palavras desassossegadas

Tudo aquilo que se tornou recôndito, de uma maneira ou de outra, esforça-se por se manifestar.

Jonathas Rafael

A língua é parte integrante do ser humano: constitui sua identidade. Por sê-lo, não é estável, muito pelo contrário, é viva. A língua é metamorfose.

Machado de Assis: um brasileiro instiga-dor

Machado de Assis é, sem dúvida, um exemplo de superação. Mesmo sendo considerado pela elite burguesa de sua época um “ninguém”, não desistiu de seus objetivos, tanto é que se tornou um dos principais literatos do mundo. Com efeito, este artigo tem por objetivo discorrer, de maneira sucinta, acerca de sua vida, bem como evidenciar peculiaridades de sua obra.


Machado de Assis.jpg Machado de Assis - ilustração 1873, de autor desconhecido. Fonte da imagem: Templo Cultural Delfos.

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente no Morro do Livramento, em 1839. Nessa época, a cidade era composta por, em média, duzentos mil habitantes. A metade dessa população era escravizada. A expectativa de vida para os escravos era de vinte e cinco anos de idade; para o restante da população, trinta e quatro (Aguiar, 2008).

Machado era filho de Francisco José de Assis, brasileiro, mestiço, pintor e dourador, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, açoriana e lavadeira agregada. Até seus onze anos de idade, não há quase nenhum registrado a seu respeito. Óbvio, registrar dados da história de um menino pobre, criado no morro, sem nenhuma perspectiva de vida, é uma tarefa inútil. É sabido apenas que ele era neto de escravos e residia em uma chácara com seu pai, sua mãe, sua irmã caçula e sua madrinha, a proprietária dessa chácara. Aos dez anos de idade, devido a doenças deletérias, perdeu-as. Essa lacuna na vida do escritor suscita demasiada frustração em muitos biógrafos, especialmente ao se depararem com sua genialidade, que até hoje é um enigma a ser decifrado. É custoso, para a elite, aceitar que um sujeito parco pode sobressair-se mais do que um sujeito abastado (Aguiar, 2008).

Aos quinze anos de idade, seu pai casou-se novamente, com a mulata Maria Inês. Ela se incumbiu de inscrever Machado na escola pública, a única que ele frequentou. Em consequência, tornou-se aprendiz de gráfico na Tipografia Nacional, presidida por Manuel Antônio de Almeida. Em certa ocasião quase foi demitido: Manuel Antônio foi informado de que um de seus empregados estava fugindo do trabalhado para ler os livros que imprimia. Portanto, começou a investigar. Logo, legitimando a denúncia. O fato é que, ao invés de demiti-lo, admirou-o, aumentou seu salário e o inseriu no contexto de escritores e literatos da época, suscitando sua ascendência social e intelectual (Aguiar, 2008).

Com efeito, Machado de Assis foi se aprimorando e ascendendo cada vez mais, tanto social quanto intelectualmente. Exerceu vários cargos públicos. Participou como cofundador e designado presidente várias instituições, sobretudo da ABL (Academia Brasileira de Letras), em 1897. Dominou as línguas francesa e latina, além de elaborar, em média, um total de 10 (dez) romances, 206 (duzentos e seis) contos, 253 (duzentas e cinquenta e três) poesias, 24 (vinte e quatro) crônicas, 10 (dez teatros), 45 (quarenta e cinco) críticas, 3 (três) traduções e 10 (dez) miscelâneas (MEC, 2008).

Após esse percurso, Machado faleceu, mais especificamente no dia vinte e nove de setembro de 1908, aos sessenta e nove anos de idade, exercendo cargo público. Foi sepultado conforme sua determinação: no mesmo sepulcro de sua esposa no Cemitério de São João Batista (MEC, 2008). Foi reconhecido, ainda em vida, como o maior escritor brasileiro de prosa e de ficção. Quem diria que um menino descendente de escravos, mulato, epiléptico, gago e, por isso tudo, muito tímido, conseguiria chegar aonde chegou e conquistar o que conquistou. Quem diria que esse menino conseguiria sequer sobreviver. Nasceu um “ninguém”, segundo a classe elitizada; faleceu cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta. Antes que este parágrafo finde, é imprescindível ressaltar mais um dado acerca de Machado de Assis, se todos esses acima já não foram suficientes: ele era autodidata (Aguiar, 2008).

