palavras desenhadas

Literatura e contemporaneidade

Tais Veloso

Olmo e a Gaivota

A cineasta brasileira Petra Costa surpreende mais uma vez com o seu segundo filme "Olmo e a gaivota" (2015). Assim como no filme Elena(2012). O filme traz á tona um tema não muito explorado no cinema e nas outras artes, relatando a gravidez de uma mulher exatamente como ela é. Uma quebra de estereotipos, como "toda mulher quer ser mãe" e "toda gravidez é um momento mágico e agradável de uma mulher".


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É um filme ficcional e documentário ao mesmo tempo, brasileiro-dinarmarquês, dirigido pela cineasta brasileira Petra Costa, e a dinamarquesa Lea Glob. É possível ouvirmos a voz da Petra Costa conversando com os personagens, fazendo perguntas sobre os seus sentimentos, ou pedindo que melhorem a fala anterior. No primeiro momento em que isso acontece causa um certo estranhamento para o espectador que não está acostumado com essa tradição de filme, mais comum entre os Dinamarqueses. É um documentário construído, em que os personagens tem suas falas, não é de um todo verossímil a realidade dos atores. O filme que conta a história do casal Olivia (a italiana, Olivia Corsini), e Serge (o francês Serge Nicolai), e eles estão ensaiando uma peça que se chama A Gaivota, de Tchekov, eles ensaiam no Theatre du Soleil, quando o grupo deles de Teatro, recebem um convite para se apresentar em Montreal e Nova York, Olivia descobre que esta grávida. E a forma que Olivia recebe essa gravidez, sendo ela, uma mulher madura, de 34 anos, casada, é uma forma não muito esperada para uma mulher na idade dela. E isso é uma coisa muito boa. Porque isso traz uma veracidade muito grande ao filme, na vida real, nem toda mulher casada, com 34 anos, quer ser mãe. Olivia é uma mulher que foge da concepção machista e estereotipada que a gente costuma ver nos cinemas, na literatura (nem tanto), e na televisão. Em um momento ela se questiona como ela vai ser mãe, porque ela foge desse estereotipo da mãe protetora, certinha, delicada que geralmente as mães são. Porque ela xinga quando está irritada, ela sai chutando as coisas pela frente quando está nervosa e esse não é o temperamento esperado de uma mãe. Esse questionamento que ela fez, é importantíssimo no filme, e com certeza vai aproximar as espectadoras mães, com temperamento parecido de Olivia. E na vida, tem muitas Olivias, e na verdade, não há mal nenhum em ser uma mãe assim, xingar quando está irritada ou sair derrubando tudo o que tem pela frente não torna ninguém menos mãe ou má mãe. Mas infelizmente, a arte de alguma forma, procura não mostrar com muita frequência esse tipo de mãe, ou demoniza, geralmente essas são as características de mães vilãs.

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O filme retrata também a angústia de Olívia ao ficar em casa, em não poder atuar. É engraçado como as vezes a gente pode pensar que a personagem está quase enlouquecendo, mas depois mudamos de ideia e vemos que as atitudes dela são coerentes, sensatas. Mas existe uma linha tênue entre loucura e lucidez, que de certa forma, também é abordada no cinema, e isso novamente toca na verossimilhança externa do filme, a mulher realmente pode enlouquecer ou ter depressão durante e depois da gravidez, existem muitos casos, isso era pra ser natural mas muitas vezes parece um tabu. Assistindo o filme me dei conta de que nunca tinha visto um filme, lido um livro, ou assistido uma peça de teatro em que a gravidez fosse tratada com tanto detalhe, tanta sensibilidade, delicadeza. Petra Costa parece ter o dom de saber falar sobre coisas que ela nunca vivenciou. Esse é o segundo filme dela, em Elena (2012) ela relatou o suicídio da irmã, que foi muito bem recebido pela crítica. Apesar dos dois filmes serem completamente diferentes, podemos notar três semelhanças, os dois filmes tratam de tabus (a gravidez, o suicídio), ambos os filmes trazem o teatro pro cinema, e contam histórias de mulheres. Coincidentemente a dinamarquesa que divide a direção com Petra, também já dirigiu um documentário sobre suicídio, em que ela relata o suicídio do pai (Meeting my Father Kasper Hojat, de Lea Glob). O filme é excelente, toda mulher que pensa em engravidar, ou não pensa em ter filhos, deveria assistir, e os homens também, para que esses tabus sejam quebrados em ambos os gêneros. Nem toda mulher preza pela maternidade, nem toda mulher madura, acima dos trinta quer formar família, nem toda gravidez é desejada, nem todo momento da gravidez é um momento mágico, é desconfortável, até pra quem assiste a Olivia grávida, a atriz e a personagem, grávidas peladas, em cima de uma balança, se pesando, ou entediada em casa, esperando o marido chegar, sem poder fazer o que ela mais ama que é atuar, sem poder trabalhar, quem assiste a isso, sente um pouco desse desconforto. Acredito que foi esse desconforto que Petra quis mostrar. E ela o fez com sucesso.

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