinheiro das aulas e ajudar aqui em casa, até você voltar! Preciso que você volte o mais rápido possível; a mãe, também. Ah, mais uma coisa, traga uma lembrança para mim e para ela!

Não se demora, porque o dinheiro não é muito!

Florescência, 18 de abril de 1960

Pai, cadê você??? As coisas estão fora do lugar por aqui!!! Enviei-lhe uma carta há alguns dias relatando tudo, mas ela retornou! Acho que por causa da chuva forte. Volte o mais rápido possível!!! Estou sem cachorro, sem os colegas, sem aula de novo, a diretora me viu beijando uma menina na sala, e com problemas, mas espero que não sem você!

Maturrão, 22 de janeiro de 1980

Pai, já tem quase 20 anos que estou esperando por você! Vi Caio esta semana, e ele me disse que você foi à residência dele, lá em Florescência, no final do mês passado. Disse-me também que você procurou saber de mim e da mãe. Agora é tarde, seu... seu... desgraçado! Estou morando em Maturrão, a uns 400 quilômetros de lá. Estou casado e com filhos, aliás, uma menina que corre por todos os lados e um menino que está prestes a conhecer este mundo. Casei com a única filha do Néscio, o vizinho lá de Florescência, a Dória. Foi logo depois de me formar em música. Se eu contar como é que nos conhecemos, até o sol irá ao encontro da lua... Dória é formada em Pedagogia. Já adquirimos casa própria. Estamos felizes!

A mãe, bom, a mãe provavelmente está morando a uns, sei lá, bons quilômetros daqui. Ela morreu não se sabe de quê. Os médicos não conseguiram realizar o diagnóstico. Para muitos, uma tristeza. Para mim, ela descansou, andava bastante prostrada. Muitos lá de Florescência afirmam até hoje que o estado dela adveio, em grande parte, das vivências contigo. Creem fielmente que as idas dela à igreja foram determinantes para aliviar seu estado. Eu, também.

Não sei se irá receber esta carta, não sei nem se recebeu as anteriores, mas vou enviá-la assim mesmo, destinada ao endereço que Caio disse. Não para se sentir contrito e vir me visitar. Envio-lhe esta carta para dizer que, caso venha a Maturrão nos próximos dois anos, não venha a minha casa, que fica, vou dizer o local para não ter erro, perto da Cruz Altiva. Não procure saber de mim, tampouco dos fatos a meu respeito. Aprendi a viver com e apesar de sua ausência. Não quero viver tal qual o clima de Florescência, uma labilidade que só. Não preciso apresentar Dória pessoalmente, você já a conhece até mais do que eu: pegou-a no colo quando bebê. Quanto às crianças, pode deixar, falarei de você a elas, bem como mostrarei algumas fotos suas. Não pretendo ficar aqui por mais de dois anos. Depois deste período, fique à vontade por estas bandas. Tem mais, caso você me veja pelos lugares deste nosso país, o que eu julgo ser quase impossível, renuncie os cumprimentos. Aliás, julgo também que nem iremos nos reconhecer! Mas, sabe como é, filho de peixe, peixinho é. Não sei se você está casado e com filhos. Se sim, um abraço fraterno em você e nos seus. Se não, só em você.

A gente se faz e se (des)faz nas relações. Adeus!

Amarantes do Norte, 20 de junho de 2011

Querido pai, Começo esta carta lhe pedindo desculpas, desculpas por não a ter enviado com antecedência. Fiquei, por muito tempo, me perguntando se a escrever seria válido, até que cheguei à conclusão de que sim. Mesmo que eu não a entregue em suas mãos, escrevê-la me fará bem. Escrever sempre faz bem. Vou escrevendo seu conteúdo aos poucos, minha velhice não está tão agitada assim: tenho poucas doenças. Acho que é por causa dos dias vivenciados em Florescência. Seu clima era oscilante, é verdade, mas fez bem à alma, pelo menos até certo ponto.

Não me demorando muito, porque a velhice não admite delongas, gostaria de lhe dizer que há alguns dias nos vimos, mais especificamente, há seis meses. Digo que nos vimos porque, estando diante de você, olhei em seus olhos e vi que você também olhava nos meus. Nos fitamos por alguns instantes. Foi em Maturrão, na Rua Esquerdos de Sá, onde há aquela turba composta por contrastes, de um lado, pedintes, de outro, ricaços, cada um com sua ocupação específica. Eu não era um dos pedintes, você não era um dos ricaços, por isso é que pudemos conversar, com os olhos. Foi uma pena não ter nos cumprimentado. Aliás, foi uma pena eu não ter cumprimentado você. Ora, eu quem fez o pedido, você apenas o aceitou.

Não sei o que você foi fazer lá, não tive curiosidade de saber. Eu fui com o objetivo de pôr no nome da Célia, minha filha, sua neta, a escritura da casa. Douglas está fora do país, foi conhecer a França, se não teria ido também. Ambos conheceram você, conforme prometido. Dória preferiu ficar.

Isso não é tudo. Gostaria de lhe pedir desculpas por não entender suas ausências durante todo esse tempo. Em certos momentos da vida, somos possuídos por sentimentos que nos esforçamos por reprimir. Hoje entendo, antes seria impossível. Eu tenho consciência disso. Fiquei sabendo por parentes mais próximos de Florescência, prefiro negligenciar os nomes, que, depois que você e a mãe se separaram, cartas eram enviadas mas não chegavam a casa, tampouco as minhas iam. Tudo por causa do carteiro da cidade que era um admirador da mãe e que queria me adotar. A mãe morreu antes de saber disso. O carteiro também morreu antes mesmo de saber que eu sabia. Parece cômico, e de fato o é, mas não menos trágico. Pagamos caro por tudo isso. Aos poucos nos distanciamos, até que sobraram apenas as representações.

Soube os porquês da separação. Alguns dizem que foi por causa de divergências de personalidade. Alguns outros dizem que foi por causa de vício de caráter. Indiferente disso, nada mais admirador do que quando dois têm maturidades suficientes para romper com um relacionamento cuja dinâmica faz adoecer. Foi um ato de coragem de ambos, concluo eu.

Para finalizar, saiba que com o passar do tempo pude perceber o quão você foi importante para mim! Tudo que aprendi tendo você como meu mestre, eu busquei transmitir à Célia e ao Douglas, sobretudo as teimosias. Se não fosse a teimosia, a vida seria apenas monotonia. Estou para ser avô, mas não sei se vou aguentar até lá. Talvez o terceiro abraço recebido seja o último dado, o primeiro e o segundo ficam por conta da mãe e do pai. Enquanto isso, vou vivendo e sobrevivendo. Aqui é a última terra em que ponho meus pés...!

A vida é para ser vivida, apesar dos embaraços. Descanse em paz!


Jonathas Rafael

A língua é parte integrante do ser humano: constitui sua identidade. Por sê-lo, não é estável, muito pelo contrário, é viva. A língua é metamorfose..
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