palavras na barriga

Verbalizo as emoções que me provoca o mundo!

Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que:
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa

Impossível apagar um “Eternal Sunshine”

“Lembro-me de acordar uma manhã e encontrar tudo manchado com a cor do amor esquecido.” Charles Bukowski
Até que ponto, depois de uma história de amor acabar, a queremos esquecer para sempre?


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A primeira vez que vi o filme ‘Eternal Sunshine of the Spotless Mind’, (‘O Despertar da mente’, título em Portugal) mudei a minha visão sobre a forma como lidamos com o amor.

É um filme de 2004 que continua atual depois de passados mais de 10 anos. Conta a história de amor de Joel, interpretado por Jim Carrey e Clementine (Kate Winslet); um casal improvável, pois ele era solitário e aborrecido e ela impulsiva e descontrolada; ou talvez não, se acreditarmos na teoria de que os opostos se atraem...

O filme é a junção dos argumentos de dois livros do francês Boris Vian: A Erva Vermelha e O Arranca Corações; ambos desmembram os temas da memória e das emoções. Uma historia cheia de encanto e doces detalhes, que a quem não viu, só posso recomendar sinceramente que veja; pois simplifica algo tao complicado como o amor e encontra a solução, “aparentemente perfeita”, para todos os desamores da nossa vida.

À parte de toda a fantasia que nos oferece este filme, levanta-se uma questão não só ética, mas principalmente emocional sobre o desenvolvimento de cada um de nós como pessoa. Mostram-nos uma surpreendente máquina que apaga pedaços de memória, erradicando assim toda a tristeza com que muitas vezes temos que aprender a viver. Seria tão mais fácil se depois de um grande desencanto, pudéssemos eliminar as recordações daqueles saudosos momentos e com isso evitar a melancolia.

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No caso do filme, o facto de apagarem da memória das personagens uma parte da história, faz com que essa história volte a acontecer. Repetem-se as situações porque a nossa consciência emocional não muda e não pode ser apagada. Face a uma situação nova, reagiremos sempre da mesma forma se não houver uma lembrança prévia desse tema.

A memória é a capacidade que temos de armazenar e recuperar informação do passado, ajuda-nos a desenvolver novas ideias e usamo-la na toma de decisões no nosso dia-a-dia. Somos feitos de recordações dos locais por onde passámos, das pessoas com quem estivemos e das experiencias que vivemos; se apagássemos isso, quem seriamos nós afinal?

Quando nos apaixonamos, normalmente não vemos todas as questões com clareza, racionalizamos emoções, duvidamos dos nossos instintos e tememos as mudanças que sabemos inevitáveis. Ninguém nos ensina a amar, cada um o faz à sua maneira, única e irrepetível. E apesar do amor ser o núcleo, tem dificuldade em emancipar-se de sentimentos satélites; esses que orbitam à sua volta, repletos de medo, insegurança e imaturidade. Impedem-nos de fazer o que realmente desejamos e às vezes perseguem-nos a vida toda, nutridos pelo arrependimento. Mas apagaríamos nós, memórias felizes, para evitar a mágoa e o desconsolo?

As personagens deste filme mesmo apagando as suas recordações, não puderam evitar voltar a apaixonar-se. Na verdade o amor não depende de memórias, pois quando chega o momento, voltamo-nos a entregar como se fosse a primeira vez.


Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que: "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa.
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