Analisando os fatos, é possível perceber que Machado de Assis começou a elaborar suas obras na Cultura oitocentista, adjetivado assim o século XIX, período em que escritores e artistas do mundo descreviam traços culturais de seus países através de suas obras. Sendo eles influenciados eminentemente pelo Romantismo. Machado, por sua vez, foi um dos primeiros escritores a questionar as finalidades desse movimento no Brasil, porque o concebia como uma maneira de circunscrever e padronizar a literatura. Aliás, já na condição de escritor conspícuo, questionou os intentos de movimentos literários ulteriores que, para ele, tinham as mesmas pretensões. Tanto é que, durante toda a elaboração de sua obra, não seguiu nenhum tipo exclusivo de movimento literário (Faria, 2008).

A partir de então, teve por objetivo elaborar romances que propiciassem análises dos caracteres dos seus personagens. Mais especificamente, teve por objetivo elaborar romances que propiciassem análises psicológicas dos seus personagens e dos seus conflitos internos. Portanto, distanciando-se da tipologia literária hegemônica no Brasil à época, que era influenciada, sobretudo, por americanos e portugueses, ou seja, inclinada ao relato de fatos referentes à sua própria cultura. Com efeito, foi considerado um gênio, mais até, Um Mestre na Periferia do Capitalismo, por motivos plausíveis, porque ele se achava anos frente à sua época. Empenhou-se, por exemplo, nessa árdua tarefa, em média, noventa anos precedentes à vigência da Psicologia como ciência no Brasil (Faria, 2008).

A crítica, ao se deparar com essa situação, teve por objetivo analisá-la. Com efeito, declarando que, realmente, algumas características legitimavam a distinção da obra machadiana das demais de sua época. A partir disso, sendo considerado um escritor enigmático, suscitando, portanto, várias interpretações de sua obra no transcorrer dos séculos. Uma obra literária, assim como a machadiana, é rica quando permite múltiplas interpretações, não se circunscrevendo a um determinado modismo, época ou cultura, mas aberta a várias gerações em diferentes contextos sociais (Faria, 2008).

Essas características tão peculiares na elaboração de sua obra, de maneira sutil direcionam críticas à sociedade. Para isso, seu ardil principal é a dissimulação. Suas ideias não são explicitadas, mas se acham esparsas na pragmática do texto. Sua narrativa baseia-se nisso. É vital ter uma visão mais holística do contexto para apreender o conteúdo por ele transmitido. Na obra machadiana, as ideias podem ser, às vezes, capciosas, feitas para ludibriar o amigo leitor, que é demasiado impaciente (Motta, 2004).

Sua obra não é circunscrita. Está sempre inclinada ao estabelecimento de laços entre seus personagens e o contexto histórico-social como susceptível à ampliação a fim de intenções de universalidade. Fornece exemplos daquilo que há de mais representativo a ser interpretado e que está manifesto na “mente” dos seres humanos. Tanto é que, com muita frequência, é possível perceber seus leitores se identificando com seus personagens (Freitas, 2001).

Enfim, cumpre dizer que embora Machado não tenha seguido exclusivamente os modismos de uma escola literária específica, não implica dizer que sua obra tenha um valor reduzido. Muito pelo contrário, sua resistência fez sua obra ser atemporal, foco de leitura das mais diversas gerações. Esse é um dos motivos mais imponentes que o fez receber a intitulação de clássico (Faria, 2008).

Referências

AGUIAR, Luiz, Antonio. Machado de Assis: vida, obra, curiosidades. In: Salto para o Futuro. TV Escola. Machado de Assis: bruxarias literárias. 2008, p. 06-10. Disponível em: https://michellyribeiro.files.wordpress.com/2011/11/bruxariasliterarias-machadodeassis.pdf . Acesso em: 21-10-14.

FARIA, Regina de. Machado de Assis: um mestre da literatura. In: Salto para o Futuro. TV Escola. Machado de Assis: bruxarias literárias. 2008, 11-18 p. Disponível em: https://michellyribeiro.files.wordpress.com/2011/11/bruxariasliterarias-machadodeassis.pdf . Acesso em: 21-10-14.

FREITAS, Luiz Alberto Pinheiro de. Freud e Machado de Assis: uma interseção entre psicanálise e literatura. 3 ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2001, 175 p.

MEC. Machado de Assis: obra completa. Brasília, 2008, 1 p. Disponível em: http://machado.mec.gov.br/CRONOLOGIA-MAINMENU-121. Acesso em: 21/10/14.

MOTTA, Giovana, Caires. Ao Abrigo da Dissimulação: a crítica machadiana e o mundo das aparências. UFMG, 2004, 9 p. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/data1/autores/98/machadocritica04.pdf . Acesso em: 21/10/14.


Jonathas Rafael

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