palavras na barriga

Verbalizo as emoções que me provoca o mundo!

Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que:
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa

Adultescência

Com o passar dos anos olho à minha volta e vejo como a sociedade mudou, como as nossas vidas são tao diferentes do que pensávamos que seriam quando eramos mais jovens.
Dizem que os 30 são os novos 20 e os 40 os novos 30, pois parece que sim. Esta nova tendência de viver numa ‘adultescência’ dura há já alguns anos e parece que veio para ficar.


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Este neologismo funde os conceitos de adulto e adolescente, para identificar uma dimensão existencial indefinida, desconhecida pelas gerações anteriores, mas que se converteu numa característica bem marcada da sociedade contemporânea.

Há quem lhe chame o síndroma de Peter Pan, mas na verdade é um pouco mais que isso.

Consideram-se adultescentes, pessoas entre os 25 e 45 anos, que podem até viver em circunstâncias completamente diferentes uns dos outros, mas que se comportam todos de maneira semelhante. Alguns solteiros e com medo do compromisso; e outros casados mas ainda dependentes dos pais, uns com filhos e outros sem; este grupo tem neste momento tendência a aumentar cada vez mais.

Adotaram um look mais moderno e ainda que tenham 40 anos, continuam a vestir “ténis, jeans e t-shirts”, independentemente de poderem também ser profissionais de sucesso. Continuam a ir a festivais de música, ao ginásio, a jogar playstation e a sair de copos com os amigos. As relações sentimentais normalmente duram pouco e os que têm relações estáveis, preferem viajar e aproveitar a vida a dois.

Há a vertente com filhos, adoráveis pais modernos que educam os filhos à sua imagem, dando-lhes a possibilidade de ver o mundo de outra perspectiva. Crescer com uma mente aberta e estabelecer uma relação de amigos com os seus progenitores. Outros, incapazes de assumir a responsabilidade, deixam-nos muitas vezes a cargo dos avós, ou negligenciam-nos largando-os em frente à TV ou entregues às novas tecnologias.

Este fenómeno da adultescência tem não só um lado bom, mas inevitavelmente também um lado mau.

O facto da esperança de vida ter aumentado ajuda a que já não haja pressa para crescer, não passando apenas pela saída tardia de casa dos pais, ou pela dificuldade económica em se independentizarem. É a consequência de ser uma geração que cresceu afetada pela transição de valores socioeconómicos, filhos de pais que viveram ditaduras e pós-guerras; e que os criaram com tudo o que eles não puderam ter; fazendo com que se desenvolvesse nos filhos, uma profunda necessidade de se manterem, o máximo de tempo possível, numa das fases mais despreocupadas da vida, onde a ausência de responsabilidades os liberta de pudores e lhes permite viver mais intensamente. Há quem diga que no fundo não passa de uma juventude egoísta que não faz mais do que iludir os desafios e encarar as responsabilidades com falta de maturidade, ajudando a construir uma sociedade narcisista, influenciada pelas modas, onde se virtualiza as relações humanas e se priorizam os aspetos superficiais da vida. Imagen Thumbnail para growing up.jpg

Não estou totalmente de acordo, mas posso compreender o conceito. Não querendo generalizar, penso que ao rejeitar o modelo autoritário de família, dominante até final dos anos 70; pode-se ter passado para o outro extremo, descuidando-se o papel educativo dos país e minimizando a importância da autonomia e da responsabilidade.

No entanto também acredito que é possível encontrar um equilíbrio, e manter um espirito jovem, destemido e aventureiro aos 40 anos. Vestir-se de forma juvenil e ter uma carreira profissional; construir uma família e continuar a divertir-se com os amigos. Acredito que é possível não nos rendermos totalmente às armadilhas do consumismo, e assim contrariar esta sociedade onde se premia o triunfo material em vez da realização pessoal, e onde há ainda uma grande carência de valores.

No fundo o que se passa, é que hoje em dia há uma consciencialização de que se deve desfrutar da vida ao máximo, viver experiencias como indivíduos independentes e aproveitar a facilidade de mobilidade para conhecer o mundo. O facto de simultaneamente se ter adotado uma atitude irreverente e despreocupada depois dos 30 anos, não tem que ser necessariamente sinónimo de irresponsabilidade e ausência de valores.


Daniela Monteiro Torres

Apaixonada por viagens, acredita que: "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa.
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