palavras desassossegadas

Tudo aquilo que se tornou recôndito, de uma maneira ou de outra, esforça-se por se manifestar.

Jonathas Rafael

A língua é parte integrante do ser humano: constitui sua identidade. Por sê-lo, não é estável, muito pelo contrário, é viva. A língua é metamorfose.

Psicanálise e literatura: reflexões sobre os escritores e suas criações

O que os escritores fazem, ao elaborar suas criações literárias? De onde eles extraem seus conteúdos? Como essas afetam seus leitores? São perguntas a que este artigo buscará responder, para tanto, fundamentando-se nos argumentos de Freud: um psicanalista amante da 6ª arte.


Sigmund_Freud_LIFE.jpg Sigmund Freud (1922/2014), de Max Halberstadt (Domínio Público). Fonte da imagem: Wikimedia Commons.

Alguns de nós, ao se ocuparem com a escrita, mesmo que de maneira descomprometida, provavelmente puderam perceber que esta prática requer esforços elevados. E se por acaso tenham pretendido se ocupar com a criação literária, então puderam perceber que os esforços requeridos são ainda mais elevados, logo, sendo afetados por sentimentos de impotência, justificados por suas dificuldades, ou até mesmo por suas incapacidades, para cumprir com seus objetivos. Outros de nós, a minoria, é verdade, ocupam-se com a prática da escrita e com a criação literária, mas, ao contrário dos primeiros, demonstram possuir elevada maestria para tal: estes são os escritores. Embora haja essa diferenciação, os segundos asseguram aos primeiros ser possível de eles se tornarem escritores apurados, afirmando que a Arte Literária extinguir-se-á apenas quando o último homem morrer (Freud, 1908/1996).

Os escritores demonstram ter razão quanto ao que asseguram aos que objetivam se ocupar com a escrita e com a criação literária. Mas, o que, de fato, eles fazem? Para responder a essa pergunta, comecemos por compreender a atitude de uma criança ao brincar. Ela cria um mundo singular, melhor dizendo, apreende os elementos de sua realidade e em seguida os modifica de maneira que fiquem ao seu agrado. Ao brincar, dá pouca consideração ao mundo exterior a ela, ao passo que leva muito a sério o mundo singular que criou, atribuindo a ele cargas de emoção elevadas. É importante saber que a criança faz isso de maneira intencional, já que se ausentar de sua realidade promove-lhe bastante prazer. Os escritores, não menos, já que criam um mundo de fantasias, que por sua vez também é revestido de cargas de emoção elevadas, bem como sabem perfeitamente distinguir o mundo exterior do por eles criado (Freud, 1908/1996).

Ao brincar, a criança objetiva ser adulto, repetindo os comportamentos dos mais velhos, e isto não é por ela escondido. Já com o adulto, por ser esperado dele dedicação total ao mundo real e aos seus afazeres práticos, é obrigado a reprimir toda e qualquer atitude que faça referência às suas atitudes infantis. Por consequência, não seria certo dizer que os escritores brincam, porque um adulto o fazer seria repugnante, bem como os que partilhassem de sua brincadeira. Certo é dizer que os escritores, ao invés de brincar, fantasiam, criam devaneios. Uma coisa é inquestionável: nós, os seres humanos, nunca abrimos mão daquilo que nos promove prazer; o que de fato fazemos é substituir o que nos causa prazer, que se flagrado por terceiros é repudiado, por outra atividade que nos cause prazer semelhante e por sua vez seja aceita por terceiros: é o que acontece com os escritores (Freud, 1908/1996).

Podemos dizer, então, que o que os escritores fazem é devanear, porque é proibido brincar. Além disso, fazem com que outros, também adultos, façam do devanear um substituto de seu brincar infantil não mais permitido. A questão é que somente pessoas insatisfeitas conseguem fazê-lo. Agora, certo é dizer que os motivadores de tais devaneios dependem muito do caráter e do gênero de uma pessoa, bem como das circunstâncias em que esta se acha (Freud, 1908/1996).

Dito isso, podemos compreender de onde os escritores extraem os conteúdos de suas criações literárias. Com a ajuda da experiência, foi possível perceber que eles o fazem de dois modos.

Em relação ao primeiro modo, podem ser extraídos de suas próprias imaginações, e comumente estão relacionados às suas infâncias. Em suas obras, via de regra há um personagem que é o centro dos interesses, digno de simpatia e que está sob a proteção de uma Providência especial, portanto, nunca morre: o herói. Em relação às personagens femininas, apaixonam-se sempre pelo herói, o que não acontece com frequência no mundo real. Há a bifurcação fixa entre os bons e os maus, o que também não é confirmado com frequência no mundo real, sendo os bons vinculados ao herói e os ruins aos inimigos e rivais deste. Além disso, o herói é sempre apresentado ao leitor antes dos demais personagens (Freud, 1908/1996).

Esse tipo de criação literária justifica-se porque seus escritores conseguem, muito mais do que os outros, através de vivências pelas quais passam no presente, despertar lembranças que estão intimamente relacionadas às suas vivências infantis. Com isso, fazem uso de suas criações literárias para colocar em prática essas vivências passadas, que, como dito anteriormente, estão insatisfeitas. Em outras palavras, suas criações literárias são a substituição de suas vivências referentes ao período infantil (Freud, 1908/1996).

Em relação ao segundo modo, podem ser extraídos não das imaginações dos escritores, do mundo interno, e sim do que já existe no mundo externo. Embora assim procedam, estes escritores possuem certa autonomia quanto à escolha dos conteúdos e alteração destes, que são extraídos de mitos, contos de fadas, lendas, histórias, em suma, tudo o que é considerado tesouro cultural e continuamente transmitido de geração em geração. É ali que muitas criações literárias se diferenciam em relação às suas difusões, porque alguns escritores fazem uso de conteúdos bastante limitados a uma cultura, por consequência, levando-as a receber caráter temporal, enquanto outros escritores fazem uso de conteúdos acessíveis a outras culturas, fazendo suas criações se tornarem atemporais, por possuírem caráter de universalidade (Freud, 1908/1996).

Embora haja essa diferenciação, ambos os tipos de escritores possuem qualificações para analisar com maestria as questões humanas, sensibilidade para depreender os impulsos ocultos na mente de outras pessoas e alento para deixar as suas, inconscientes, manifestarem-se. Eles se libertam através de suas criações e, assim, influem outras pessoas a fazerem-no também, posto que o segundo tipo de escritores demonstra-se mais atilado para tal (Freud, 1908/1996).

Para findar a linha de raciocínio, temos de compreender como as criações literárias afetam seus leitores. Digamos que essas causam a seus leitores uma quantidade imensa de prazer, possível tão somente porque lhes comunicam o irreal ao invés do real. Mas, por que isso acontece? A resposta seria pelo fato de que o prazer obtido através das criações literárias liberta tensões existentes nos inconscientes de seus leitores, fazendo-lhes, com efeito, criar seus próprios devaneios, sem sanções de terceiros ou sentimentos de vergonha. Nesse sentido, podemos considerar as criações literárias como uma realidade convencional, libertadora, que promove fuga da penosa e austera realidade concreta. São criações imaginárias, é verdade, mas despertam emoções reais antes vistas como impróprias a um adulto. Essa técnica dos escritores, a de compor um mundo imaginativo, é de suma importância, porque, caso fossem apresentadas situações de maneira objetiva, ao invés de causarem prazer aos seus leitores, causariam, única e exclusivamente, desprazer (Freud, 1908/1996).

As criações literárias são uma das principais vias de acesso aos conteúdos inconscientes, haja vista que os acessar de maneira direta é um ato impossível. Proporcionam prazeres psíquicos elevadíssimos aos seus criadores, ao passo que aos seus leitores senão prazeres psíquicos parciais, mas não menos importantes. São relevantes, em Psicanálise, devido à vitalidade que as fantasias têm na vida psíquica (Freud, 1908/1996).

Enfim, cumpre dizer que Freud, a saber, durante toda, toda, a elaboração de sua teoria, fez uso da Arte Literária, isto é, de 1900 a 1930. Ora para ilustrar suas linhas de raciocínio, ora para analisar de onde os escritores extraem os conteúdos de suas criações literárias, ora para identificar quais os conteúdos implícitos presentes nestas. Demonstrou que esse é um campo de estudo fértil, bem como promoveu diretrizes para os estudos de intelectuais de seu tempo, que estavam e ainda estão por vir, tornando-se uma referência. Com efeito, em detrimento de muitos indivíduos que julgam improváveis as conexões entre Psicanálise e Literatura, é impossível não concordar com Freud e dizer que sua teoria é, absolutamente, capaz de responder a questões relacionadas à Arte Literária. Não são estas palavras que legitimam isso, e sim mais de um século de produção científica contínua.

Referência

FREUD, Sigmund. Escritores Criativos e Devaneio (1908/1996). In: FREUD, Sigmund. "Gradiva" de Jensen e outros trabalhos (1906-08/1996). Edição standard brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: IMAGO. p.133-143. Vol.IX.


Jonathas Rafael

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